Por vezes é necessário abandonarmos o carreiro simples, mas estreito, do politicamente correcto e da sabedoria convencional, dos chavões adquiridos, das frases feitas e tentar pensar as coisas de outra forma, olhando-as de um novo ponto de vista.
A Escola a Tempo Inteiro é apresentada como uma grande conquista da acção deste Governo, deste ME, aplaudida pela Confap actual e por diversos opinadores (preo)ocupados com a situação das crianças, cujos pais não conseguem acompanhar devidamente e, por isso, devem ser deixadas mais de 10 horas “nas mãos” (não gosto da expressão por uma multiplicidade de razões) do(a)s professore(a)s.
É um excelente exercício de spin sobre a admissão clara de um fracasso do Estado Social e a demissão de quem representa as “famílias” de efectivamente as defender pela via certa que deveria ser a da “Família a Tempo Inteiro” ou, no mínimo, a “Família a Meio-Tempo”.
Porque parece que as coisas mudaram de lugar e a lógica se retorceu por completo neste país, nestes tempos. Com que então a Escola a Tempo Inteiro é uma grande conquista social? Porquê?
Não seria antes uma conquista ter-se conseguido desenvolver o país para que as “famílias” pudessem dispor de condições para estar perto dos seus filhos todo o tempo possível?
Conheço algumas pessoas a trabalhar em países consensualmente tidos como mais avançados do que Portugal, leia-se, Norte da Europa ou mesmo Costa Leste dos EUA.
Curiosamente, nesses países a Escola a Tempo Inteiro, em particular a Pública para os mais novos, não existe em muitas zonas e esse é um sinal do progresso dessas sociedades.
Porquê?
Porque existe uma efectiva protecção social à maternidade, que permite que as mães fiquem – se assim o quiserem – os primeiros anos de vida do(a)s seus(uas) filho(a)s em casa sem perda do posto de trabalho e vencimento. Porque os horários de trabalho são flexíveis, não para obrigar mães e pais a voltar a casa tardíssimo, mas para que possam recolher os seus filhos às 2 ou 3 da tarde, no máximo.
Porque se atingiram estados de desenvolvimento económico e protecção social inimagináveis para nós e que, mesmo em retrocesso, ainda estão muito à nossa frente.
Por isso, a Escola a Tempo Inteiro é apenas algo que se destina a apaziguar as “famílias” que, cada vez mais, são obrigadas a trabalhar em condições mais precárias e vulneráveis. Que não podem faltar, sob pena de perda do posto de trabalho no final do contrato. Que são obrigadas a cumprir horários incompatíveis com uma vida familiar harmoniosa. Numa altura em que, cada vez mais, as famílias são menos do que nucleares.
A Escola a Tempo Inteiro é um óptimo contributo para todos os empresários e empregadores que defendem a desregulação – pelo abuso – do horário de trabalho dos seus empregados. Se é isso que vai desenvolver o país? Abrindo mais umas dezenas de centros comerciais para as “famílias” tentarem desaguar as frustrações ao fim de semana?
Quem defende as “famílias” deveria defender, em coerência com os seus princípios, que o Estado protegesse a vida das ditas “famílias” a partir da melhoria das suas condições de vida. A defesa da Escola a Tempo Inteiro é a admissão de um fracasso, de uma derrota e não o seu contrário.
Eu, por exemplo, preferia viver num país com horários de trabalho que permitissem que os encarregados de educação dos meus alunos pudessem comparecer na escola num horário de atendimento civilizado e não em reuniões pós-laborais para todos. Gostaria de eu próprio não depender da Escola a Tempo Inteiro se o pudesse evitar.
Mas não. O Portugal Socrático, moderno e tecnológico, é um país falhado, com uma sociedade fragmentada e crescentemente fracturada e desigual. E o projecto democrático europeu dos últimos 20 anos – desde a adesão à CEE que trouxe fundos em forma de chuva grossa e os trará até 2013 – foi um projecto que falhou em tornar um país mais coeso, mais solidário, mais avançado em termos de conquistas sociais, só possíveis se o resto tivesse funcionado. Mas não funcionou. Ou funcionou apenas para alguns. Que são os que têm acesso a uma voz pública em nome do seu sucesso. E que depois palpitam sobre o tudo e o nada, sobre o que conhecem e desconhecem. Que têm serviçais para tratar das coisas chatas como ir buscar os “putos” à escola. Que só fazem por desfastio, em muitos casos.
