A SOCIEDADE PORTUGUESA E AS NOVAS GERAÇÕES
MERECEM UMA ESCOLA PÚBLICA MELHOR
APELO A UMA DISCUSSÃO PÚBLICA ALARGADA DO MODELO
DE GESTÃO DAS ESCOLAS
Está em período de debate público apenas por um mês o Regime Jurídico de Autonomia, Administração e Gestão dos Estabelecimentos Públicos da Educação Pré-Escolar e dos Ensinos Básico e Secundário.
Não apenas como profissionais da Educação, independentemente de qualquer filiação organizacional, mas também como cidadãos e encarregados de educação atentos, queremos manifestar o nosso desejo de um debate digno e alargado sobre um assunto tão importante como este que não pode ficar circunscrito a gabinetes ou a algumas reuniões longe do escrutínio público de todos os interessados.
Fazemos este apelo porque temos consciência de que estas mudanças terão repercussões profundas na qualidade do ensino ministrado nos estabelecimentos do ensino público e que nem todas essas repercussões se encontram devidamente avaliadas neste momento.
Para além disso, este projecto de alteração do regime jurídico ainda em vigor não se apresenta como resultante de uma necessidade pública, claramente sentida e demonstrada na e pela sociedade civil e comunidades educativas, de reformar o modelo em vigor. Pelo contrário, surge na sequência de uma profusão legislativa que se tem norteado por alguma incoerência entre as intenções manifestadas e as condições concretas existentes no nosso sistema educativo, o que desde logo nos suscita as maiores reservas quanto à sua validade.
Não esqueçamos que:
- No sistema educativo português os alunos têm sido alvo de reformas sobrepostas, mal preparadas e pior implementadas.
- Tais reformas sucedem-se sem serem devidamente avaliados os resultados das reformas anteriores,
- A não avaliação aprofundada de todas as medidas e do seu efeito no sistema leva a que os actores institucionais e a cidadania se interroguem sobre as razões destes sucessivos fracassos.
- Apesar de todas essas reformas, os índices de literacia (global ou funcional) continuam dos mais baixos, enquanto que as taxas de insucesso e de abandono escolar são das mais altas, não apenas em termos europeus, como até mundiais.
- Com um novo modelo de gestão, insuficientemente fundamentado e imposto em nome de uma desejável autonomia e abertura da gestão dos estabelecimentos de ensino às comunidades, corre-se o risco de um agudizar das disfunções que o sistema vem demonstrando, com consequências imprevisíveis não só em termos pedagógicos como da coerência, integridade e solidariedade do sistema público de ensino.
Perante este panorama, que aconselha a maior prudência em novas alterações na arquitectura do sistema público de ensino e perante as incoerências internas do projecto do Ministério da Educação em termos operacionais e a sua aparente inadequação quanto ao quadro legislativo em que se insere, nomeadamente quanto à Lei de Bases do Sistema Educativo, os signatários deste manifesto, reivindicam, por isso, ao Governo e ao Ministério da Educação que:
a) Exista um prazo suplementar de dois meses para discussão da proposta governativa;
b) Se promovam debates públicos em todas as escolas do país, mobilizando as comunidades educativas para a discussão das qualidades e óbices do novo modelo proposto;
c) Se faça a divulgação de todas as análises dos dados estatísticos e outros estudos de departamentos do Ministério da Educação, com especial relevo para a Inspecção Escolar relativos ao desempenho das Escolas em matéria de gestão que justificam a necessidade de mudança do modelo existente.
Apelamos ainda a que todos os intervenientes das comunidades educativas (alunos, encarregados de educação, docentes, funcionários não docentes, autarquias) se mobilizem para uma discussão alargada da Escola Pública.
Só com o activo envolvimento de todos na preparação de reformas com esta dimensão e impacto numa área crítica como a Educação é possível garantir que a mudança se transformará em algo positivo e não meramente instrumental.
