Novembro 2007


Declaro desde já, sob compromisso de honra, que o Blue Velvet é um dos meus filmes de sempre, mas que neste momento estou um bocado atrapalhado. Faz de conta que isto que aqui se vê é da senilidade e que na altura o homem estava melhor e ainda não era deste tipo de génio alternativo.

Por outro lado, nunca comprei um disco dos Delfins ou dos Corvos, nunca fui a Pau Gordo e agora de certeza que não vou.

E nunca fiz meditação transcendental. Prefiro um pastelinho de Belém polvilhado com a canela e o açúcar do cânone, a acompanhar um bom café, moído e feito em máquina lavadinha de fresco, sem as borras da bica anterior.

Dá muito menos trabalho espiritual, mas muito mais prazer carnal. E eu não tenho este físico só de alimentar o meu espírito.

Lamento se por aqui passar algum devoto deste tipo de movimento, mas sinceramente, get a life…

(para mais detalhes, ler notícia do Sol)

Com José Sócrates a mandar recados da Índia, ficámos por cá limitados às declarações do imaculado Secretário de Estado João Figueiredo. As que produziu para os jornais televisivos da noite até podiam ser compreensíveis – afinal todos sabemos que isto é um jogo – caso não tivesse decidido debitar uma sucessão de números quanto aos serviços do Estado que funcionaram.

O estranho é que para contrastar com a precisão de alguns dados (20,03% de adesão a meio do dia; 21,6% ao cair do sol), neste caso era tudo número redondo: 80%, 85%, 90%, 95%, 100%, 105% e por aí adiante.

E depois aquela conversa de «os portugueses compreendem que…», como se quem fez greve fosse lituano, bengali ou costa-riquenho.

Pelo menos poderia existir uma pequena sombra de respeito. Ajudaria certamente a que nos sentíssemos na obrigação de o ter também. Assim…

Quase 1.300 escolas encerraram hoje em todo o país devido à greve da Administração Pública, mais 460 do que na última paralisação convocada pela CGTP e UGT, há um ano, segundo dados provisórios divulgados pelo Ministério das Finanças.Dos 9.310 estabelecimentos de ensino públicos, 1.278 (13,7 por cento) não abriram portas. Já a 9 e 10 de Novembro do ano passado, data da última greve geral, das 10.174 escolas que na altura estavam a funcionar, 818 fecharam (oito por cento).

De acordo com o mapa de adesão à greve na Administração Central, actualizado às 13:04 horas, 29.798 funcionários do Ministério da Educação (ME) faltaram ao serviço, de um total de 107.585 que foram contabilizados. No entanto, o número de funcionários do ME é muito superior, uma vez que só os professores rondam os 150 mil, além dos auxiliares não docentes.

Com estes números, o ME lidera, assim, a adesão à greve da Administração Pública, convocada pela CGTP e UGT para protestar contra a intransigência negocial do Governo, que manteve a actualização salarial nos 2,1 por cento para o próximo ano. (Jornal de Notícias)

Independentemente dos números, dá facilmente para ver onde continua a existir maior insatisfação com a acção governamental, mesmo no âmbito da FP, onde a luta com/dos professores foi a primeira e é aquela que mais irá durar. Apesar das intimidações e de muita gente não ter feito greve com base no que eu repetidamente afirmei serem as legítimas dúvidas sobre as implicações na avaliação dos docentes destas faltas.

Mesmo mesmo assim e para maus entendedores, acho que dá para perceber.

Digam o que disserem nos comunicados e declarações públicas, seria boa ideia perceberem que esta não é uma reacção corporativa por causa dos salários – quase nunca aderi a esse modelo de greve – mas sim um berro de protesto em relação a tudo o resto.

A meio da tarde a guerra dos números tinha este aspecto.

Sou filho único, percebi desde cedo que tudo o que precisava de aprender estava nos livros. Quando entrei para as Produções Fictícias, havia uma mesa de ‘snooker’ e eu, para aprender a jogar com os outros gajos que lá estavam, comprei livros. (Ricardo Araújo Pereira, caderno Ípsilon do Público de hoje)

.
Se fosse hoje tinha ido ao Google e acabava a jogar online ou ler o artigo da Wikipedia.

