Ministério da Educação vai abrir concurso para admissão de novos inspectores
Esta notícia cuja referência já está em vários comentários é especialmente sintomática da acção deste ME e muito em particular do seu modo peculiar de implementar as suas medidas que é a do empurrão por decreto, publicado ou por publicar.
Vejamos o que ficamos a saber:
- Existem 152 inspectores em todo o país para avaliar os mais de 8000 professores-titulares que, por sua vez, têm a missão de avaliar os 130 a 140.000 colegas.
- Esse número de inspectores equivale a menos de 1 por cada 2 concelhos e a 1 por cerca de 54 professores-titulares.
- O secretário de Estado Pedreira, admitindo implicitamente que se ergueu um edifício avaliativo sem o planeamento devido afirma que a coisa se vai resolver a curto prazo. Não explica os requisitos para a admissão ao concurso para inspector e, muito pior, não explica como serão formados para as suas novas funções. Depois acrescenta uma coisa meio disparatada que é a dos inspectores só irem avaliar os titulares com funções lectivas. Se eu bem tinha percebido não poderiam existir titulares com redução total da componente lectiva, assim como a sua avaliação também incide sobre a forma como avaliaram os outros docentes. Aparentemente Jorge Pedreira ainda não abarcou todas as implicações do modelo que defende.
A partir daqui podemos fazer inúmeras considerações e cálculos numéricos que, sem grande dificuldade, demonstram o ridículo absoluto do sistema ministerial de controle da avaliação dos docentes e a impossibilidade de ele ser feito de forma justa e rigorosa.
Querendo acreditar que o modelo bianual de avaliação dos docentes é mesmo para colocar em marcha e estar concluído, no seu primeiro momento, no final do ano lectivo de 2008-09 temos que, em resumo e para simplificar, a coisa é manifestamente impossível.
Se cada inspector terá mais de 50 professores-titulares a seu cargo e se o modelo de avaliação das actividades lectivas é para seguir mesmo a sério, cada um terá de assistir a 3 aulas de unidades lectivas diferentes de cada um deles.
O que dá cerca de 160 aulas por ano para cada inspector. Penso que isso os ocupará quase todos os dias úteis do ano lectivo. A menos que o modelo não seja para cumprir. Mesmo elevando para 200 ou 250 o número dos inspectores – e repito que não sei como será seleccionado com base no mérito e formado tão rapidamente esse escol em condições de rigor – a situação não melhora muito, pois este ano de 2007-08 já vai com quase um mês e ainda não cheirei um inspector por aí.
E ainda não falámos na avaliação externa das escolas que ia avançar este ano para não sei quantos agrupamentos e estabelecimentos de ensino.
Isto não é, obviamente, para ser levado a sério.
O edifício vai colapsar – se não for por outras razões – por evidente exaustão física dos inspectores e maniesta ausência de tempo útil para que as coisas sejam feitas.
Porque não esqueçamos que, se as tais grelhas são para levar a sério, os titulares só poderão avaliar o desempenho dos colegas no final, mesmo final do ano lectivo de 2008-09 (caso contrário como clasificarão o cabal desempenho dos professores em matérias como cumprimento do programa, desempenho de todas as funções não lectivas e etc?).
Do que se conclui que esse trabalho só poderá ser avaliado pelos inspectores depois do final do ano lectivo. E cada um terá mais de 50 relatórios (mesmo que sejam 40….) para fazer de forma fundamentada.
E não esqueçamos que os professores podem recorrer da avaliação dos professores-titulares e estes da dos inspectores.
E tudo leva tempo.
E a progressão á espera.
Se calhar é mesmo isso que se pretende: um sistema que não funcione para atrasar ainda mais a progressão dos docentes.
A outra hipótese para tal cinismo é a admissão de incompetência no delinear do sistema.
Porque, numa estimativa razoável, julgo que antes de 2011 ou 2012 a primeira vaga de avaliações não estará pronta.
Mas há uma vantagem em tudo isto: a confusão e desorientação – quiçá o caos absoluto – vão estar estabelecidas no Verão de 2009.
E isso pode ter as suas consequências interessantes em termos políticos.
Essa talvez o trio da vida airada não tenha antecipado. Nem sequer o senhor engenheiro do alto da sua presciência aflautada.
