É o facto da maior parte da Esquerda acabar por estar prisioneira de discursos labirínticos em matéria de Educação. Labirínticos em termos de incompreensibilidade, mas também em termos de práticas eficazes para modificarem mais do que estatisticamente – e por via administrativa e pressão legislativa – a situação.
O eduquês - teoria críptica e prática laxista – foi uma criação de uma certa esquerda intelectual, pós-moderna, multicultural, crítica e emancipatória, que em Portugal se agregou em torno do guarda-chuva das teorias boaventurianas.
Em termos políticos, o Bloco teve recentemente uma iniciativa perfeitamente desastrada e desastrosa, enquanto o PCP se acantonou na fórmula da “Defesa da Escola Pública” que não se percebe exactamente o que é, para além de ser o que está. O PS há muito que guarda em si muitos dos estandartes do eduquês, colhidos não apenas no seu seio mas também nos arredores.
O resultado é que – se excluirmos os fanáticos neo-liberais do cheque-ensino e dos rankings lidos de forma simplista – acaba por ser alguma Direita a conseguir articular um discurso coerente sobre o sistema de ensino e a própria defesa da Escola Pública. Esta semana foi a vez da inesperada Maria José Nogueira Pinto aparecer a escrever sobre o assunto:
O objectivo deixou de ser o de educar e ensinar. A escola tornou-se um entreposto de todos os problemas, desde os meramente burocráticos até aos eminentemente sociais. Sobre o emaranhado legislativo, as instalações sem condições e a falta de orçamento, caíram as circunstâncias dos próprios alunos: a fragilidade das redes familiares, a solidão, os comportamentos aditivos, a pre-delinquência, o abandono.
Politicamente, não foi relevante saber se se estava a produzir iletrados ou se muitos dos alunos faziam da escola um mero local de passagem. Politicamente, o mais importante eram as estatísticas e os indicadores. Para cumprir estes desideratos impunha-se que todas as crianças estivessem inscritas numa escola. Mesmo que a frequentassem pouco e mal.
Comparar o ensino privado e o ensino público, hoje, é comparar o incomparável. O ensino público português formou gerações e gerações com excelente qualidade. Eu frequentei o ensino público, os meus filhos frequentaram o ensino público. Mas, actualmente, as circunstâncias específicas das escolas públicas, que não podem fechar-se à massificação, não podem selecionar os seus alunos, se desgastam a resolver problemas a jusante e a montante, não têm autonomia organizativa e reflectem as ameaças da sua envolvência externa, impedem-nas de disputar rankings.
Tudo isto é óbvio. Desperdiçámos muito do nosso capital humano ao mergulhá-lo num caldo de cultura laxista, bacocamente tolerante e permissiva, que infantilizou as crianças e os jovens. Mudar é quase um acto revolucionário, é ontológico e do domínio da filosofia dos princípios. Não vale a pena culpar a ministra. Melhor será perceber que a educação não é um problema governamental. É, certamente, um problema nacional com culpas partilhadas. E de difícil solução.
Quanto ao que tomo como solidariedade feminina relativamente à Ministra, tem algum fundamento, pois ela não passa do rosto ocasional de políticas definidas algures por outrém. Mas, de qualquer todo, tudo vale a pena quando a alma não é pequena.
Novembro 9, 2007 at 8:55 pm
Já tinha colocado este artigo, “devidamente” comentado, aqui: http://professorsemquadro.blogspot.com/2007/11/tambm-temos-que-culpar.html
Novembro 9, 2007 at 9:05 pm
Já andava por aí, só que não há tempo para tudo.
Novembro 9, 2007 at 9:53 pm
Já não há é paciência para ler e ouvir toda esta gente a dizer ah, pois, isto não pode continuar, isto está mal….mas a ministra é não tem nada a ver com isto.
Este “rosto ocasional” das políticas que têm vindo a ser seguidas, não tem responsabilidades directas. Ninguém nunca tem responsabilidades.E vive-se de “boas intenções”.
Chuta-se para a frente, porque os telhados são de vidro. E no fundo, mas mesmo no fundo, são todos bons amigos.E parece mal criticar bons amigos.Caramba, isto é corporativismo inter-político-partidário.
Novembro 9, 2007 at 10:03 pm
Mas, Fernanda, quem está por detrás de toda esta pouca vergonha tem um nome Valter Lemos.
