Eduardo Lourenço foi quem mais habilmente demonstrou esta dissociação, nos portugueses, entre a auto-imagem e as efectivas capacidades. Por isso não espanta que:
Os alunos portugueses de 15 anos são dos que mais valorizam a importância do conhecimento científico. Em toda a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), são mesmo os que mais desejam seguir uma carreira nesta área, apesar de apenas dominarem as competências mais simples.
A maioria acredita que o seu desempenho é bom e que aprendem rapidamente o que é ensinado nas aulas, demonstrando uma atitude bem mais confiante do que os seus colegas finlandeses, que lideram o ranking. Mas na hora de mostrar as suas competências, só três países se saem pior – Grécia, Turquia e México.
E depois ainda há quem diga (a parceria ME/Confap) que temos pouca auto-estima e que os professores são terríveis a desmoralizar os alunos. Se mesmo assim são os que têm melhor auto-imagem, nem quero ver como seria de outra forma!
Agora mais a sério: isto mais não é que a demonstração prática de que os alunos estão já perfeitamente convencidos de que tudo é fácil e que eles são os melhores do mundo. E que o que fazem chega, mesmo não chegando. Um pouco como no futebol durante muito tempo.
Depois falta é a concretização. E quando aparece alguém que exige mais do que prosápia é que é pior. É porque é muito exigente. Provavelmente é porque é ruim. Ou mesmo disfuncional.
Dezembro 5, 2007 at 5:28 pm
Auto-convencimento é próprio de mentalidades pouco críticas, como a portuguesa. Os nossos alunos, a começar pelos meus, na pré, consideram-se os maiores e é já bem notória a mentalidade “chico-esperto”, que fundamenta o auto-convencimento.
Não faltarão muitos anos para se começar a tentar “remendar os buracos”, que o poder e a sociedade têm vindo a esgaçar!
Dezembro 5, 2007 at 5:38 pm
A propósito de excesso de auto-estima e de eduqueses ou quejandos, gostaria de referir uma situação pontual que não sei se é comum aos restantes – mas suspeito que sim- nas vossas escolas: os alunos realizam os testes em salas apinhadas, sentados aos pares e, nos momentos de avaliação externa, fazem-no em salas com um terço do número de discentes do verificado no nosso quotidiano lectivo. Há procedimentos possíveis para corrigir (um pouco, já que a avaliação externa tem muito que se lhe diga) tal disparidade. Uma opção possível será elaborar testes diferentes, conheço outras, mas parecem-me menos adequadas à minha disciplina que é Língua Portuguesa. Pondo em prática a referida opção descobri, para meu espanto, que quando me entregam o teste, no final das aulas, pois realizam-no em silêncio e aparentemente concentrados, é frequente o comentário que a versão 2 (a do “outro”) é sempre a mais fácil… a apreciação tem-me deixado perplexa- será excesso de auto-estima ou alguma desconcentração camuflada? Coloco a questão pois o momento da realização do teste continua a ser, feliz ou aparentemente (?), “solene”.
Dezembro 5, 2007 at 6:28 pm
Essa dos testes diferentes dá sempre nisso, o outro ovo era sempre mais amarelinho.
E realmente as regras rígidas para exames e provas de aferição são um absoluto contra-sendo em relação ao laxismo que se incentiva no resto do ano.
Os miúdos por vezes comentam que parecem estar num velório (os que que sabem o que isso é, claro).
Dezembro 5, 2007 at 10:48 pm
Tal e qual o governo da nação: confiantes, convencidos e arrogantes: ao arrepio de qualquer resultado têm sempre razão, os outros são sempre ignorantes ou mal-informados – a assinatura de um tratado em Lisboa que pouco tem de inovador foi um sucesso desmedido, a cimeira do próximo fim-de-semana já é um êxito antes de o ser… São mesmo muito boooooooons, isto é, excelentes!
Dezembro 5, 2007 at 11:25 pm
E já que falaram de futebol, é mesmo assim!!!!
Todos eles são os melhores do mundo! Aprender mais?! Trabalho técnico?! Trabalho táctico?! Para quê?!
Todos eles sabem tudo… e não só em futebol! Sabem tudo e de tudo, de todas as modalidades! A auto estima está sempre nos píncaros. E tal como acham que não precisam de “treinar/aprender” no desporto, acham que não precisam de trabalhar em qualquer outra área da vida. São sempre os melhores!
O problema é quando chegam os campeonatos! Tal como as nossas selecções, o trabalho técnico não chega, o trabalho táctico deixa muito a desejar, a resistência não dá para os 90 minutos de jogo (em futebol) quanto mais para um prolongamento quando necessário!
Somos bons… sim somos!!!
Temos capacidades… sim temos!!!
Mas convenceram-nos que o sucesso é fácil, que o adversário está sempre à nossa mercê, que não precisamos de trabalhar muito porque o insucesso há-de ser de alguém mas nunca nosso!
E o que é certo é que alguém virá desculpar os actores, assacando culpas a um qualquer alguém, dependendo da área com que se estiver a lidar na altura.
Ainda não perceberam que o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário!!!!
Dezembro 5, 2007 at 11:47 pm
Gostava de saber porque é que o “Correio da Manhã”, que folheei há pouco, colocou uma foto do secretário Pedreira com um livro na mão que titula “Poesias”, de Álvaro de Campos… seria a única que tinham? E a pose na foto lembrou-me Bush a ler de “pernas para o ar”.