Janeiro 2008


Já aqui referi há uns dias o fenómeno do adesivismo, assim crismado na transição da Monarquia para a República mas prática ancestral neste velho torrão nacional.

O adesivismo é uma variante do vira-casaquismo, nem sempre sendo fácil de distingui-los. Eu considero o adesivismo mais insinuante e sibilini e o vira-casaquismo mais trôpego e desajeitado.

No contexto actual o adesivismo na área da Educação ainda está incipiente, mas tem adubo e terreno fértil para se multiplicar como cogumelos inúteis em terreno bafiento.

As notícias que me vão chegando de viva voz ou por interposto testemunho teriam o seu quê de caricato caso não revelassem a propensão para práticas que podem prejudicar – e muito – o pouco que nos resta para tentar manter a Educação Pública neste país acima da linha de água.

Eu explico.

  • O adesivo passou nas últimas semanas a estar muito preocupado com o sucesso e, argumentando em nome do interesse de todos, apela a que façamos o que o ME quer que se faça, «para evitar problemas». Esta preocupação é diferente da daqueles que tentam encontrar vias para moldar a tenaz ministerial e torná-la menos asfixiante. No caso do adesivo a preocupação é em conseguir mesmo que a tenaz se instale e atinja os objectivos desejados: o sucesso expresso nos resultados estatísticos.
  • Para isso, o adesivo até ultrapassou o timing do ME e começou, de cenho preocupado, a lavrar umas «grelhas» de sua própria iniciativa para ir «ganhando tempo» e fez questão de divulgar esta sua iniciativa em todo o redor de si.
  • Ao mesmo tempo, o adesivo mudou quase imperceptivelmente a sua forma de andar e circular pelo espaço escolar: se repararmos bem, o olhar está mais distante e foca-se menos nos seus pares, visando um pouco mais além. O adesivo passou mesmo a levantar o queixo em média um par de centímetros, corrigindo a sua postura ao andar. O adesivo-macho trocou o blusão informal pelo blazer. O adesivo-fêmea adicionou uns acessórios brilhantes aos paramentos quotidianos. Quiçá mesmo um toque mais ousado na maquilhagem.
  • O adesivo fez questão de demonstrar que está a par da legislação, que leu o articulado e fixou as instruções. Declarando-se contrariado por aplicá-las, o adesivo, contudo, considera que pode acrescentar algo mais às propostas ministeriais e adianta leituras pessoais de algumas passagens e já propõe estratégias próprias para alcançar o sucesso.
  • O adesivo acha que devemos definir objectivos de progresso e sucesso por turma e aluno. O adesivo acha que devemos planificar aula a aula de forma diferenciada e usar mesmo instrumentos de avaliação diferenciados em todas as turmas, visando «obter os melhores resultados», enquanto eles ainda se lembram «das coisas». É algo omisso quanto às aprendizagens. O adesivo sugere que os «colegas se envolvam» em actividades extra-curriculares, «porque é isso que agora é valorizado».
  • O adesivo parece esquecer que os colegas já faziam tudo isso, valorizado ou não. O adesivo partilha experiências pedagógicas pessoais passadas que conduziram a um sucesso que todos desconhecíamos.
  • O adesivo observa com ar reprovador e condescendente as vozes que ousam discordar. Aconselha que os contestatários «tenham cuidado», que «repensem a sua atitude», que «considerem que é o futuro profissional que está em risco».
  • O adesivo é, no fundo, uma boa pessoa, um pináculo do bom-senso e das boas maneiras, só que facilmente impressionável às vozes de comando que soam fortes do alto. O adesivo contesta até que. O adesivo critica enquanto. O adesivo transmuta-se logo que.
  • O adesivo é o camaleão do sistema educativo. Já praticou a pedagogia por objectivos quando iniciou a carreira sem pensar duas vezes; quando nasceu a ideologia das competências achou um disparate, mas dois meses depois já estava convencido. Agora que se inflecte de novo para a exigência dos resultados por sobre as práticas, acha que «realmente isto está sempre a mudar», mas muda sempre de acordo com a mudança. O adesivo é disciplinado e conhece o seu lugar na hierarquia de comando.
  • O adesivo até é um bom professor, quiçá muito bom. Mas mais importante, quer ser melhor do que. Ou passar por isso.
  • O adesivo é o melhor amigo do ME. Logo a seguir àquele senhor bem-falante e de barba aparada daquela associação que não sei quê.

Mas, apesar de todo esse esforço de bem-parecer, o adesivo é uma das razões porque lá de cima nos consideram «professorzecos». Porque o respeito se perde, quando nós o perdemos por nós próprios e abdicamos das nossas convicções e de lutar por elas.