Está é que é a verdade! Se soubesse o que este palerma dizia dos professores antes de chegar ao poleiro…
Novembro 9, 2007 at 10:17 pm
Diga Klimovsky, se sabe. É que para lhe chamar palerma, não chega não é?! Todos sabemos das palermices que VL tem andado a fazer ultimamente, agora das que disse e fez antes de chegar ao poleiro, nem todos sabemos, pelo menos eu. E gostava de saber.
Agora em relação ao que a Zézinha escreve no DN, bem até escreve bem e diz coisas acertadas porém, porquê só nesta altura e só agora? Bem, cheira-me a lágrimas de crocodilo… Acho que não sei explicar bem o porquê desse cheiro, mas que me cheira a lágrimas de crocodilo, ai isso cheira e intensamente…
Novembro 9, 2007 at 10:19 pm
E por trás do Valter Lemos(sem qualquer ironia) estará quem?
Eu sei o que o dito dizia dos professores. Uma colega que fez estágio com ele contou-me. Uma das cenas passou-se num anfiteatro cheio de professores. Acetato com planificações e grelhas. Pergunta: Então, não vêem nada de errado?
A sessão terminou com o dito a chamar alto e bom som ESTÚPIDOS a todos os presentes.
Novembro 9, 2007 at 10:22 pm
Está tudo a chegar-se agora ao comboio, tudo em tropel, tarde e a más horas.
Quanto ao Valter Lemos basta conhecer quem o conheceu como “professor” na sua coutada de Castelo Branco.
O outro diz que há Gente Feliz com Lágrimas, neste caso é mais Gente Inepta com um Notável Jeito para Ambicioso (GINJA, para os amigos).
Novembro 9, 2007 at 10:22 pm
Flori,
Coitadinho do crocodilo….
Novembro 9, 2007 at 10:35 pm
Eu até gosto de Castelo Branco, mas não sei porquê, ultimamente só me saem de lá uns melgas
beirões.
O terceiro é um melga lá da escola que sempre que quer deixar bem vincado que ele é que manda diz “Eu sou Beirão dos 4 costados”.
Olhe, rico, e eu sou branca de 2ª. Sou uma Maputana.
Desculpem lá, mas hoje não estou nos meus melhores dias.
Novembro 9, 2007 at 11:35 pm
Victorino foi um ambicioso precoce, sempre mais do lado do reitor do que dos colegas.
“A nova avaliação da aprendizagem” vendeu bastante, não havendo estudante da E.S.E de Castelo Branco que não tivesse lido e estudado aplicadamente essa maravilha.
Mas ao que parece, ficaram mal formados os meninos que saíram das suas escolinhas, vão ter que prestar novas provas. Afinal, não são professores, diz-se agora.
Confundir os Albicastrenses com o Victorino, pode ser considerado ofensivo.
Novembro 10, 2007 at 10:22 am
Compreendo toda a controvérsia dos comentários anteriores e, acerca do texto de Nogueira Pinto, mesmo que tardio, atrevo-me a concordar parcialmente com as ideias expressas. Quando uma anterior secretária de estado,Ana Benavente, afirmou em debate televisivo, se bem se lembram, que os professores que marcavam trabalhos de casa eram os maiores inimigos dos pais… palavras, para quê? Quando se transita de ano no ensino básico com deficiência a algumas disciplinas – lembram-se como era quando andavam a estudar, os que atravessaram a escola antes e depois de 74 ? E isto não tem a ver com os professores serem melhores ou piores, até digo com convicção que no passado tive alguns professores (enfim…) que a leccionarem hoje a sua sala de aula ficaria desmantelada!… tem sim a ver com filosofias educativas. Para se observar esta situação esqueçamo-nos se se é de direita ou de esquerda… só me permito discordar da parte final do artigo de M.José Nogueira Pinto:embora este folclore seja anterior à ministra, a dita está a contribuir furiosamente, com o apoio (ou orientação?) do seu duo para que ainda nos venhamos a afundar mais- o exemplo mais recente é este estatuto do aluno tão bem caricaturado nos «cartoons» de Antero.
Tendo discutido o tema dos artigos jornalísticos «tardios» com colegas, chegámos à conclusão que a opinião pública aplaudiu as primeiras medidas da ministra, concretamente a questão das faltas e horários dos docentes porque alguém viveu a experiência (ou ouviu dizer) que os professores «estavam poucas horas na escola» ou «faltavam muito», não se preocupando (opinião pública)se se tratava ou não de uma medida essencialmente economicista. Quanto ao estatuto do aluno, não há escapatória possível na aceitação do normativo. Quem são os encarregados de educação lúcidos que poderão aplaudir tais medidas? O resultado está à vista e será essa uma das explicações para tanta controvérsia recente na imprensa.