As “famílias” comuns, essas, na sua grande maioria, podem olhar para a Escola a Tempo Inteiro como uma válvula de escape, uma almofada que amortece um maior choque da sua vulnerabilidade, mas é apenas isso mesmo, um estratagema para tornar um pouco mais suportável o que deveria ser visto como insuportável e intolerável.
Novembro 17, 2007 at 1:08 pm
Preocupante, mas é o que todos pensamos desde que a escola passou a ser o espaço de ocupação a tempo inteiro- os sociólogos e psicólogos deveriam pronunciar-se sobre esta matéria com seriedade e «tempo de antena». Já se encontra em desenvolvimento a nova geração dos «Filhos da Escola», o pior é quando chegarem os elevadíssimos juros desta dívida.
Novembro 17, 2007 at 1:13 pm
A Escola a tempo inteiro é uma conquista da ideologia dominante que, de forma demagógica, está a transformar os que ainda têm a sorte de terem trabalho (remunerado) em escravos assalariados!
As crianças, desde tenra idade, sofrem os efeitos de uma socialização em conformidade com o novo paradigma, mas, e a continuar esta paranóia pelo “choque tecnológico”, a grande maioria estará condenada à exclusão!
É que a avidez não conhece limites e a capitalização do lucro leva à substituição do Homem pela máquina! Em nome da produtividade, exige-se mais, e cada vez mais, de quem trabalha e o número de excluídos tem tendência a aumentar.
Os tão apregoados “choques tecnológicos” terão efeitos muito perversos; ao invés de conduzirem o Homem a uma maior liberdade, concedendo-lhe mais tempo de ócio que deveria ser partilhado com a Família, estão, isso sim, e em nome do progresso e da produtividade, a gerar muitíssimos filhos bastardos de uma “democracia” capitalista!!!
Novembro 17, 2007 at 1:14 pm
100% contigo, Paulo. 100%.
Novembro 17, 2007 at 2:09 pm
E a vida inteira no trabalho?
“O direito à reforma poderá um dia depender da saúde individual em vez de continuar a ser o mero resultado da idade”, in Público, 17/11/07, por Rui Valada, professor e advogado.
Rui Valada ironizando sobre o “sonho” do “modelo social europeu” que é o de poder cada um “retirar-se da vida activa tão cedo quanto possível, com uma pensão folgada e saúde para gozá-la, e aventurar-se nessa liberdade nómada de fazer o que lhe apetece, sem mais âncoras nem obrigações, à medida do dinheiro fácil que mensalmente aflua ao saldo da conta bancária(…)”
Lindo!
Isto dá pano para mangas, mas agora vou falar com os meus filhotes. O mais velho teve hoje o primeiro teste no IST e eu estou em pulgas…
Só uns pontos:
a) sabemos de tantos casos graves de saúde e sabemos que a esses doentes lhes é dito estarem aptos para o trabalho. De que falamos quando falamos de boa “saúde individual”?;
b) o que é isto de uma “pensão folgada” e um “dinheiro fácil”? Brincamos? Fácil deve ser para si, senhor professor E advogado Rui Valada!
c) E depois esta da “liberdade nómada de fazer o que lhe apetece” irrita-me ligeiramente.
Novembro 17, 2007 at 3:14 pm
Liberdade nómada de fazer o que lhe apetece é ser professor e advogado e escrever inanidades em jornais diários, de modo a receber dinheiro fácil. Essa é que é essa.
Novembro 17, 2007 at 4:01 pm
As conclusões do Paulo Guinote podem ser um excelente tema para tratar num Encontro/Seminário da Confap! Com o próprio como um dos Oradores!
Novembro 17, 2007 at 4:14 pm
“A Família a Tempo Inteiro, isso sim, teria sido uma enorme conquista e a marca do sucesso de um Portugal desenvolvido.”