O Ministério da Educação agora tem um atento gabinete especializado em responder às manchetes de jornais e vai de lançar bala sobre o Jornal de Notícias porque incorreu em crime de lesa-propaganda em favor do sucesso escolar.

Por acaso o artigo era mauzinho e com dados desactualizados, mas regista-se com curiosidade a forma rápida de reagir do ME a qualquer coisa que belisque a sua imagem.

O que eu gostava mesmo é que o ME desmentisse outras realidades – nomeadamente em torno do deficiente acompanhamento de alunos com NEE – ou então que os jornalistas fizessem bons artigos, com dados correctos, que contrariassem a mistificação estatística que parte da 5 de Outubro em vários momentos do ano lectivo. Porque nem é especialmente difícil.

De: Fernanda Amorim (DREN) [mailto: fernanda.amorim@dren.min-edu.pt] Em nome de Direcção (DREN)
Enviada: quinta-feira, 29 de Novembro de 2007 17:01
Cc: Lista Coordenadores Educativos (DREN)
Assunto:

Ex.mo(a) Senhor(a) Presidente do CE/CP/CI

Incumbe-me o Senhor Director Regional Adjunto, Dr. António Leite, de solicitar que todos os pedidos de informação de órgãos de comunicação social, relativos à greve de 30 Nov.2007, sejam reencaminhados para o Gabinete de Imprensa da Senhora Ministra da Educação.

Com os melhores cumprimentos,

Fernanda Amorim

Secretariado da Direcção

Correspondência de ontem, ao fim do dia, distribuída pelas escolas da jurisdição de sua excelência, a DREN. Provavelmente o mesmo se terá passado no resto do país, mas acredito que em terras de Moreira a rédea seja mais curta e apertada.

Sendo que esta versão tem a vantagem, nos primeiros minutos, de desmontar a forma como a música foi sendo construída.

Versão curta, só com som. Versão truncada ao vivo na Antena 3.

Não sendo um incondicional do David Fonseca, esta enche-me as medidas e faz-me perdoar-lhe todas as vezes em que estremece aquela voz um bocadinho mais do que o estritamente necessário.

Mais informações aqui. Ou aqui (neste caso é o quarto peixinho, aquele a que chamamos também tainha e que se deitava fora na minha infância, porque vinha cheia de óleo por debaixo da pele, por causa da porcaria que já enxameava o Tejo).

De qualquer forma não se deve tentar acertar à pedrada ou a tiro. Recomenda-se cana de pesca. Fishing ou pècher em Inglês e Francês Técnico respectivamente. Mas não compensa o esforço.

PS aprova novo Estatuto do Aluno sob críticas da oposição

O PS aprovou hoje, sozinho, em votação final global, o novo Estatuto do Aluno sob as duras críticas dos partidos da oposição, que acusaram a maioria socialista de facilitismo.

Todas as bancadas da oposição, PSD, CDS-PP, PCP, Bloco de Esquerda e Partido Ecologista “Os Verdes”, uniram-se no voto e nas críticas ao Executivo por a lei não valorizar a assiduidade.

A explicação de João Figueiredo, o secretário de Estado da Administração Interna, para os números do Governo sobre a greve, é deveras interessante. A parte em que o Governo não tem nada a ver com a contabilização dos grevistas é, no mínimo, digna do melhor humor britânico que até condiz com a habitual fleuma deste governante, sempre tão polido e educado que dá vontade de despenteá-lo.

Claro que os 80% dos sindicatos também são wishful thinking, mas às 13 horas abrir o Telejornal com declarações sobre os dados recolhidos até ás próprias 13 horas é muito tecnológico. Tipo velocidade da luz, mas para melhor.

Mas 50-60% que seja é muito. Muito voto por aí à deriva.  Uns para a esquerda, outros para a direita, outros para fora do baralho. E aí se pode esboroar uma maioria sólida e cheia de viço, não fosse a inépcia que os anima.

O Umbigo faz hoje dois anos e eu nem dava por isso, se não me tivessem avisado.

Mas uma razão para, estando em greve, não deixar de estar activo aqui. Porque é um acaso interessante.