Novembro 10, 2007 at 11:34 am
Uma coisa é certa – já escrevi aqui esta mesma opinião – a «esquerda» do ponto de vista ideológico, quer se goste ou não, é a maior responsável por este sistema de ensino, pelos seus resultados e obviamente por toda a situação calamitosa a que chegou, onde por mais modificações ou remendos que se efectuem, não se conseguirá nunca resolver o verdadeiro problema de fundo.
A questão ideológica reside logo à partida no conceitos de “escola inclusiva” e de “escola para todos” que teoricamente é muito louvável e generosa, mas que se tornou em termos de qualidade numa “escola para ninguém” e que na prática foi responsável pelo nivelamento por baixo que todos conhecemos! Por muito que doa politicamente esta dura realidade, para alguns “complexados” o que está à vista é por demais evidente.
Quis-se nivelar e igualizar o que não é igual! Os homens devem ter direitos iguais, mas não são iguais nem nunca foram! Não são, nas suas características, capacidades e vocações. Este sistema de ensino pecou logo de início por querer fazer dos “burros” doutores, numa lógica de pseudo excelencia que nunca existiu. Igualizou tudo, mas…igualizou apenas os mais pobres e desfaforecidos, pior do que isso, tornou-os mediocres e imbecis.
Na realidade, quem se “safou” e se continua a “safar”, são os filhos de pais com nível social para poderem fornecer os seus filhos de explicadores ou, pior do que isso, de tal forma esclarecidos, para poderem pressionar as escolas com recursos ou anulações de processos por erro de forma (isto é real meus senhores)!
Na realidade, a pseudo igualdade nunca passou de diatribes lunáticas da esquerda caviar…na senda dos “filhos do Maio de 68″ e de “outros fumadores de charros”, assim como também de outros factores ideológicos desta confrangedora geração de 60, que governa actualmente o país e domina a nossa sociedade em termos de pensamento. E pior, fez escola e criou raizes, tal como afirma Maria Filomena Mónica, efectuando nas estruturas do Ministério, «um pensamento único» que inclusive trespassou as pessoas da própria direita. Nesta matéria educativa, todos pensam igual, ou todos pensaram igual, durante anos a fio, numa cegueira doentia que alcançou as raias da estúpidez patológica, ao mesmo tempo que a opinião pública esquecia e desprezava a educação e a escola, tal como a desprezou durante anos!
Agora? Agora o desespero das medidas avulsas e o desnorte em atacar os professores porque estes são o elo mais fraco nesta cadeia, porque dá votos, mas pior do que isso, porque revela e encaixa no pensamento da actual sociedade criando em alguns sectores alguma concordância, tendo em conta que os fantasmas do antigamente ainda continuam a residir ideologicamente nas cabeças «mal pensantes» dessa turbe, onde o professor é o alvo a abater como «ser repressor» e «papão» de crianças e jovens, como juiz maléfico dos interesses egocêntricos das famílias!
Antes de mais a sociedade portuguesa necessita de “lavar a cabeça”, de afastar os traumas e os complexos de esquerda, de virar à normalidade de uma postura sadia e até honesta, tanto intelectualmente como em processos e atitudes.
A minha grande esperança é que este Portugal um dia ainda será um país de gente decente!
Novembro 10, 2007 at 2:31 pm
Apesar de todos os diagnosticos certeiros que tem sido feitos a educacao pelas Marias Joses, Fatimas Bonifacios, Helenas Matos, pelos Antonios Barretos, pelas Filomenas Monicas, pelos Vascos Pulidos, as chamadas de atencao pelo Sr.Presidente,nao passamos das analises brilhantes, nao aparecem as sinteses necessarias
Antes pelo contrario, aparecem coisas bizarras e contra-corrente como o estatuto do aluno.
Estranho nao e ?
Novembro 10, 2007 at 2:59 pm
Nuno, não é estranho se tivermos em conta que quem chega ao poder tem uma agenda própria e escolhe os seus colaboradores entre os que acreditam na dita ou que com ela se conformam.
Foram eleitos é certo.
Mas quem foi eleito para o quê?
Maria de Lurdes Rodrigues foi eleita?
Valter Lemos foi eleito?
Não, apenas foram escolhidos por alguém que foi eleito com base num conjunto de slogans enganadores distribuídos generosamente em outdoors.
Se não sei o quê vinha no programa de governo do PS?
Passei por lá os olhos e as considerações, como de costume, são suficientemente vagas para relativismos pós-modernos fazerem caber lá tudo.