Existem algumas posições interessantes perante o projecto de decreto-lei do Ministério para novo regime jurídico da administração dos estabelecimentos de ensino.
- Uma delas é que não vale a pena discutir isto, porque o mal está feito e esta é apenas a última pedra num edifício que já está erguido. É a posição de muitos professores desanimados que praticamente se resumiram a fazer o que acham – e com parte de razão – mais importante: dar as suas aulas, cumprir os seus deveres profissionais e ponto final.
- Outra é que este documento pouco altera em relação ao 115/98, pelo que é pouco interessante discutir o assunto, pois no fundo tudo fica quase na mesma. É a posição de muita gente que concorda com as alterações, incluindo elementos de órgãos de gestão que sentem que agora têm a possibilidade de, assacando a culpa ao ME, fazerem mini-purgas no corpo docente, aquelas que antes não tinham coragem de assumir.
- Uma terceira é que esta é uma revolução no modelo de gestão das escolas e que serão estas mudanças que modernizarão todo o sistema, o salvarão do colapso e tornarão o sistema público de ensino a oitava maravilha. É a posição da propaganda do ME destinada a dar uma maior aparência de “reforma estrutural” a estas medidas.
São três posições que pecam por redução ou exagero do que é a actual proposta do ME que não é apenas o 115/98 retocado, nem é uma coisa completamente nova e revolucionária. Assim como não é apenas “mais uma” pedra na arquitectura do edifício legislativo que o ME tem vindo a produzir, pelo que não merece especial discussão.
A actual proposta realmente retoma no essencial o 115/98, mas torna mais rígidos os caminhos possíveis para a gestão das escolas, tornando obrugatório o que antes era facultativo.
E, ao mesmo tempo que altera o equilíbrio de forças no seio dos órgãos de gestão da escola, criando um novo circuito hierárquico no seu funcionamento que acaba por colocar, desde que alguns dos actores em presença assim o queiram, fora da Escola o poder decisivo sobre a orientação do projecto pedagógico, da gestão financeira e, em última instância, da gestão dos recursos humanos das escolas/agrupamentos.
E é esse um dos aspectos que urge analisar com mais cuidado, não apenas numa perspectiva de recusa pura e dura da mudança, mas antes de aclaramento do que pode estar semi-oculto neste novo regime jurídico e que pode atingir todos e não só aqueles que têm interesse em manter-se ou aceder ao exercício de certos cargos.
Porque eu não exerço nem pretendo exercer nenhum cargo, mas tenho todo o interesse em perceber o que, daqui por um ano, pode estar a acontecer acima de mim mas com potenciais efeitos bem concretos nas minhas condições de trabalho ou mesmo na mera possibilidade de eu manter o meu posto de trabalho.
E parece-me que é isso que anda a escapar a muita gente e é mesmo isso que o ME parece não querer esclarecer devidamente, refugiando-se na fórmula redutora do aprofundamento da “abertura da escola à comunidade” e da “autonomia”, quando na prática pode ocorrer exactamente o inverso.
(continua após a cena…)
Janeiro 7, 2008 at 8:04 pm
Mais poeira…
Educação: Escolas punidas se não derem prioridade a crianças com necessidades educativas especiais na matrícula
http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/7iADGfTTriuJbHZNP%2BI43g.html
Eles acabam com a maioria dos apoios especializados, com os tarefeiros que ajudam a tratar das crianças com problemas específicos e depois vêm com uma destas, como se fossem as escolas a marginalizar os alunos!!!!!!!!!!!
Janeiro 7, 2008 at 11:23 pm
E há professores que não se enquadram em nenhuma dessas três categorias que o Paulo enunciou. Há os que estão, não desanimados, mas pelos cabelos de tanto aviltamento, desrespeito, vexame e atentados à sua inteligência. Estes professores sentem uns desagradáveis arrepios quando pensam no que se anda a congeminar por aí. Acontece, que na sua terrível lucidez, também sabem que isto não vai lá com diálogo, porque para se estabelecer um diálogo tem de haver pelo menos duas partes interessadas em sentar-se à mesa e “conversar”.
Não é um desistir, muito menos um aceitar. É um …(cherchez le mot).
Acreditam que a solução passaria pela união da, pelo menos, quase totalidade dos Professores deste país. Mas?
Janeiro 7, 2008 at 11:26 pm
Ema, essa é a categoria dos professores que ainda se procuram mexer.
E eu sinto-me nela, não achando que é necessariamente a “conversar” que tudo se resolve, mas pelo menos que precisamos de conversar uns com os outros,, mesmo com os “outros”.
Janeiro 8, 2008 at 8:56 am
Tenho seguido com atenção as excelentes intervenções de PG sobre esta matéria, mas continuo a achar que a legislação está num plano secundário em relação às pessoas que a concebem, que a interpretam e que a aplicam.
O problema reside na “massa” que cimenta a sociedade portuguesa, na sua permeabilidade à corrupção, ao compadrio e ao servilismo, que faz com que todos os edifícios organizacionais e institucionais se deteriorem em benefício da Nomenklatura dominante.
O que se regista no BCP com as suas inenarráveis histórias de promiscuidade, corrupção e permissividade, não é diferente, no essencial, do que se passa nas autarquias, nos hospitais, nas escolas e tribunais deste país.
A legislação é importante, mas os seres rastejantes e viscosos que tecem as leis e se servem delas (ou à margem delas), são o factor mais nocivo e pestilento para a saúde dos cidadãos.
A preocupação central deveria estar concentrada nos actuais responsáveis políticos pela situação que vivemos e não tanto pelas leis que vão sendo paridas do ventre fétido da Nomenklatura.
Janeiro 8, 2008 at 9:29 am
Mas não podendo extinguir os agentes por agora, concentro-me em zurzir os actos legislativos.
Janeiro 8, 2008 at 11:57 am
[...] Educação – O Novo Modelo de Gestão Escolar: As Novas Hierarquias 1 [...]
Março 20, 2008 at 2:10 am
já vi aqui varias opinioes de professores, mas estao se a esquecer dos alunos, embora a maioria dos alunos sejam “uns baldas” e não se interessem por este tipo de coisas e vão para onde o vento os leva, existem outros (entre os quais eu me incluo) que se preocupam e que estão a ver a sua participação nos orgãos das escolas cada vez mais reduzida, neste projecto a percentagem de pais e alunos n pod ser inferiora 20% e os alunos não podem representar mais que 10% ou seja na melhor das hipoteses existiram dois alunos no concelho geral!!! Que tipo de representação é esta?? é a isto que o nosso governo chama democracia?? nos alunos que somos a maior parte dos membros da comunidade escolar estarmos tão pouco representados…daqui a uns tempos oa alunos deixaremos de estar representados nos orgãos de gestão das escolas, deixaremos de poder contribuir com a nossa opinião sobre todos os tipos de assuntos… ou seja para este a governo certamente que a escola não e para os seus alunos…