Outubro 7, 2007
A Avaliação dos Professores: Erros, Equívocos, Efeitos Perversos Ou O Que Queiram Chamar-lhes
Posted by Paulo Guinote under Avaliação, Burocracia, Carreira, Centralismos, Delírios, Horrores, Palhaçada MesmoO modelo ou “sistema” proposto pelo ME para a avaliação dos docentes não é mau por ser “de avaliação”. É mau porque tem demasiados erros, tanto de concepção como de aplicabilidade às condições concretas do nosso sistema de ensino.
Para abreviar vou apontar três dos principais erros de que enferma o “modelo” e que têm como principais consequências a sua inexequibilidade e a incapacidade de proceder a uma avaliação efectivamente rigorosa do mérito dos docentes.
- Para começar temos o aspecto pesadamente burocrático, formalista, centralizador, do sistema de avaliação constituído por uma miríade de parâmetros destinados a ser quantificados, mas cuja efectiva verificação pelos avaliadores é impossível nas condições existentes. O aparato papelesco da coisa é aterrador, tanto pelo que exige de registos escritos aos avaliados e avaliadores, como de retrocesso em matéria do trabalho dos docentes nas escolas, cortando-lhes todas as margens de autonomia e inovação, pois o que não está nas grelhas não interessa.
- Em seguida, a desproporção brutal entre os vários níveis de actores envolvidos no processo de avaliação: 140.000 professores a avaliar; 8.200 professores-titulares, avaliadores e avaliados; 150 inspectores meta-avaliadores do conjunto dos docentes, por via da avaliação dos professores-titulares na sua actividade lectiva e no cumprimento das suas actividades como avaliadores. Se multiplicarmos todos os casos individuais de avaliação meplas dezenas de parâmetros a preencher e classificar, pelas aulas que é necessário assistir, pelas planificações e planos de aula que será necessário verificar, entramos na órbita dos milhões. A pirâmide entrará em colapso não por ter um topo demasiado pesado, mas sim porque esse topo entrará em estado de fadiga crónica. E vamos ser claros: em 2007-08 a ausência de avaliação dos professores-titulares coordenadores de departamentos só vai acontecer porque se assim não fosse, a avaliação externa das escolas pararia de vez. Assim, pensam lançar os inspectores este ano nessa tarefa, esperando que em 2008-09 possam fazer o resto. Não vão conseguir. E mesmo que contratem inspectores novos, não sei onde os recrutarão com capacidade para avaliar o desempenho dos professores-titulares.
- Por fim, existe uma manifesta incompatibilidade entre vários parâmetros das grelhas de avaliação, pois o cumprimento de alguns irá inibir o cumprimento de outros ou então o cumprimento de todos exigirá uma carga de trabalho incomportável em semanas de 50 horas. Assim como o nível de exigências é manifestamente incomportável e asume a inexistência de uma divisão do trabalho nas escolas, parecendo que todos e cada um são responsáveis por tudo. Repare-se que aos docentes com componente lectiva se exige que cumpram o programa - a bem ou a mal - mas igualmente que permitam a participação de todos os alunos nas actividades - que têm ritmos de aprendizagem e concretização das tarefas muito diferentes - que usem as ferramentas TIC nas aulas, que melhorem os resultados dos alunos na avaliação interna, mas que depois esse desempenho seja melhor do que a média do ano/escola, que a avaliação externa não seja muito diferente da interna (factor imponderável por diversas razões óbvias), que cumpram as actividades não lectivas, que previnam activamente o abandono escolar, que não faltem, que, que, que, que. É uma lista sem fim de exigências, como se fosse possível a um advogado ser especialista em todas as áreas da litigância ou a um médico ser generalista, mas especialista em tudo.
O modelo está, portanto, errado por ser burocrático e pensado em termos de robots e não de pessoas, assim como foi concebido no plano teórico, sem qualquer conhecimento ou interesse em conhecer as condições práticas, especialmente em termos de meios humanos, da sua implementação.
