Dia 5 de Novembro publicou-se aqui no Umbigo uma carta que já circulava na blogosfera e por mail há uns dias do professor aposentado Domingos Cardoso datada de 22 de Outubro e dirigida ao Presidente da República. No mesmo dia o António Ferrão também a publicou e o mesmo aconteceu em vários outros espaços, como o Apdeites que usou o Umbigo como fonte expressa.

Dia 12 de Novembro surgiu como artigo de opinião na newsletter Educare.

Dia 14 de Novembro foi publicada, como ia acontecendo com muitos outros blogues, no 4-República por Pinho Cardão.

Dia 8 de Dezembro, por fim, o assunto chega à imprensa nacional, merecendo destaque de primeira página do Expresso e larga cobertura nas páginas 2 e 3.

Na primeira página anuncia-se:

Professor denuncia ruína do ensino profissional

Um professor escreveu a pedir a intervenção do PR. A carta está no blogue de dois assessores de Cavaco.

Na página 2, lê-se:

O fracasso do ensino profissional

Carta está no blogue de dois assessores do PR.

Ora muito bem. Estou o mais de acordo possível com a carta e o seu conteúdo, assim como com o destaque dado pela imprensa “de referência” ao assunto.

Quanto ao resto, sobram-me imensas dúvidas, muitas mesmo, mas que são agrupáveis em duas grandes categorias, as quais resultam da minha enorme e escaldada (des)confiança nas agendas mediáticas e capacidade de reacção dos meios de comunicação convencionais.

Vamos lá:

  • A carta tem neste momento mês e meio e circula pelos blogues há mais de um mês, pois julgo que o Umbigo não terá sido o primeiro a publicá-la (mas quase…). Mesmo no 4-República está lá há quase quatro semanas. Curiosamente o assunto levou este tempo todo para ser considerado relevante. Porquê?
  • A carta está em diversos blogues, mas singulariza-se o facto de estar no blogue “de dois assessores do PR”, quando o postador da carta não é nenhum deles (David Justino, Suzana Toscano) e nada nos faz acreditar – à primeira vista – que cada post seja aprovado e subscrito pelo grupo de autores do blogue. Basta lembrarmo-nos do exemplo de outros blogues colectivos em que os autores têm posições bem diversas sobre assuntos vizinhos ou sobre o mesmo assunto (vejam-se no Causa Nossa Ana Gomes e Vital Moreira e a sua relação com Sócrates). Achando difícil que a experiente autora da peça desconheça esse facto, será novamente de questionar o “Porquê?” de tal destaque.

As reservas que tudo isto me levanta são, pois, do foro do conspiratório. A carta é há muito conhecida, mas foi deixada esquecida. Agora chama-se o assunto a enorme destaque, mas tudo leva a crer que a notoriedade se deve ao facto de ter surgido – há 24 dias – no blogue onde aparecem como autores, mas longe de postadores assíduos, dois elementos da equipa da Presidência da República.

Na minha opinião, sempre moderamente imodesta, estas coisas não acontecem por acaso.

Ou há mensagem, telecomandada por alguém ou, o que vai dar quase ao mesmo, existe mensagem para fazer chegar a alguém.

Seria interessante investigar como o assunto chegou ao Expresso, quando chegou, porque foi “agarrado” e qual o desfasamento temporal entre chegada e tomada de decisão editorial em tratá-lo. E o resto…

No meio disto, salva-se a questão essencial e neste caso a questão essencial é a substância da carta e a denúncia da mistificação que são - em termos globais e ressalvando excepções, como algumas que conheço – os CEF e EFA, triste simulacro de ensino profissionalizante sobre que também já escrevi (e que nem de propósito é um dos temas da próxima crónica do Correio da Educação sobre os maiores erros da actual política educativa). E as declarações do professor Domingos Freire Cardoso, alguém que está longe de parecer um alarmista ou desconhecedor do funcionamento do “sistema” e muito menos alguém que se possa considerar um caso “individual” ou agente das “disfuncionalidades” do dito sistema, no vocabulário estranho da actual equipa da 5 de Outubro.

Mas fiquemos com dois excertos das suas declarações ao Expresso:

Estes frequentadores da escola aparecem nas aulas sem trazer uma esferográfica ou uma folha de papel. Trazem o boné, o telemóvel, os «headphones» e uma vontade incrível de não aprender nem deixar aprender.
(…)
Mas o espírito dos CEF é este: se o aluno não aprende “a+b”, basta que aprenda apenas “a”. Se não aprender “a”, basta que aprenda “metade de a”, e se não aprender “metade de a”, basta que aprenda a “milésima parte”. É por isto que um diploma destes cursos é um atestado de ignorância e de incompetência. E quando um empregador perguntar “Quem foram os professores que disseram que tu sabias, quem foi que te deixou passar?” estará em causa o prestígio de toda uma classe e todos devemos sentir vergonha.

Palavras lúcidas e verdadeiras.

Mas o ME não está preocupado com nenhuma dessas questões, muito menos com o prestígio dos docentes ou as aprendizagens dos alunos.

Apenas quer certificações, diplomas, números, estatísticas “de sucesso”.

A qualquer preço, usando os truques que forem necessários, pressionando os docentes de todas as formas, acusando o sistema de “disfuncional” ou de coisa pior.

Desde que depois se possam fazer uns “bonecos” para um powerpoint a mostrar no CCB, um mês antes das próximas eleições.

Mas entretanto fica no ar a tal estranha sensação de isto ser uma mensagem de x para y. Agora resta descobrirmos quais são as incógnitas desta (in)equação para sabermos os resultados desejados.

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