Estive a analisar os números do blogue e, a meio do dia de hoje, vamos com mais de 515.000 entradas desde o nascimento, sendo que o meio milhão surge principalmente desde meados de 2006. Os posts são 2171 (mais este), os comentários perto de 13.000 e o melhor dia foi já esta semana com 3.095 entradas. Este mês deveremos chegar bem perto das 70.000.

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Escreve Áurea Sampaio na Visão de ontem sobre o desencontro entre as opiniões de Pinto Monteiro e Maria de Lurdes Rodrigues sobre a violência nas escolas:

Ora, segundo o Observatório de Segurança Escolar, no ano passado houve 390 agressões a professores – fora as que não são denunciadas por medo de retaliação. Trata-se de dados preocupantes, que não se devem escamotear e sobre os quais há que agir, antes de se tornarem incontroláveis.

Seria bom que o Ministério da Educação acompanhasse as preocupações do procurador e que trabalhassem em conjunto. Até porque, sem escola segura não há sucesso escolar possível. E aa péssimas estatísticas vão continuar para o desespero de todos.

O texto e a lógica são de tipo imaculado, desde que tomemos como adquirido que não se considera a violência sobre os professores como um estímulo adicional, para que eles promovam o sucesso à força (ou sob a força).

Mas, ironias de lado, a Ministra da Educação ou o seu Secretário de serviço para estes assuntos não deveriam desvalorizar estes números.

Afinal para a sua grande iniciativa do Prémio de Professor do Ano, só conseguiram cativar 65 professores, alguns deles empurrados pelos seus CE’s.

Ora se 390 é um número pouco relevante, o que dizer de 65? 

Quem tiver espreitado a discussão que por aqui se gerou, perceberá que a certo ponto alguém se descaiu e revelou a mando de quem apareceu.

Já todos o sabíamos – acho que o próprio- mas assim é mais claro.

O comentador Portuga, a dado momento, esqueceu-se que fora enviado como agent provocateur e escorregou no seu próprio tapete, confessando que está a mando da Confap como uma espécie de meu stalker bloguístico.

Andou a perder tempo a pesquisar coisas sobre mim e terá chegado a estes resultados: a minha escrita online distribuída a cerca de 90% pelo Umbigo, umas colaborações por aqui e ali, uns artigos publicados em sites de investigação e nada que me associasse a qualquer malfeitoria ou nomenklatura estranha. Tinha sido mais fácil perguntar-me que eu teria feito o devido esclarecimento.

Por outro lado dá-se a uns remoques acerca da anterior presidente do CE da Confap e insinua que haverá qualquer alinhamento meu com essa tendência que foi defenestrada à força durante este ano. Se fizesse uma pesquisa no Google subordinado ao termo “Confap”, perceberia que uma das primeiras referências é um texto meu de há quatro meses sobre as lutas intestinas da organização, que acompanho com interesse há algum tempo.

Nesse percurso, o Portuga (que vamos imaginar não ser nenhum dos “Henriques” ou “M’s” ou “Albinos” ou “Bastos” ou “Mariasmães”) perdeu a hipótese de esclarecer alguns pontos interessantes como:

  • A Confap existe como representantes das Associações de Pais ou como estrutura dependente do Ministério da Educação, que a subsidia em mais de 93% do seu orçamento?
  • A Confap sobreviveria sem os subsídios trimestrais do Ministério da Educação?
  • Como é que uma Confederação não depende dos seus associados para existir (lembremos a polémica que atravessa a CIP e que tem um dos pontos na parcela de financiamento interno com que as empresas de construção civil contribuem para a sua estrutura representativa) e se gaba de serem essas Federações a dela dependerem?
  • Como se compreende que de um universo de milhares de estabelecimentos de ensino onde existem pais e Associações de Pais, a Confap tenha os seus órgãos dirigentes eleitos por menos de uma centena de eleitores, tendo esse número diminuído para menos de metade em relação a eleições anteriores?
  • O seu actual presidente poderia andar em digressão pelo país - em regime de “voluntariado”, mas com tudo pago pelo que se percebe nas contas da Confap - sem o patrocínio das verbas do Gabinete da ME?
  • Porque o balanço e contas relativo ao exercício do anterior mandato do seu actual Presidente, foi aprovado por uma minoria dos votantes presentes (65 em 136, com as abstenções a serem 68) e o relatório do Conselho Fiscal ainda mereceu menor confiança (está tudo aqui)?
  • Já agora, e por agora, porque foi que o Presidente do CE da Confap escreveu em comentário neste blogue que “não concordo com o que dizem , mas lutarei até à morte para que possam dizê-lo” (atribuindo a frase erradamente a Churchill, sendo que é uma citação apócrifa que um biógrafo colocou na boca de Voltaire), se depois se percebe que existe um enorme desconforto perante a simples crítica pública de certos aspectos do funcionamento da Confap, sendo essa crítica escorada em documentos da própria organização e num protocolo oficial?
  • E, para finalizar, porque afirmou o cidadão Albino Almeida isto, quando publiquei o dito protocolo quase uma semana depois de ele ter assegurado que o incluiria nos documentos online da Confap?

