Eu só compreendo como sou tacanho e curto de ideias quando leio e ouço alguém reconhecidamente competente e genial a dissertar sobre um assunto que eu pensava ter percebido, mas afinal não tinha.
Hoje aconteceu-me outra vez quando Luís Campos e Cunha, luminária académica transformada em esperança política por 4 meses e agora em aparente reserva do regime, apareceu no noticiário das 8 da SIC a explicar porque não deve ser referendado o Tratado Reformador da UE, isto depois de um rasgadíssimo encómio à Presidência portuguesa que levou à assinatura do mesmo no Mosteiro dos Jerónimos. Pareceu mesmo uma forma de se chegar à frente para qualquer coisa, mas pode ser apenas impressão minha.
Explicou então LCC ao povo que o Tratado não deve ser referendado porque não existe alternativa. Elaborando melhor, especificou que num referendo devem existir duas alternativas e que neste caso isso não acontece.
Ouvi e embatuquei, entrando em período de completa reavaliação dos meus conceitos.
É que, acreditem ou não, eu estava plenamente convencido que num referendo era feita uma pergunta à qual nós – os que nos damos ao trabalho de ir votar nos referendos, o que no meu caso foi até agora sempre, porque gosto mesmo de referendos, vá-se lá perceber porquê – respondemos através de uma cruz se “Sim” ou “Não” (claro que não estou a contar os alvos e os insultos à ascendência deste ou daquele político ou outro vernáculo por vezes usado nestas ocasiões em que nos deixam exercer a democracia durante uns segundos).
A essa possibilidade de optar pelo Sim ou Não eu até hoje chamava alternativa.
Do tipo: quer a regionalização? Sim ou Não? Quer a IVG? Sim ou Não?
Descobri hoje que afinal isso não é alternativa ou que então, de acordo com LCC, o referendo sobre o Tratado Reformador só poderá conter uma alternativa (obviamente o “Sim”) pelo que não valerá a pena dar-mo-nos ao trabalho.
São visões muito além. Muito à frente. Eu cá fiquei lá atrás, preso em atavismos conceptuais.
Eu confesso que pensava que enquanto pudesse escolher entre Sim e Não (como fizeram holandeses e franceses, por exemplo) estava a escolher entre duas alternativas.
Silly me…
Dezembro 14, 2007 at 11:27 pm
Ó meu caro Paulo Guinote, essa treta da ausência de alternativas faz parte há muito tempo do argumentário padrão dos neoparvos. O Luís Campos e Cunha foi apenas um pouco mais canhestro na sua utilização, é tudo…
Dezembro 15, 2007 at 12:30 am
Fica bem ao lado de Vital Moreira, sobre o mesmo tema:
Há promessas eleitorais que a pior coisa que se pode fazer é cumpri-las.
Com tais cardeais, que pode fazer o adventício?
Dezembro 15, 2007 at 1:04 am
Luís Campos Cunha a explicar porque é que não vivemos em democracia e muito menos estamos a construir uma Europa baseada na democracia! Muito elucidativo!
Deixem acabar a “moca” dos subsídios europeus e verão para onde poderá caminhar sociologicamente este embuste ao qual se dá o nome de “união europeia”!
Para estes hipócritas, a democracia só é válida para o que lhes interessa ou lhes for conveniente para manter ou criar novos “tachos” e colocações. Na realidade têm medo do resultado do referendo é o que é!
Tirando a liberdade de expressão, aos poucos, Portugal e esta Europa pouco têm de democrático, para além das falácias e das hipócrisias.
Não abram os olhos e qualquer dia teremos um caldeirão à deriva comandado por uma elite que nem nos conhece!
Dezembro 15, 2007 at 1:32 am
Estes já são as “elites conectadas” que nos conduzirão ao “hiperconflito”.
Dezembro 15, 2007 at 1:51 am
Não é “caldeirão”. É a caminhada para o hiperconflito.
Dezembro 15, 2007 at 10:55 am
Realmente… a hiperasneira e o incentivo ao défice democrático têm direito a voz(eirão). Cada vez mais a ficção de Orwell se torna realidade. E eu que o imaginava muito mais inventivo que o próprio Verne.
Esta idiotice de LCC também não me parece referendável: à questão- “É imbecil?” só se poderá responder com a afirmativa.
Dezembro 15, 2007 at 12:10 pm
José Luís, eu sei, mas este tinha pelo menos a auréola de mais qualquer coisa do que isso.
Dezembro 15, 2007 at 10:45 pm
Maria (do comentário 6). A questão «orweliana» faz cada vez mais sentido. Acho que já estivemos mais longe. Mas o pior é verificar a inconciência sobre esse assunto na nossa opinião pública! A grande maioria dos políticos defendem-na com unhas e dentes, o que sempre achei muito estranho. Somos «todos democratas», mas em questões europeias muito paternalistas. Aí a democracia já não faz sentido, porque não lhes interessa.