Os órgãos de gestão das escolas e os Centros de Formação estarão, naturalmente, vocacionados para organizar e dinamizar este debate.
Os autores deste manifesto reiteram que não representam quaisquer organizações socio-profissionais de professores ou profissionais de educação actualmente existentes ou em processo de formação, sejam elas de natureza sindical, profissional, científico-profissional ou outra. Desejam afirmar, porém, que as organizações acima referidas são organizações da sociedade civil com legitimidade própria para se pronunciarem sobre as questões respeitantes ao sistema de ensino e à governação das escolas;
Deste modo, num contexto em que o poder político afirma a necessidade de envolver a sociedade civil na governação das escolas, a eventual limitação da intervenção no debate destas organizações e/ou movimentos independentes constituídos especificamente para este efeito, comprometerá gravemente a legitimidade dessa governação e das políticas que a determinam, gerando inevitavelmente fenómenos de inércia na sua aplicação, em grande parte resultantes da forma como a informação e o debate (não) se realizaram.
Janeiro 10, 2008 at 12:39 am
Creio que no 2º parágrafo não seria de mais realçar que muitos de nós para além de “Não apenas como profissionais da Educação” e de “cidadãos atentos” somos também encarregados de educação preocupados, nessa condição, com o debate em questão.
Janeiro 10, 2008 at 1:05 am
“Não apenas como profissionais da Educação independentes de qualquer filiação organizacional“:
Não me parece muito claro. Os signatários não deverão ser filiados em qualquer sindicato ou associação profissional? Julgo que não é essa a intenção, mas, nesse caso, não deveria ser qualquer coisa como “independentemente de qualquer filiação organizacional” – entre vírgulas, claro -?
Janeiro 10, 2008 at 1:32 am
Excelente manifeste. Concordo com os comentários anteriores e, na sequência das palavras da IC, não só me parece bem a utilização das vírgulas, retirando o carácter restritivo à expressão que qualifica os signatários, como sugeria a seguinte redacção: «independentemente de qualquer filiação organizacional”. É que o serem os signatários eventualmente filiados em alguma organização não lhes retira credibilidade nem o direito de participar no debate ou de assinar o manifesto.O acto de se manifestarem é que se deve afirmar como iniciativa individual e independente de organizações ou agendas políticas, partidárias,sindicais ou outras.
Janeiro 10, 2008 at 6:34 am
A pequena alteração proposta nos comentários de IC e sociedade é pertinente. No entanto, o penúltimo parágrafo do manifesto é esclarecedor em relação a qualquer dúvida que houvesse.
Quanto ao resto, apoiado!
Janeiro 10, 2008 at 9:09 am
Tudo bem.
Estava a olhar mais para o Umbigo dos redactores iniciais e não dos potenciais aderentes.
Vou já alterar a coisa.
Janeiro 10, 2008 at 10:45 am
Olá,
Estou de acordo com a redacção presente. Propunha que fosse adoptada a patir de hoje às 24 h. como forma final e definitiva, caso não existam mais alterações pertinentes. Assim poderia ser distribuída por listas de discussão e por outros meios, a partir de amanhã.
Estou um pouco ansioso em ver como vamos encontrar formas de promover esse debate presencial, o que para mim é pelo menos tão importante como a difusão pública deste documento.
saudações,
Manuel Baptista
Janeiro 10, 2008 at 10:48 am
Todo o meu acordo…
Janeiro 10, 2008 at 11:12 am
Na essência concordo com o texto apresentado e com as alterações aqui sugeridas por Maria Lisboa, IC e soledade. Eu tinha algumas alterações a propor aqui e ali, mas seriam essencialmente alterações de ‘estilo’ [que, pelo que contribuiram, não justificam o esforço, assim sendo desde já manifesto a minha concordância com a versão aqui apresentada.
Janeiro 10, 2008 at 11:13 am
contribuiram = contribuiriam
Janeiro 10, 2008 at 11:21 am
Não é deste tema mas é relevante.