Nada me move contra o Movimento Associativo de Pais em Portugal. Gostaria que ele fosse forte, activo, crítico, interventivo, incómodo, mas já agora independente e autónomo. Que a sua estrutura representativa reconhecida como parceiro pelo ME emanasse dos seus associados e não fosse uma superestrutura artificial cujo financiamento depende de relatórios de actividades entregues para aprovação na 5 de Outubro.

Isto são factos. Não são opiniões.

Se é motivo para andarem atrás de mim, tudo bem. Mas já pensaram que estão a dar demasiado nas vistas? É que em Novembro o movimento global do Umbigo vai chegar perto das 70.000 entradas. São muitos olhos. E podem existir alguns ligados a cérebros bem mais lúcidos e informados que o meu.

Eu, com toda a sinceridade, em vez de enveredar pela vendetta pessoal, provavelmente tentaria que a coisa passasse despercebida. Assim só vai aumentar o ruído.

Por mim, não tenho nada a temer e gosto de uma boa discussão, se possível com ideias lá dentro, como escrevi algures e o Portuga insiste em citar nos seus comentários.

Cavaco Silva envia lei das carreiras da Função Pública para o TC

Presidente pede fiscalização preventiva da constitucionalidade de normas relativas a seis áreas reguladas pelo diploma.

E já agora, em especial para o António Ferrão com quem almocei ontem e com quem conversei exactamente sobre a acção do PR nestas matérias, o que tenho eu dito sobre o nosso azar em termos sido os primeiros a ir para a forca?

Agora não há diploma que afecte grupo profissional que não seja vetado, retocado ou mandado para o TC.

Só espero mesmo que aquele envio do nosso estatuto para o TC pelo grupo do PSD seja para valer.

Quinta-feira, 29 de Novembro (e não Outubro como escrevi inicialmente, certamente porque acho isto demasiado incrível) de 2007, cerca das 16.30: cinco alunos de uma das minhas turmas (25% do corpo discente, cerca de 50% dos alunos com direito a subsídio) recebem finalmente o seu manual de HGP (Porto Editora) nos serviços da Acção Social Escolar.

Sem caderno de actividades. A cerca de quinze dias do final do primeiro período.

Assim se constrói o sucesso escolar dos alunos mais carenciados.

Não deve ser caso único. Aposto que a Confap e os seus associados irão denunciar outras situações similares. Em defesa dos alunos. Mas tentando não hostilizar o ME, não vá o Relatório de Actividades deste ano não merecer parecer favorável.

Do Sucesso

(…)
Esclareço que não tenho nada contra o sucesso. Quem no seu perfeito juízo hesitará um segundo na escolha entre ganhar e perder? Existe um certo romantismo no fracasso e na decadência, como uma simples visita aos clássicos pode confirmar. Os perdedores da História podem ser mais interessantes do que os ganhadores. Tal como os anarquistas espanhóis diziam que “se há governo, estou contra”, também podemos dizer que “se alguém venceu, estou contra”. Mas, tirando casos patológicos, a verdade é que o ser humano aspira naturalmente a ser reconhecido, deseja um estatuto, luta por uma ambição. Quer sucesso.