Quem quer um Portugal desenvolvido?
Mais fácil e mais barato é fazer-se o contrário, transformando as escolas em armazéns de miúdos, fazendo crer que é uma grande conquista e uma mais-valia para pais e filhos. Os confapes apoiam e muitas famílias até batem palmas.
As aulas de substituição, as actividades extra-curriculares do 1º Ciclo, as Áreas de Projecto e outras aberrações afins não têm outros objectivos se não os de guardar miúdos, enfeitar currículos e encher cabeças de nada.
Só falta mesmo é levar o pijama para a escola. Os ginásios até têm uns balneários e umas instalações fixes.
Novembro 17, 2007 at 4:42 pm
A escola a tempo inteiro é uma esmola atirada às famílias para lhes dar a ilusão de que estão a ser ressarcidas em relação à ditadura do trabalho sobre a vida.
Posso confirmar por experiência própria o que o Paulo Guinote diz sobre as diferenças entre esta prática fraudulenta e o que se pratica nos países desenvolvidos do Norte e do Centro da Europa. Trabalhei seis anos em escolas suíças e o que vi foi:
1. Escolas a abrir à 08:00 e a fechar às 16:30 (quando digo fechar, quero dizer fechar mesmo, com quase toda a gente, professores e alunos, a ir para casa).
2. Às quartas-feiras, o fecho era às 12:30.
3. Nos outros dias úteis o intervalo para almoço era entre as 12:30 e as 13:30. Durante essa hora os alunos não eram autorizados a permanecer na escola: iam almoçar a casa ou aonde os pais determinassem
4. A gestão do tempo de ensino dos alunos cabia às escolas, que a levavam muito a sério; a gestão do tempo restante cabia às famílias.
5. As famílias eram responsabilizadas
a)pela assiduidade dos alunos
b)pelo seu comportamento na escola
c) pelo seu acompanhamento fora do horário escolar.
6. Para que as famílias pudessem agir de acordo com as responsabilidades que lhes eram atribuídas, eram apoiadas por diversas formas: horários de trabalho flexíveis, possibilidade real de faltar ao trabalho para participar em reuniões, licenças de maternidade e paternidade, subsídios para despesas extra com a educação dos filhos (babysitters, refeições fora de casa, cursos extra, etc.).
7. Salários suficientemente altos para que o trabalho de ambos os membros do casal fosse uma opção e não uma necessidade, como é em Portugal.
8. Cidades seguras, ordenadas, bem policiadas, agradáveis de viver, com o trânsito automóvel bem regulado, de modo a que as crianças se pudessem deslocar sozinhas, a pé ou de bicicleta, o que faziam habitualmente e com toda a naturalidade.
A «escola a tempo inteiro» seria inconcebível na Suíça. A sociedade veria nesse truque o que ele efectivamente é: um penso rápido aplicado sobre uma ferida quase a gangrenar.
Novembro 17, 2007 at 4:52 pm
Caro Albino,
Assim estamos a chegar lá. Este tema tem uma importância fulcral quer para as famílias, quer para alunos.
E não é verdade que psicólogos e sociólogos não estejam a chamar a atenção para as consequências deste permanecer ad nauseum nas escolas de crianças e jovens, como alguém comentava lá mais acima.
E então agora, com funcionários a assumirem aulas de substituição!
Agarrem-me, mas se isto acontecer na escola do meu mais novo….falta, com a minha total e completa justificação!
Novembro 17, 2007 at 4:52 pm
A célula família é potencialmente perigosa. Representa a última âncora à qual um pensamento autónomo e livre se pode agarrar. Destruída esta ligação, está escancarado o caminho para a formatação e a uniformização. Ideologicamente nunca ninguém o escondeu. A segunda metade do século vinte foi um palco de batalha em que a família saiu sempre a perder. Uma das finalidades do estado social é mesmo substituir a família.