Vai naturalmente implodir. O importante e essencial é que, como já escrevi, impluda ou exploda nas mãos dos criadores. Como fazê-lo sem nos ferirmos exigirá algum esforço mas também muita colaboração e alguma subtileza da parte de todos nós.

Outubro 7, 2007 at 3:54 pm
Esqueceste de acrescentar ao “processo avaliativo”:
- a avaliação das 4 páginas de parâmetros, por professor, a fazer pelos CE;
- as entrevistas individuais para definição de “objectivos individuais”;
- as reuniões individuais para “sopesar” e, porventura, reformular os ditos objectivos;
- as reuniões individuais de avaliação;
- as reuniões de avaliadores.
Outubro 7, 2007 at 4:02 pm
Eu já assim sou acusado de escrever muito…
Mas a coisa ainda tem continuação com as “dúvidas” e algumas “propostas alternativas”.
E uma síntese deve ir para o Correio da Educação.
Outubro 7, 2007 at 4:25 pm
Pura e simplesmente não vai funcionar!
Outubro 7, 2007 at 4:57 pm
Avaliar,sim.Avaliar assim, não.O que distingue um professor com título de um professor sem título?E o carácter subjectivo inerente ao próprio processo de avaliação?E a imparcialidade necessária para a objectividade do mesmo?E como avaliar as qualidades invisíveis?
“L’essentiel est invisible pour les yeux.”
Ensinar é poesia.
Outubro 7, 2007 at 10:56 pm
Por falar em poesia, deixai-me a mim ser lírica também.
Caso a classe docente tivesse realmente classe nenhum docente se tinha candidatado a este concurso para titulares (mostrava claramente que não estavam de acordo com a fragmentação da carreira e era uma óbvia oposição a esta medida castradora do governo); mas enfim o mal está feito, paciência!
Agora, que nos está a cair o céu em cima, aos quadradinhos para nos esturricar, deveriamos TODOS tomar uma posição que era recusar-se a aplicar este instrumento na sua integralidade, apontando por exemplo, no papel, não observável ou não exequível ou impossível observar.
Outubro 7, 2007 at 11:58 pm
Já agora, a quem interessar, aqui está o link para uma carta lírica, do PR francês Monsieur Sarkozy, repleta de analogias à realidade portuguesa e subtis más intenções.
http://media.education.gouv.fr/file/41/3/6413.pdf
Subsiste aqui a posição do nosso ME sobre a escola inclusiva, a valorização tecnológica, menos aulas, menos professores, nova carta educativa, mais acompanhamento das crianças por parte de vigilantes, bloqueios em fim de ciclo (c/ exames?), tPCs na escola (isto cheira-me a actividades de prolongamento curricular). Bonita, bonita é a imagem de combate à violência com poesia e muito amor,
Tomei conhecimento disto no blog inquitacaopedagogica.blogspot.com onde também está transcrita a resposta da CGT.
De onde conheço eu estas inquietações?
Outubro 8, 2007 at 8:41 am
Não sei se a Elsie leu a “carta aberta” de Sarkozy, mas penso que faria bem em a ler atentamente.
A “resposta” da CGT é confrangedora, porque não só ignora as ideias de Sarkozy, como repete as mesmas bagatelas ideológicas avulsas de sempre e distorce tudo no seu moínho de ideias feitas.
Sarkozy reflecte sobre a escola, a CGT toca a cassete do “Serviço Público”.
Sarkozy fala na redução das horas de ensino e na melhoria das condições dos docentes, a CGT abana o espantalho dos despedimentos.
Sarkozy refere a necessidade de conciliar o que existia de bom no passado com o que existe de bom no presente, a CGT fala em “orientações retrógradas”, repetindo o refrão do igualitarismo, da solidariedade e da “mistura social” (?).
Ou seja, Sarkozy reflecte e pensa a educação, enquanto a CGT repete as banalidades das ideias nefastas que têm dominado o ensino nos últimos 37 anos em França e que têm conduzido ao contrário daquilo que apregoam.