Só que o sucesso não é condição suficiente para se ser uma “pessoa de sucesso”. “As pessoas de sucesso” falam um código próprio, usam uma linguagem reconhecível, demonstram uma atitude. Para sermos reconhecidos como “pessoas de sucesso”, precisamos de conviver com outras “pessoas de sucesso”. A primeira decisão de uma “pessoa de sucesso” é livrar-se de todos os desgraçados à sua volta. Depois, “a pessoa de sucesso” fala abundantemente do seu sucesso, de como o merece e de como nada do que lhe aconteceu foi por acaso. E, muito importante, sempre que pode, “a pessoa de sucesso” escancara na cara dos outros esse estatuto. São um perigo estas “pessoas de sucesso”. Uma má influência para as crianças que podem querer nos seus sonhos ser uma “pessoa de sucesso”. Vivem em pose permanente. Desprezam quem presumem abaixo deles. (Pedro Lomba no DN de hoje)

Ele parece que diz que é de Direita, mas isso só prova que a inteligência e a perspicácia pode ser independentemente da ideologia.

 

There’s a man I meet
Walks up our street
He’s a worker for the council
Has been twenty years
And he takes no lip off nobody
And litter off the gutter
Puts it in a bag
And never thinks to mutter
And he packs his lunch in a Sunblest bag
The children call him Bogie
He never lets on
But I know ’cause he once told me
He let me know a secret
About the money in his kitty
He’s gonna buy a dinghy
Gonna call her Dignity

É verdade, conseguiram que um crítico das greves à 6ª feira, se tornasse grevista. Não é para ir passear, como insinuava no domingo Marcelo Rebelo de Sousa. Provavelmente até passarei pela escola – caso esteja aberta – para tratar de uns assuntos da D. Turma.

Como cidadão afectado por algumas posições de uma organização fui em busca do seu modo de funcionamento e do seu financiamento, para perceber o nível de autonomia e independência dessa organização. Nessa tentativa usei meios simples de pesquisa e recolha de informação. Que apresentei de forma clara.

Ao que parece, tal atitude não foi bem recebida e, apesar de públicos, os fundos recebidos não convinha que fossem abertamente conhecidos. Nem o nível de dependência para a respectiva sobrevivência. A reacção parece ter sido simples: vamos atrás dele, vamos apanhá-lo, vamos o que ele fez, escreveu ou ao que esteve ligado. Mesmo escondendo-nos por trás de máscaras variáveis.

Má sorte: não vão encontrar munições para fazerem aquilo que querem e eu vi demasiados filmes e li demasiados livros e vi(vi) demasiadas coisas para ser dessa maneira que me intimidam ou desencorajam.

Já está em lançamento pela via da criação dos cursos para professores generalistas e pelo mau uso da discussão em torno da redução dos ciclos de escolaridade.

É, obviamente, a questão da monodocência (coadjuvada ou não) até ao 6º ano (9º?) de escolaridade.

A ideia tem a aparência de coisa boa, é apresentada como uma coisa boa, até se alinham argumentos e evocam exemplos para provar que a coisa é boa. Só falta mesmo a demonstração que é mesmo boa. Coisa de que duvido seriamente. Por muito que alguns opinadores ou especialistas venham dizer que é mesmo muito boa e que vai ajudar a reduzir o insucesso e abandono escolares.

Talvez, talvez.

Mas duvido muito que a medida se traduza numa melhoria das aprendizagens dos alunos, no desenvolvimento mais ricas e variadas competências ou que, no final, o balanço não passe pela constatação que fomos, de novo, na onda de uma pseudo-moda passageira, sem qualquer ancoragem na nossa realidade, no nosso actual contexto educativo e respectivas necessidades.

Eu traduzo de forma simples as principais vantagens do regime da monodocência coadjuvada para a actual tutela:

  • Redução a médio prazo (5-10 anos) do número de docentes em exercício, com as consequentes poupanças orçamentais. Para além disso, ter um grupo profissional com uma formação que não permitirá outras saídas no mercado de trabalho e, por isso mesmo, mais cordato e submisso.
  • A possibilidade de responsabilizar/pressionar de forma mais individualizada os docentes pelo desempenho dos alunos, amarrando-os 6 anos a uma turma e, dessa forma, criando uma espécie de casulo para todos os envolvidos que pode perpetuar tanto as boas, como as médias ou mesmo as péssimas práticas.