… “ AQUELES QUE DEFENDEM A SOBREVIVÊNCIA DA FAMÍLIA, ALEGANDO-A COMO «CÉLULA BÁSICA DA SOCIEDADE» E DO «ESTADO», SOMENTE TÊM RAZÃO NO SENTIDO DE QUE ESTA FAMÍLIA TRIANGULAR (PAI, MÃE E FILHO) E COMPULSÓRIA PERTENCE À EXISTÊNCIA DO ESTADO AUTORITÁRIO E DA SOCIEDADE AUTORITÁRIA.
SUA TAREFA PRINCIPAL É A SUA PROPRIEDADE, COMO INSTRUMENTO BÁSICO DE EDUCAÇÃO, DE INCULCAR NOS NOVOS MEMBROS DA SOCIEDADE IDEOLOGIAS AUTORITÁRIAS E ESTRUTURAS CONSERVADORAS.
O ESTADO BURGUÊS, OU QUALQUER TIPO DE ESTADO TOTALITÁRIO (excepto aqueles que a gente sabe, digo eu) PRECISA DA FAMÍLIA, POIS É ATRAVÉS DELA QUE A CRIANÇA RECEBE, DESDE CEDO, AQUELES JUÍZOS, IDEIAS E OPINIÕES QUE DEVERÁ TER, QUANDO CRESCER, COMO CIDADÃO DE UM ESTADO BURGUÊS.
ESTA ESTRUTURA FAMILIAR, POIS, QUE OS REACCIONÁRIOS LAMENTAM ESTAR EM DESINTEGRAÇÃO, É FILHA DE UM SISTEMA FALIDO, E O SEU DESTINO SÓ PODERÁ SER, PORTANTO, O DESAPARECIMENTO, PARA DAR LUGAR A FORMAS MAIS EVOLUÍDAS QUE PERMITAM AO INDIVÍDUO TORNAR-SE LIVRE, AUTÓNOMO E SATISFEITO, CAPAZ DE AMAR VERDADEIRAMENTE E ENXERGAR O BEM COLECTIVO, COMO SEU OBJECTIVO PRIMORDIAL.
ASSIM A FAMÍLIA ADQUIRE PARA O CONSERVADOR SEU SIGNIFICADO ESPECIAL COMO BALUARTE DA ORDEM SOCIAL NA QUAL ELE ACREDITA.”…
Extraído de “ Curso básico de sociologia da educação” de Maria Luísa Silveira Teles
Palavras para quê? Poucas coisas acontecem, hoje, por mero acaso.
Novembro 17, 2007 at 5:25 pm
As instituições que garantiam a continuidade cultural, a COMUNIDADE do destino e a identidade pessoal, estão ser inexoravelmente substituídas por instituições que promovem a DIVERSIDADE do destino.
Aquilo que funcionava como um garante de segurança para o indivíduo, assume doravante um peso de maldição e de sujeição insuportável.
Daí a necessidade imperiosa de desvaorizar a Família e de transformar a Escola num parque zoológico onde o manto do “igualitarismo” cobre um cada vez maior distanciamento e alheamento dos intervenientes, quer em relação uns aos outros, quer em relação aos percursos narrativos individuais de cada um.
A Escola de Sócrates e da CONFAP não diferem, no essencial, da Escola de Louça e da FENPROF. Porquê?
Porque todos pretendem ver enterrado e terraplanado o sentimento de pertença a algo de sagrado e resguardado da voragem do mercado.
Os interesses instalados, em nome da ideologia, do sucesso, da classe e da qualificação, prevalecem sobre quaisquer veleidades de preservação de valores éticos, sobre qualquer ideia de uma “vida boa” e “virtuosa” alinhada e preocupada com a integridade do ser humano.
Aos objectivos manifestados pelos docentes na área dos DIREITOS DOS TRABALHADORES, aos interesses dos alunos e dos pais enquanto DIREITOS DOS CONSUMIDORES A SEREM SATISFEITOS, soma-se a vontade do Estado em dotar o MERCADO de mão-de-obra qualificada pelo menor custo possível.
Neste jogo de INTERESSES PRIVADOS REGULADOS PELO MERCADO, não há espaço para qualquer definição de INTERESSE PÚBLICO/HUMANO.