Foi publicado o decreto da avaliação de desempenho
http://dre.pt/pdf1sdip/2008/01/00700/0022500233.PDF (I série de hoje)
Janeiro 10, 2008 at 11:23 am
Mais exactamente:
Decreto Regulamentar n.º 2/2008, D.R. n.º 7, Série I de 2008-01-10
Ministério da Educação
Regulamenta o sistema de avaliação de desempenho do pessoal docente da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário
Janeiro 10, 2008 at 1:03 pm
concordo com a pertinência de lembrar que professores também são enc. de educação.
neste momento já não sei o que mais me custa. se ter uma profissão desgastante que ninguém valoriza, se o facto de os meus filhos não terem alternativa senão frequentarem essa terra de ninguém em que se transformou a escola pública.
E eu, que cada vez menos tenho tempo para lhes dar apoio…………. nem para ir à escola deles falar com a professora.
enfim.
foi um desabafo.
Janeiro 10, 2008 at 5:11 pm
Dou o meu total acordo ao texto e procurarei dar o máximo de colaboração possível ao debate.
De que forma pensam dinamizar a recolha de assinaturas?
Na minha escola irá ser agendada (ainda não sei a data) uma “reunião geral” para esclarecimentos sobre esta proposta e sobre o documento da “avaliação dos docentes”.
Se se realizar em tempo útil procurarei aí que mais colegas subscrevam o manifesto.
Janeiro 10, 2008 at 6:04 pm
Vou tentar que alguém (a Isabel Guerreiro ou o Manuel Baptista, por exemplo) coloque isto online para os interessados assinarem.
Ou até posso ser eu, embora neste momento esteja meio atrapalhado de trabalho
(não é que os outros não estejam).
Janeiro 10, 2008 at 6:05 pm
Concordo com o texto geral e também com as pequenas alterações.
Janeiro 10, 2008 at 6:42 pm
Concordo com o texto proposto~assim como com as rectificações de pormenor também aqui propostas.
Já enviei cópia do manifesto para a Presidente da minha escola afim de ser debatida em Pedagógico e ver se é possível uma tomada de posição da escola.
Tenho bastante curiosidade em ver, caso seja realizável, como irá decorrer o encontro presencial que se aventou.
Toda a colaboração de que precisaem disponham.
Janeiro 10, 2008 at 6:56 pm
Vai-se colocar a petição on-line:
- espero que isso seja ponto de partida para uma coordenação inter-escolas, com pessoas na recolha de apoios em cada escola.
Penso que é urgente agendarmos uma reunião de coordenação entre subscritores do documento, para podermos prosseguir.
Precisamos de estabelecer um dia, uma hora e um lugar.
Quanto a dias: eu posso Seg. ou Ter. da próxima semana, depois das 18h.
O melhor é ser no centro de Lisboa (pela facilidade de transportes). Preferia que fosse numa escola, mas também poderia ser num café, ou algo assim, caso haja dificuldades em obter um espaço.
Há alguém que tenha facilidade em obter a cedência de um espaço em Lisboa (fim de tarde e durante a semana, de preferência?)
Janeiro 10, 2008 at 7:08 pm
Só um detalhe: o texto online no Umbigo é o que tem algumas gralhas resolvidas.
Quanto mais cedo a petição online, melhor.
Não pela quantidade de assinaturas, mas pelo seu significado e circulação por mail.
Quanto ao encontro, para ir a Lisboa, eu realmente é mais fins de semana. No resto não dá, mas quem puder que compareça.
Janeiro 11, 2008 at 3:05 am
Quanto ao encontro em Lisboa, para mim que vivo no Porto, só mesmo ao fim de semana.
Janeiro 11, 2008 at 11:45 am
OK, por mim pode ser um fim-de-semana, mas não o de 19-20, pois estarei no Porto! A não ser que aí se auto-organize algo, nesse caso poderia tentar conjugar com os meus afazeres e encontrar os/as colegas do Norte.