No matter what.

aposenta.jpg

Mas como não quero que os Anti-Muridaes deste mundo (consultar comentários dispersos) pensem que os que desistem é porque são maus profissionais ou estão agarrados a «tachos», deixo para mais logo um par de prosas: uma sobre o meu «tacho» particular de «professorzeco» e outra sobre os «professorzões» de que o ME gosta, ou seja, dos adesivos apressados em entalar o próximo e em demonstrar as capacidades e qualidades que só descobriram quando passaram a ser a única hipótese (ou uma das poucas) disponível para avaliador dos seus pares, sendo que tal estatuto resulta de determinações com que ainda há umas semanas estavam em inflamado desacordo.

Referência da notícia: Visão, 31 de Janeiro de 2007, pp. 34 e seguintes, lendo-se na página seguinte a legenda «Frustração: “Entre estar a aturar isto ou perder 10 ou 15 contos de pensão vou-me embora». Acrescento que este é o valor por cada ano antecipado e não a perda total.

Autonomia, gestão e administração escolar: Prazo da consulta pública alargado até 8 de Fevereiro

O prazo da consulta pública do projecto de decreto-lei que regulamenta o regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos de educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário foi alargado de 31 de Janeiro para 8 de Fevereiro.
Este alargamento destina-se a permitir que algumas entidades, como o Conselho Nacional de Educação ou a Confederação Nacional das Associações de Pais, possam entregar os seus contributos.

É interessante notar que os pareceres em falta são de dois órgãos, que formal ou informalmente, dependem do próprio Ministério da Educação. O CNE em termos de tutela e a Confap em termos de financiamento para a sobrevivência.

Note-se que o prazo não é alargado para o assunto mereça discussão pública, mas para que formalmente aqueles pareceres possam ser aceites de forma regular. E para que o ME tenha, finalmente, um parecer favorável, o qual se adivinha qual será.

Ainda a este respeito é estranho que o parecer da Confederação se atrase tanto, embora se possa tomar um cheirinho do que deve vir a ser através deste documento em que a dita associação revela até que ponto baralha factos, antagoniza professores e namora despudoradamente o poder político.

Vamos por partes.

A Confap acha que os professores devem ser limitados na sua acção à sala de aula, um pouco como se a Confap fosse o cão de fila que ajuda o pastor-ME a reconduzir a carneirada («esses professsorzecos» nas palavras dos protagonistas) ao redil.

Neste contexto, entendemos que a dignidade profissional dos professores não está nem poderia estar em causa. A sua dignidade está no exercício da sua actividade profissional na sala de aula. É aqui que se espelha e exerce a sua vocação! (destaque do texto original)

Aparentemente quem redigiu este texto não se terá apercebido que a lógica exposta pode ser revertida e que sempre se poderia dizer que a dignidade das famílias deveria estar no exercício da sua função parental em casa. E que deveria esse o local para espelhar e exercer a sua verdadeira vocação.

É que o escriba de serviço foi com tanta sede ao pote do fel que lançou qualquer articulação da argumentação às urtigas e parece ter-se esquecido que a bojarda de circunscrever o papel do professor numa Escola à sala de aula é – não tenhamos receio em usar desta vez os epítetos certos – anacrónica, simplista e fascizante, estando paredes-mais-do-que-meias com a ideologia salazarista. Para além de implicar, como reverso que as «famílias» se limitem à função educativa doméstica.

Mas há outros dislates, como seria de esperar num texto com demasiados parágrafos para que isso não aconteça. Note-se a seguinte passagem:

Saliente-se que a participação dos pais na vida da escola tem sido cerceada nas leis. Apenas recentemente, com o DL 115-A/98, tivemos direito de assento e de voto em alguns órgãos de direcção, mas sem direito a sermos eleitos para a presidência dos mesmos.

Pelos vistos uma década é pouco tempo e não chegou para que os pais (visão redutora da função de «encarregado de educação», mas que se compreende em função de certos credos) conseguissem fazer valer as suas posições. Lamento, mas isso não aconteceu – e infelizmente na minha opinião – porque muitos optaram por se manter longe da Escolas. Pior, lá pelo meio, chega a justificar-se a prática não-democrática do Estado Novo da delimitação das esferas de acção com o Zeitgeist de então.

A forma como os pais participam ou não na vida da escola, ou como podem participar na educação dos filhos, é uma discussão que há 50 anos não fazia sentido, nem era sequer permitida. (destaque meu)

E depois temos ainda um exercício demasiado longo de prosa redundante que culmina na ufana proclamação do contacto directo com o primeiro-Ministro a quem se exige algo a que ele acede. Ou seja, a Confap é capaz de ser recebida pelo PM enquanto os outros o não são e a até tem palavra na forma como serão «priorizadas» as opções do futuro Orçamento. Quanto poder para uma Associação eleita por algumas dezenas de Associações de Pais. Quanto júbilo, quanta prosápia, quanta auto-indulgência bacoca.

E claro que um texto deste tipo só poderia ser encimado pelo lugar-comum mais vácuo da verborreia eduquesa-modernaça que é o do «novo paradigma da escola portuguesa». O que eu gostava mesmo era de ver o senhor consultor a definir paradigma sem ser de enciclopédia na mão.