Não é de espantar, portanto, que a Escola passe a ser encarada como um depósito de futura mão-de-obra, tanto pelo Estado-Empresa como pelas famílias subjugadas e endividadas às mafias político-financeiras.
A Escola a tempo inteiro é, portanto, como bem o assinala PG, o corolário do falhanço da Família enquanto instituição básica de aculturação e vivência em comunidade, e também um sinal inequívoco da omnipotência do Mercado capitalista que absorve, humilha, explora e destrói mentalmente um cada vez maior número de pessoas.
Novembro 17, 2007 at 5:35 pm
Concordo inteiramente!
Estas bandeiras socialistas só demonstram o fracasso do modelo económico e social escolhido pelas elites portuguesas.
Este modelo assenta no Estado prestador de todo o tipo de funções e serviços! Este modelo é baseado no esgotado modelo francês.
Este modelo não permite que a sociedade cresça devido à insuportável presença asfixiante do Estado pai.
Enquanto a maioria dos portugueses permitir que o Estado tudo faça e tudo controle, o país não pode ir muito longe.
Repare que onde o Estado tem as mãos os resultados são no máximo medíocres.
Nós, sociedade civil, necessitamos de um verdadeiro 25 de Abril, necessitamos de LIBERDADE. Necessitamos que o Estado gastador e controleiro nos deixe em paz, nos deixe crescer sem paternalismos, nos deixe, enfim, VIVER!
P.S. Não sou neoliberal, sou liberal. São coisas completamente diferentes. O Estado tal como existe em Portugal, serve apenas para que muitos aspirantes a sanguessugs o consigam ser de facto à custa dos nossos impostos
Novembro 17, 2007 at 5:50 pm
Enfim! Mais um triunfo da mentira.
O problema é que alguns portugueses não conseguem ir além das aparências e outros, por via daquilo que é apontado no post, não têm tempo para parar e pensar. E com estas razões, a propaganda vai singrando.
Talvez um dia, quando o porto a que o barco, inevitavelmente, vai chegar, a realidade seja entendida. A aparência, aquilo que conseguirão ver, será a essência da coisa.
Novembro 17, 2007 at 6:38 pm
Importantíssimo o comentário de José L. Sarmento, andamos como autómatos a «absorver» o que nos é dado na comunicação social sobre «modelos europeus» em educação e nem sempre temos a possibilidade de confirmar como tudo se organiza, por isso é fundamental receber algum saber «de experiência feito». Atendendo aos afazeres profissionais do meu marido que não é professor (já o foi há um tempo significativo) tenho conhecido professores (cônjuges) de outros países e já verifiquei que as condições de trabalho diferem substancialmente das nossas- há cerca de um ano, uma professora de Inglês na Galiza , coordenadora de departamento- referia-me ser o seu horário semanal de 14 horas, também fiquei a saber que nos últimos três anos, com novas metodologias, estavam a obter resultados muito significativos na aprendizagem da língua a que o país vizinho tem fama de ser «avesso» pela articulação fonética… Conheço ainda uma professora holandesa que me referiu a imediata substituição de docentes quando os da «casa» se ausentam da escola, nem que seja por período inferior a uma semana que é sempre concedido até para descanso, dado tratar-se de uma profissão de desgaste- os recursos humanos são exteriores à escola e não se sobrecarrega quem já cumpre horário lectivo. Também entendi que não se passa o dia na escola: refiro-me a discentes e docentes, o horário de trabalho dos pais, sobretudo no Norte da Europa, é quase sempre flexível, preferindo-se começar muito cedo e sair-se a horas de se poder prestar apoio aos filhos, o que também passa por conversar ou ir ao cinema . As ideias apresentadas poderão ser um pouco transversais ao post, mas só pretendo demonstrar que as coisas não são bem como alguma comunicação social ao serviço de interesses determinados (défice, défice e mais défice) pretende alardear.