Outubro 4, 2007 at 9:08 am
Brilhante a sua reflexão.
O trio da vida airada, também gostei…
(vou concorrer à inspecção…)
Outubro 4, 2007 at 12:05 pm
Não, o melhor é mesmo a “presciência aflautada” (para além da análise da situação, que dispensa comentários pela habitual pertinência). Parabéns, Paulo.
Outubro 4, 2007 at 12:32 pm
“O trio da vida airada” e “o senhor engenheiro do alto da sua presciência aflautada” devem sentir uma atracção irresistível pela anomia. Só pode ser!…
Outubro 4, 2007 at 3:51 pm
Lá no meu cantinho deixei a alteração do art. 32º – Norma transitória, onde o ME dispensa a avaliação dos coordenadores no ano de 2007-2008. (para ser mais rigoroso, “4.Para os feitos da avaliação desempenho no ano escolar de 2007-2008, é dispensada a observação de aulas dos docentes da educação pré-escolar e dos coordenadores do conselho de docentes e departamento curricular.”)
Outubro 4, 2007 at 4:34 pm
Na minha meninice era: o trio da vida airada, cócó,ranheta e facada.
Neste trio actual resta saber quem é quem…
Outubro 4, 2007 at 6:59 pm
Tendo por base a sua reflexão, que acho excelente, penso que é justo esperar que a criatura destrua os criadores. Penso que este facto é outra coisa em que aquelas cabecinhas não pensaram. Se assim acontecer, o que espero, será o fim ideal para este filme frankensteiniano.
Outubro 4, 2007 at 7:00 pm
Olé, Paulo!
De corrida, duas notas:
Pode haver titulares sem componente lectiva – já não falando dos que pensávamos que teriam obrigatoriamente de regressar às escolas, o que não aconteceu – mas lembre-se, por exemplo, dos colegas presidentes de órgãos de gestão, ou vice’s do 1º ciclo e do Pré-escolar. Enfim, mais milhentos outros que a malta nem sonha…
Quanto à progressão, ouvi na semana que passou, em Portel, o sr director do dgrhe, dr jorge morais, afirmar “avaliação de desempenho é uma coisa, progressão na carreira é outra, se mudar de escalão a meio do período de 2 anos, mudo!”.
Bom, considerando outras coisas que ouvi, vale tanto como… bem, ouvi, muita gente ouviu!
O resto…
Outubro 4, 2007 at 7:12 pm
Não estou a entender esta afirmação que a Maria ouviu.
E já agora, alguém sabe quais as consequências de uma avaliação positiva dos tais titulares coordenadores (ou não coordenadores) que já estão no 10º escalão?
E não se pode escolher quem é o inspector/inspectora?
É que sai tudo muito melhor se me aparecer lá um Johnny Depp lusa. Mas muito melhor….
Outubro 4, 2007 at 7:58 pm
Maria,
Percebo essa dos titulares sem componente lectiva, embora a acumulação de CE com coordenação de departamento me pareça uma situação estranha e que antigamente até era incompatível, pelo menos em teoria.
Outubro 4, 2007 at 8:56 pm
Pois, Paulo… mas no meu agrupamento, como penso que em muitos outros de pequena dimensão, acontece, por razões óbvias de como se obtinha a pontuação para acesso a titular, o presidente e dois dos vice-presidentes terem acedido a titulares, e, em 2 dos casos, serem os únicos titulares dos respectivos departamentos.
Como nem o DGRHE nem as DRe’s são claras nem têm critério universal nestes casos…
Outubro 4, 2007 at 8:57 pm
E como e por quem são avaliados os CEs?
Pelo que li, esta avaliação será apresentada futuramente em legislação própria.
Outubro 4, 2007 at 9:00 pm
E como cereja em cima do bolo, alguns titulares que eram “imóveis” parece que começam a aparecer em serviços do Ministério.
Mistérios…
Outubro 4, 2007 at 10:07 pm
Decadência pura e dura…
Outubro 4, 2007 at 10:22 pm
Achei piada ao argumento do representante do Sindicato dos Inspectores Escolares a referir que a ser assim dará um rácio de 54 avaliados por cada inspector!!!
Ora bem, vejamos, normalmente quantos alunos e quantas avaliações tem cada professor? E não pode falhar pois não???