O que os especialistas e responsáveis governamentais actuais parecem não entender é que os tempos, sendo de dispersão das áreas de conhecimento e de alguma hiper-especialização, não são necessariamente de molde a ganhar muito com educadores generalistas, com pouca formação especializada nas áreas disciplinares de tipo científico (e tomo esta designação no seu sentido lato), quando os alunos cada vez acedem com maior facilidade a conhecimentos muito específicos sobre muitos temas.

Quem interpreta a situação de forma superficial, considera que são necessário meros técnicos educativos com um saber pedagógico geral, complementado com uns créditos disto e daquilo, tudo polvilhado com um mestrado de pouco mais de seis meses. E que esse tipo de capital humano deve ser deixado seis anos a formar gerações de alunos.

Quem entende o que se passa, percebe que é necessário exactamente o contrário. Que após uma fase inicial de aprendizagem de hábitos de trabalho, pesquisa, estudo e organização da informação, os alunos de hoje, da era digital e da informação rápida e acessível, precisam de educadores que tenham uma formação “forte” nas suas áreas de especialidade, por forma  conseguirem ajudar os seus alunos a dar sentido ao manancial informativo disponível.

E isso não se consegue com alguém “com umas ideias” de Matemática, com outras de História e mais algumas de Ciências ou Língua Portuguesa. Porque se há coisa que eu aprendi com os meus alunos, mesmo os mais novos ou especialmente estes, é que eles detectam facilmente quando o professor não está à vontade em dada matéria, quando revela insegurança, sendo que quando devidamente estimulados os alunos são muito rápidos a realizar as aprendizagens que lhes interessam e, com alguma facilidade, ultrapassam docentes que não tenham a sua formação devidamente escorada em termos académicos.

Por isso a monodocência (coadjuvada ou não) para seis anos é um imenso equívoco estratégico em três planos:

  • No plano da formação de docentes, corresponderá a uma sua desqualificação profissional, encoberta com uma certificação baseada em diplomas bolonheses de fraca qualidade e banda muito estreita.
  • No plano das aprendizagens dos alunos de um alongamento de uma formação inicial incaracterística, pouco diferenciada e superficial nas diversas matérias. Na prática, se os alunos agora completam o 2º CEB em condições muitas vezes precárias, num modelo de monodocência de seis anos terminarão esse ciclo de estudos ainda pior. Quando deveria ser o contrário. É que até alguns teorizadores com que não concordo muito, discordam dessa via.
  • Por fim, em termos de articulação com uma futura reorganização dos ciclos de ensino, implica um primeiro ciclo de escolaridade de seis anos (a escolaridade primária ou ISCED 1 de acordo com a terminologia europeia), o que parece manifestamente errado em relação às nossas actuais necessidades, pois se o modelo for o do 1º CEB, em vez de elevarmos o nível de exigência e aprofundamento das aprendizagens, teremos antes uma infantilização maior do que agora correspnde ao 2º CEB.  E teremos dificuldades imensas para erguer um Secundário de bom nível a partir de tais bases. As consequências serão depois visíveis nos resultados em testes comparativos internacionais.

Mas, tudo bem. Já se percebeu que alguns daqueles que há 15 anos avançaram destemidamente por caminhos errados (por vezes atrás de um tutela política poucfo conhecedora da matéria), estão de volta em força, prontos para continuar a trilhar veredas erradas. O decoro e a prudência aconselharia a que se tivessem retirado, ou os tivessem mantido afastados, de cargos em que podem causar mais danos à Educação em portugal, sendo que a cada machadada as hipóteses de recuperação diminuem.

Parecido com isto, só mesmo a política do Estado Novo que, nos anos 30, cruzou a redução da escolaridade obrigatória (o que paradoxalmente não é muito diferente, em termos práticos, de agora estender o 1º CEB por seis anos) com o fecho das Escolas Normais, de forma a disciplinar a formação do pessoal docente. Quando abriram, já estavam organizadas de molde a produzir professores adequados à matriz ideal do novo regime.

A História, por vezes, repete-se, mesmo se com mantos diversos.

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