Recebido via Amélia Pais:

Agora que o ano começa,

e para que comece bem,

vou fazer uma promessa

ao meu pai e à minha mãe:

Cumprirei os cem por cento

do meu serviço lectivo,

os mui nobres objectivos

do apoio educativo,

o serviço não lectivo,

sempre de olho bem vivo,

para ter pontuação máxima

do conselho executivo.

Serei a melhor a melhorar,

os resultados de alunos,

e nunca mais dormirei,

se isso significar,

provar por A+B

que sou eu quem mais consegue abandonos evitar.

E ainda, coisa pouca,

vou participar que nem louca,

na vida do agrupamento,

actividades e festas,

projectos curriculares,

extracurriculares,

tudo o que me ordenem chefes e titulares,

andarei em roda – viva,

somando pontos à toa,

não quero que nada me escape,

que eu cá sou muito boa

e bem pouco dada a ais,

quando defino e cumpro objectivos pessoais.

Serei moça empenhada,

cheia de qualidade na minha participação,

e não haverá nenhum chefe

que não repare em mim

e em tod’esta dedicação.

Já nos órgãos de gestão,

estruturas de orientação,

função de avaliador,

de mestre coordenador,

pontitos não posso ter…

não quis ser titular e portanto por aí,

não há nada a fazer

(mas livro – me, sim senhor,

de ser bem investigada,

com pormenor e rigor,

pelo senhor inspector).

Promessas p’rá formação,

não sei se as posso fazer,

com o trabalho do mestrado

não me sobra qualquer tempo,

mesmo que durma pouco e ande sempre a correr…

Mas tentarei, ind’assim,

ter máxima pontuação,

na avaliação de projectos,

dos de investigação,

cheios de inovação da coisa educativa,

que eu por mais que me sufoquem,

esbracejo e venho à tona,

tentando ser criativa.

Prometo relacionar-me,

com toda a cordialidade,

com todos e mais alguns,

escola e comunidade,

ter sempre o máximo dos pontos,

sorrir a sérios e tontos,

desenvolver contra a náusea,

tod’a minha imunidade.

E preparar, organizar,

realizar as actividades lectivas,

para que o chefe me dê,

sempre sem hesitar,

os quatro máximos pontos,

seja qual for o parâmetro que esteja a considerar,

cumprir objectivos, programas,

tudo correcto sem falhas,

disfarçando bem as gralhas,

usar muitos materiais,

ter em ordem dossiers e estimular tudo mais,

mesmo agora sem ter tempo para as aulas preparar.
E para ele me pontuar,

maximizando o número,

a relação pedagógica,

nas aulas que for visitar,

e se convencer também que sou boa a avaliar,

recorrerei ao açúcar, chocolates, rebuçados,

gelados e mais recompensas,

promessas e ameaças,

feitiços e outras graças

que eu não sou de brincadeiras,

ou bem que os miúdos ajudam,

p’ra ninguém me mal grelhar,

ou bem que se fritam eles

se não querem ajudar.

E na auto – avaliação

direi o melhor de mim

(que se a gente não se amar,

quem de nós irá gostar tanto tanto tanto assim?).

No fim de tudo isto,

se não garantir um excelente,

porque não há lugar na cota e é inconveniente,

morderei de novo a raiva,

farei um sorriso contente

(será melhor prevenir),

despeço – me por mais dois anos,

na esperança do que há – de vir,

que a coisa definhe e morra

de enfarte e estupidez

e que eu sobreviva à dita,

sem ter ferido o amor que aqui me trouxe e me fez

(de alma e coração,

acordada e alerta,

contra todos os absurdos,

sem me vergar com a dor)

defender com toda a força,

a coisa séria que é isto de ser professor.

Agora que o ano começa,

e para que comece bem,

vou fazer uma promessa

ao meu pai e à minha mãe:

Prometo ser forte e lutar

para que o pesadelo descrito

não me afogue a inteligência,

não me contamine o corpo,

não me deforme o sorriso,

nem me impeça de sonhar…

Autora: Teresa Marques, Prof. de Matemática

O Pedro-na-Escola. Ou como o autor o define, um blog de desabafo e desespero.

livro.jpg«Audiências Cativas
As imagens-marca no Manual Escolar

Sabia que em Portugal nos manuais escolares aparece publicidade encapotada sob a forma de imagens de produtos comerciais com as marcas? Em manuais de matemática por exemplo, pede-se às crianças que se some figuras – até aqui tudo normal – mas sucede que essas figuras são latas de um determinado refrigerante ou ovos de chocolate de determinada marca. Fotografias de refrigerantes, chocolates, biscoitos, ou então a materiais escolares como determinada marca de cola, são alguns dos muitos exemplos do Estudo que sai hoje a público na edição de “Audiências Cativas – as imagens-marca no Manual Escolar”. Um estudo científico que denuncia uma prática tão frequente quanto polémica.»

(press-release do lançamento de um livro que promete alguma polémica. A autora é socióloga mas parece que não isctiana)

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