A CGT ainda acredita no “papão” e faz campanha contra o “elitismo”, na sua senda anti intelectual. Em portugal o discurso e a prática educativa têm sido semelhantes.
Não se quer ver que o resultado deste modelo de ensino está na base da conduta de passividade e incapacidade de reflexão crítica dos cidadãos, na corrupção como forma de interacção; porque se o valor e o mérito não contam, se os lugares de chefia são ocupados por incapazes e limitados mentais, então há que fazer valer os métodos do desenrascanço, da chico-espertice e do clientelismo.
Neste modelo igualitário e mafioso, em que todos são “iguais”, reina a maior arbitrariedade e impera a lei do mais forte.
Não é por acaso que o totalitarismo assenta na ideia de que todos são iguais, todos são funcionários, embora essa organização
imoral só se consiga implantar contra alguém, pela destruição do inimigo: os hereges, os judeus, os fascistas, os pretos, os brancos, os cruzados, os burgueses.
A diferença entre a proposta de reflexão sobre a escola de
Sarkozy e a CGT é que um está repleto de “subtis más intenções” (uma espécie de diabo bem falante), enquanto a CGT,um dos principais responsáveis pelo estado deplorável a que chegou o ensino em França,insiste em que tudo fique na mesma.
Outubro 8, 2007 at 9:12 am
O sistema de ensino francês não se assemelha, nem de perto nem de longe,ao modelo que vigora por aqui.Não comparemos o que não pode ser comparado.Nesse erro, caem os nossos governantes constantemente:transpor para este país o que vê fazer lá fora,sem cuidar das mudanças que deveriam ser estruturais e não de superfície.
E ensinar é poesia, porque exige técnica, rigor, trabalho e alma…Lirismo é outra coisa,nomeadamente quanto utilizado em sentido depreciativo.A mudança do sistema só se concretiza com alteração das mentalidades, pelo que me parece que temos muito trabalho pela frente.
Outubro 8, 2007 at 10:12 am
Piaget, Bourdieu, Perrenoud e outras luminárias franco-suiças, têm impregnado as teorias dos mandantes da educação, tanto em França como em portugal.
Os cientistas da educação tomaram conta do aparelho ideológico da escola em França e em portugal.
CGTP, CGT e restantes sindicatos tocam pela mesma pauta do “igualitarismo” anti-elitista.
As directrizes da CE são a mãe de todas as reformas educativas.
A Estratégia de Lisboa tem pesado nas orientações dos governos europeus.
Penso que em função de tudo isto, haverá mais semelhanças, em termos de modelo ideológico prosseguido nos últimos 30 anos, do que diferenças.
Outubro 8, 2007 at 10:21 am
PS
Concordo em relação às diferenças estruturais e em relação ao parti pris contra a poesia.
A cultura, a poesia e a arte são o ópio do povo para muita gente imbuída da militância do ressentimento e do igualitarismo anti-intelectual.
Por essas mesmas razões censuram-se e queima-se livros, quando não mesmo os seus autores.
Outubro 8, 2007 at 10:50 pm
Ao h5n1
Li de facto a carta, antes até da resposta da CGT, mas não partilho inteiramente a sua interpretação, h5n1. Embora concorde em muitos dos seus pontos de vista referentes à estagnada posição dos sindicalistas, sou céptica na interpretação da carta aos educadores do PR francês. Por detrás de um discurso delicodoce, não há nenhuma ideia nova. Faz-se o elogio ao professor e á sua árdua tarefa de ensinar mas imputa-se-lhe, em boa parte, a falta de respeito, o facilitismo e a pouca exigência como se isso não fosse o resultado de imposições pedagógicas vindas a nível superior e que lhe retiraram por completo a autoridade. Quer transformar a escola única em quê? Escola por níveis? À imagem da Alemanha e que, comprovadamente, não está a dar os seus frutos? As melhores prestações da OCDE são de escola única. Por outro lado reitera a escola inclusiva para alunos do ensino especial, mas não avança como.