As minhas palavras em comentário anterior a este post terão sido mal entendidas pela Fernanda ou então não me terei expressado com clareza: considero evidente que qualquer psicólogo ou sociólogo com um mínimo de sensatez, para não dizer competência, não discorde do facto de ser a escola a fazer de família, fá-lo-á certamente mal, pois não será essa a sua função. O que não se me afigura correcto, é o facto de se não dar maior visibilidade pública a essas opiniões não vão as mesmas gerar movimentos públicos de descontentamento por parte de pais mais atentos.
Desconhecia a ideia peregrina de serem os funcionários a fazer substituições! Na minha escola seria mais viável serem os professores a substituir os funcionários, dado que muitos se reformaram ou pediram exoneração, não tendo sido substituídos nos últimos dois anos. Na escola onde andou a minha filha, não deixavam os pais levar os alunos ao último tempo quando decorria uma substituição, mesmo que a mesma se efectuasse no pavilhão gimnodesportivo e estivesse a cargo da professora de Geografia. Cheguei a redigir um termo de responsabilidade para a levar para casa, felizmente acabou por não ser necessário , embora a situação não possa deixar de ser considerada insólita.
Ainda tenho o projecto, não sei se viável de, com o auxílio de contactos nestes países que referi e ainda de um outro do Norte da Europa poder,um dia, proceder a um estudo comparativo das condições de trabalho de discentes e docentes, mas com dados e conhecimento de causa.
Novembro 17, 2007 at 7:34 pm
Segundo este modelo do Estado-ama, ainda vamos acabar em escolas-internatos, à semelhança de alguns colégios privados. Os pais chegam com os filhos ao fim da tarde de Domingo, deixam-nos na escola e voltam sexta à tarde para os “levantarem” (e ainda há a hipótese mais expedita do modelo espartano).
Assim, as famílias ficarão inteiramente sem qualquer responsabilidade sobre o comportamento e assiduidade dos seus rebentos. A qualidade do “produto final” dependerá exclusivamente da escola. Os pais ficarão enfim agradados com o poder político por se livrarem das tarefas mais ingratas da procriação. É toda uma nova prática pró-família: se as famílias se tornam disfuncionais, o Estado substitui-as.
Novembro 17, 2007 at 9:33 pm
Na minha escola há EE que moram a 100, 200 metros da escola, estão em casa todo dia e nem os filhos vão buscar para o almoço.E não me refiro a famílias carenciadas mas a EE que preferem os filhos a tempo inteiro na escola até na hora de almoço…Sempre dá menos trabalho…
Novembro 17, 2007 at 11:00 pm
Kafka,
E não tem em linha de conta a qualidade da matéria-prima?! Alguém conseguirá transformar um calhau num pãozinho fofo e delicioso?
Nã…, nem assim lá chegaríamos… Nunca, mas nunca poderemos atribuir a qualidade do “produto final” exclusivamente à escola. Há sempre que introduzir n variáveis exógenas ao modelo!!!
Novembro 17, 2007 at 11:14 pm
A propósito do conceito de «escola a tempo inteiro» por acaso já alguém questionou o papel das empresas onde os pais trabalham na “guarda” e acompanhamento dos filhos dos seus empregados?
Esta experiência não é nova, mas…só foi realizada por empresários com E grande e muito raramente! No entanto seria um caso a pensar pelo Estado.
Novembro 18, 2007 at 5:13 pm
Parabéns pelo post Paulo Guinote, parabéns.
Eis aqui expressas algumas das razões que me levaram a afirmar, em comentários a postes atrás, que a transferência de responsabilidades para os pais e suas organizações do funcionamento das AECs no 1º ciclo e dalgumas outras coisas neste e noutros níveis de ensino para que a escola a tempo inteiro ande, a troco de subsídios e transferências directas feitas pelo ME para a Confap, por exemplo, ou os 250,00 euros por aluno atribuidos pelo ME para as referidas AECs às Câmaras Municipais, é castanha que vai estourar nas mãos dos Pais e Encarregados de Educação. Aguardemos…
Começo, finalmente, a verificar que o Sr. Albino Almeida está a mudar a sua atitude neste blog. Aqui discute-se, pensa-se e vive-se a educação e por vezes para isso se fazer é preciso ser duro, mas nunca malcriado e sempre cooperante e colaborativo. Quase que posso apostar que todos os docentes aqui intervenientes são gente capaz de se disponibilizar para fazer uma perninha nesses domínios.
