As coisas vão-se conhecendo e desfiando, a pouco e pouco. Subitamente irrompem na imprensa notícias que dão conta da forma como o poder – como todos os poderes de passagem pela mesa do Orçamento e nisso fazem justiça ao passado republicano e monárquico – recompensa os seus através de trabalhos vários ou da preparação de eventos comemorativos destinados a cristalizar uma certa - “a” certa – memória do passado. E a prever a distribuição de verbas (confirmar final do ponto 11 deste comunicado do Conselho de Ministros que criou a Comissão de que adiante se falará.).

Trata-se, neste caso, da «Comissão de Projectos para as Comemorações do Centenário da República, constituída pelas seguintes personalidades: Vital Moreira que presidiu, Joaquim Romero Magalhães, Inês Pedrosa, Madalena Torres, António Reis, Francisco José Viegas e David Ferreira», como se pode ler no já citado Portal do Governo.

A presidência da comissão é estranha pela manifesta inadequação do sapato ao pé que se pretende calçar e o resto da composição da comissão é de tal forma curiosa que me coíbo de a comentar, visto conhecer e estimar pessoalmente duas das personalidades em causa, maçonarias à parte.

Mas o mais divertido é o tipo de enredos que surgem a propósito da eventual remuneração do trabalho feito, que o Presidente da Comissão desmente. Assim como a Comissão em causa parece ter, certamente sob uma energia voluntarista algo transbordante, extravasado claramente do seu mandato com algumas propostas estimáveis mas algo fora do contexto como a promoção de legislação sobre o casamento entre gays. Isto para não falar em propostas comemorativas verdadeiramente patuscas como a realização de uma Taça do Centenário em futebol.

Só que, neste afã de tudo propor, apesar da notória qualidade de alguns dos elementos constituintes da Comissão, parece ter faltado um certo cuidado na redacção final do texto do relatório e deparamos com uma passagem como esta (p. 60) que nos faz descrer dos próprios olhos:

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É verdade, Vital Moreira parece ter-se auto-submetido a uma operação de reconstrução da memória e, por entre tiradas com rigor histórico duvidoso e propostas de actividades que mais parecem ter saído directamente de uma reunião maçónica, acaba por localizar em 1976 a revolução que restabeleceu a democracia em Portugal.

Podem dizer que Freud explica e eu até posso acreditar. Ou que é uma malfadada gralha, como aquelas que eu tão bem distribuo nos meus escritos bloguísticos e não só. Mas eu acho que isto vai mais fundo e que o intelectual Vital do socratismo entrou mesmo numa fase de completo descolamento da realidade, seja a quotidiana, seja a histórica e, como Bob Woodward aplicou a Bush Jr. quanto ao fracasso da guerra no Iraque, está em completo estado de negação quanto ao passado de que ainda (infelizmente para ele, ao que parece) nos lembramos.

Ele pode argumentar que se está a referir ao estabelecimento da ordem constitucional democrática, e que também localiza a revolução que institui a I República em 1911 (data da assinatura da primeira Constituição republicana). Mas essa é uma leitura, no mínimo dos mínimos admissíveis, bastante bizarra.

E nesse caso não usaria o termo “revolução” para 1976, como que apagando dois anos de história efectivamente revolucionária.

E depois ainda eu fui dos que me chateei porque a comissão presidida por António Costa Pinto por ocasião dos 30 anos do 25 de Abril (nomeada pelo governo PSD de então) decidiu arrancar o R à Revolução, tendo-a amputado em Evolução.

Caramba. Nada como um fogoso ex-revolucionário convicto para reescrever, da forma mais puramente estalinista, a História. Só falta mesmo apagar-se a si mesmo das fotografias tiradas durante o PREC. Ou, pensando bem, se calhar… até já o fez porque na net não achei nada de jeito. E ainda perdi uns minutos a procurar.