Quanto aos da grande Lisboa:
Decidam data e hora. Arranjemos um sítio público, que esteja aberto ao fim-de-semana!
Janeiro 11, 2008 at 12:46 pm
Boa ideia, reunirem-se no Porto a 19-20.
O mesmo poderia acontecer com os da zona de Lisboa e Sul nessa altura.
Janeiro 12, 2008 at 4:28 pm
[...] Mas como o texto também ficará arquivado aqui no blogue, quem precisar de o usar, pode sempre descarregá-lo ou copiá-lo caso não consiga a visualização mais adequada. [...]
Janeiro 14, 2008 at 9:26 pm
Chamo a atenção para o preâmbulo do Decreto que «destrói» por dentro a própria Lei que pretende instaurar, quando reconhece explicitamente que no actual modelo de gestão há lideranças eficazes e quando reconhece explicitamente que no processo de autonomia nada de substantivo se gerou até hoje nas escolas e no sistema. O Decreto é um experimentalismo inconsequente, entre a demagogia do controle pela comunidade escolar e o autismo da liderança pessoal, o primeiro porque não se exerce de todo e o segundo porque está concebido como correia de transmissão. A escola básica não é um território de líderes inspirados nem um território de comunidades arregimentadas, é uma questão nacional.
Janeiro 14, 2008 at 11:15 pm
Caros colegas:
Devido aos congelamentos da Carreira não sou Titular; sou apenas, e com muito orgulho, Professor. Para quem está predisposto a aguentar esta cretinice, tanto lhe faz ser liderado por uma “liderança musculada” (com matizes, mas, é assim mesmo)como por uma “liderança forte”. No entanto, por coerência de ideal cívico, apoio este Manifesto.
Janeiro 15, 2008 at 2:49 pm
Estou globalmnte de acordo com o manifesto. Estou certo de que a sociedade tem que se envolver e preocupar-se, de facto, com o seu futuro. E este é já hoje, naquelas que são as nossas crianças e alunos nas nossas escolas. Dos comentários anteriores saltou-me o seguinte ‘desabafo’ “…nem tempo tenho para ir falar com a professora do meu filho…” Pergunto eu porquê? A escola não se deveria oragnizar para poder atender as Mães, Pais e/ou Encarregados de Educação? Algo está errado na organização social Escola/Familia/Empresas/Comunidade. Vejam lá aqueles que têm de cumpririr sem mácula um horário no seu local de trabalho (fábrica, loja, obra, ou qualquer outra empresa) de no minimo de 36 horas semanais. Sabem do que falo… Afinal quem “abandona” os filhos? Será responsabilidade exclusiva das familias?
Bom, isto para dizer que devemos discutir as questões sem vitimizações pessoais ou de classe, mas sim, como diz o comunicado para que a reforma seja algo positivo, no objectivo essencial que são os alunos e a qualidade dos RH que o nosso Portugal precisa de ter em mais quantidade. Perguntemo-nos cada um o que de diferente (não digo mais) poderemos fazer para facilitar a missão de cada um e de todos em sociedade.
Sou pai de 3 filhos (felizmente com trabalho para lhes poder proporcionar as bases de uma educação) e membro activo do Movimento Associativo de Pais, actualmente Presidente de uma Federalção de Pais e também colaboro na escola de cada um. Não é fácil mas não é impossível … tenho menos sofá do que o que gostaria e, que outros preferem.
Felicidades para todos.
Janeiro 15, 2008 at 7:49 pm
E como é? Eu assinei logo o texto incial(com o nº9) e divulguei-o integralmente nos meus dois blogues…
Janeiro 16, 2008 at 11:57 pm
Olá a todas e todos!
Também já tinha assinado o manifesto.
Se reunirem no Porto a 19 ou 20, gostaria de estar presente. Dia 20 a qualquer hora, dia 19 até às 14h30 ou depois das 18h.
Como comunicamos? Por esta via?
Cumprimentos
Artemisa