Avança ainda com a defesa da educação cívica, da interdisciplinariedade e da experimentação. Da memorização, da aprendizagem pela descoberta e da reflexão… Tudo isto é defendido pela escola actual. Sempre que posso, eu uso. É mesmo o ideal. Então se ela é utilizada, porque razão não funciona? Talvex seja antes um problema da nossa sociedade ocidental, americanizada, mecanizada e superficial… Não interessa aos alunos pura e simplesmente. E isto é generalizado à Europa ocidental inteira em maior ou menor grau. Parece-me, no mínimo, indelicado dizer aos educadores o que fazer quando é o que eles estão a tentar fazer todos os dias.
Considera fundamental elevar os níveis de exigência e fazer uma selecção no final de cada ciclo. Mas não diz como. Exames? Também a criação de internatos de excelência para bons alunos originários de familias de fracos recursos é um pau de dois bicos a meu ver! Mas esta é apenas a minha humilde opinião.
Indica a possibilidade de alunos terem menos horas de aulas mas por outro lado afirma que as familias, para poderem trabalhar, terão os seus filhos sob vigilância, os trabalhos de casa feitos na escola em estudos vigiados.
O final da carta tem algumas semelhanças com alguém nosso conhecido: maior autonomia para gerir programas… os profs serão em menor nº em consequência da reforma das escolas e não um objectivo em si mesmo… trata-se de ter uma maior eficácia…
Reconheço que é uma realidade francesa e que, se calhar, ele até quer mesmo reformar os programas e todo o ensino para melhor…. se calhar até a França está naquele ponto de retorno ao qual nós iremos recorrer daqui a 20 anos…. se calhar a autonomia deles vai até ser a sério… Mas tirando o tom de apreço feito a todos os educadores, que até é comovente, eu não vejo realmente nada novo! Apenas aparentemente “boas intenções”? ou “”subtis más intenções”, mais daquilo que realmente não foi dito, que foi praticamente tudo!
Eu sou desconfiada “de boas intenções está o inferno cheio”!
Outubro 9, 2007 at 7:23 am
Outubro 9, 2007 at 7:59 am
Infelizmente não vejo maneira de ultrapassarmos, ainda, as intenções das pessoas.
A única forma de as enquadrarmos tem a ver com a experiência e com a interpretação que fizermos. Ou seja, existe sempre uma avaliação, por um lado subjectiva e ideológica e, por outro, objectiva e demonstrativa.
Mas na educação os dois aspectos colam-se e temos tendência a fazer depender o discurso da credibilidade da pessoa/ideologia que o veícula. No fundo é uma crença pessoal, social e política.
No caso concreto de França, assistimos a uma divisão na “esquerda” entre apoiantes e detractores de Sarkozy.
Por outro lado, a educação não pode ser “inovada”, porque a relação pedagógica assenta na relação humana entre o pedagogo e o aluno. Só com andróides se poderia imaginar alguma coisa de radicalmente diferente do que se tem feito nos últimos 2500 anos.
No fundo esquecemos que pertencemos à espécie humana, que nascemos e que morremos e que a educação é o espaço transaccional da memória entre gerações.
O grande diferendo na educação surge entre aqueles que querem criar um ser novo, em ruptura com o presente/passado e os que qerem preservar a tradição no que ela tem de bom.
Entre estes dois extremos existe uma série de pontos intermédios, havendo mesmo lugar a confusão entre os extremos: no caso do nazismo o ariano encarnava o homem novo em sintonia com o mito do passado.
No jacobinismo/estalinismo o homem novo deve estar em ruptura absoluta com o sistema anterior de vida em comunidade, criando-se um ponto de não retorno a partir de um evento Sagrado: Revolução Francesa, Revolução de Outubro, Revolução Cultural, Revolução de Abril.
Outubro 9, 2007 at 10:27 am
A arte está em aproveitar tudo o que já está construido, keeping future options opened.