E por fim, que HOMEM vai a escola a tempo inteiro educar, formar e, enfim, capitalismo oblige, produzir?
Novembro 18, 2007 at 6:04 pm
deixo aqui este link que tem a ver com a escola a tempo inteiro:
http://www.cegueiralusa.com/2007/11/vergonhoso-professores-das-aec-no.html
É uma vergonha.
Novembro 18, 2007 at 9:31 pm
Paulo Guinote
Este é porventura o melhor artigo que já li em toda a blogosfera. Coloca a discussão com AA no plano em que ela faz todo o sentido, e sería muito interessante que este defensor – em regime de voluntariado – das famílias aceitasse o repto e manifestasse claramente as suas opções. Em alternativa, o seu silêncio também será muito significativo.
Escudados pela longitude, os opinadores da nossa praça chegam a ser demasiado atlânticos e demasiado pouco europeus. Bem poderíam ir gastar o seu latim para o outro lado do Oceano.
Novembro 18, 2007 at 9:46 pm
Olha o meu Umbigo a inchar de orgulho.
Novembro 19, 2007 at 10:05 am
O sucesso socrático é o falhanço nacional.
Enquanto os professores tomam conta dos alunos, os pais ainda ficam com tempo para avaliar os professores.
E enquanto os professores se convertem em bufos uns dos outros, o ministério vai ao parlamento gabar-se que conseguiu transferir para a escola toda a vadiagem que andava a picar carteiras às senhoras.
Os governantes, esses nem querem ouvir falar da escola pública (portuguesa, claro) para colocar os seus filhos.
Novembro 19, 2007 at 2:44 pm
O senhor Albino Almeida devia ler esta:
http://sol.sapo.pt/blogs/contracorrente/archive/2007/11/14/PONHAM_2D00_NOS-A-TIRAR-BICAS_2100_.aspx
Novembro 21, 2007 at 12:49 am
Há uns anos pôs-se a possibilidade de as mulheres terem redução de horários de trabalho para cuidarem dos filhos e logo as Mulheres (tem que ser assim, épico, com letra grande) do PCP começaram a gritar que era machismo, e que era preciso era escola a tempo inteiro.
Aplaudo o post, e todos os comentários, com realce para o comentário nº 8, de José Luiz Sarmento, e para o 10, do jm, com a citação do inacreditável “ Curso básico de sociologia da educação” de Maria Luísa Silveira Teles!!!
Abril 10, 2008 at 6:54 pm
O que para o actual Estado será um fracasso para os jacobinos marxistas será uma conquista e uma marca de progresso a caminho do real socialismo.
O maior problema está em tantos fracassos de políticas que a continuarem assim fazem lembrar o final da primeira república (democracia. Portugal precisa de mais empenho na defesa da democracia ameaçada de dentro, dum sistema partidário que se serve e ocupa.
António Justo
Abril 13, 2008 at 5:40 pm
E eu, que não quero que os meus filhos e os meus netos tenham escola a tempo inteiro, eu que quero ser família a tempo inteiro, quero ser sempre presente, mas também sou professora, como faço?
Tenho que seguir “a carneirada”?
Abril 15, 2008 at 9:38 pm
Gostei do artigo.Só gostava que a Senhora Ministra visitasse as escolas de 1º ciclo a partir das 16h.É de loucos!está-se a desvirtuar o significado do que é a verdadeira função da escola.E, o que nós temos lá, na sua maioria, são meninos abandonados pelas familias, problemáticos, fruto de familias disfuncionais e demissionárias no seu papel de educadoras.Temos crianças que ali são “despejadas” de manhã e levadas à noite,porque a escola fecha de noite.Digam-me se alunos destes a quem falta tudo:afecto, carinho, atenção e amor, poderão ser alguém no futuro…se a escola a tempo inteiro resolve estas situações ou se isto não será nitidamente um problema social, muito complexo, embora não dê muito jeito falar.É mais fácil atribuir as culpas de todos os males aos professores.