Outubro 2007


Jorge Coelho na Quadratura do Círculo a camuflar a essência do Estatuto do Aluno e a dizer que ele está a ser objecto de uma campanha de intoxicação e que a culpa é do governo que não fez «uma campanha de contra-intoxicação» [sic]. Chega a ser politicamente obscena a forma como se faz a defesa destas medidas e a amostragem do título do DN que afirma que o insucesso desceu 22%, quando desceu apenas 7%.

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Amanhã, entrevista de Maria de Lurdes Rodrigues na RTP1. Aí é que vai seu o ataque tóxico completo.

E peço desculpa mas não consegui deixar o The Boss no topo da página.

 

Its rainin but there aint a cloud in the sky
Must of been a tear from your eye
Everythingll be okay
Funny, thought I felt a sweet summer breeze
Must of been you sighin so deep
Dont worry were gonna find a way

 

Im waitin, waitin on a sunny day
Gonna chase the clouds away
Waitin on a sunny day

Devido a problemas com o hardware cá de casa, não estou nas melhores condições para digitalizar páginas de revistas e esta merecia ser toda mostrada. Talvez amanhã.

Mas fica o essencial da notável coluna de José Gil na Visão de hoje, a desmontar boa parte da estratégia deste governo que está a tentar domesticar todas as arestas daquela coisa a que ainda chamamos democracia. Por enquanto, vai tentando, falta conseguir.

As iniciativas que visam simplificar (para bem gerir e «modernizar») multiplicam o número das complicações burocráticas existentes. Ao tirar a iniciativa, ao querer regulamentar até ao ínfimo pormenor a actividade dos funcionários, transforma-nos em máquinas. E ser robot cansa. Como cansam as reuniões e mais reuniões, tantas vezes inúteis mas obrigatórias. As pessoas andam esgotadas.

Eis como o autoritarismo, como estilo de governação pessoal, se transforma em rede impessoal de controlo dos serviços e dos homens: ao contaminar os seus conceptores, o vírus do autoritarismo torna autoritários os próprios serviços e avaliações. Autoritarismo e injustiça da rede e dos que cumprem rigidamente (quer dizer «como deve der», seguindo estritamente a lei) os seus imperativos. Com tudo isto, desenvolvem-se as rivalidades, as invejas, os golpes baixos, a mesquinhez, à medida da pequenez das disposições que se impõem – o velho ambiente retoma os seus direitos na nova sociedade tecnológica do conhecimento.

O governo construiu assim uma poderosa máquina de produção de subserviência e controlo das subjectividades desmotivadas. A nova lei da subjectivação formula-se assim: menos dinheiro e mais funcionalidade (gestão do défice oblige) em troca de mais obediência e menos qualidade de vida (biopoder do Estado). (José Gil, Visão, 31 de Outubro de 2007, p. 30)

Lembram-se de Pedro Norton quando, há coisa de ano e meio, defendia a Ministra da Educação nas páginas da Visão com unhas e dentes contra os professores? Eu andei por aqui (e duas semanas depois, outra vez) a refilar que ele estava a ver mal a coisa, mas não há nada como esperar que aquilo que sobe venha a cair.

E esta semana cá temos Pedro Norton a protestar com a dita ME, revelando que, pelo menos, não tem ideias fixas e que só demora uns 18 meses a mudar de rumo e a perceber que o discurso do mérito era uma simples cortina de fumo que muitos tomaram por D. Sebastião:

No curto espaço de tempo de uma semana, o Governo de José Sócrates conseguiu produzir dois documentos de uma imbecilidade absolutamente notável que dizem muito sobre a massa de que é feito este executivo.

A festa começa nesse hino à impunidade e à displiscência que constitui o novo estatuto do aluno. A coisa explica-se de uma penada: reconhecendo a sua antipatia genética pela ideia de disciplina, o PS de Sócrates resolve a questão da generalizada rebaldaria que grassa nas escolas públicas do País legitimando-a. A ideia é de uma genialidade desarmante. À falta de vencer a balda, integra-se no sistema a própria balda: os petizes, que já tinham dificuldades em chumbar por razões pedagógicas, ficam agora «proibidos» de chumbar por faltas. Ou como se diz em «eduquês» «a escola pública inclusiva não pode permitir que se impeça um aluno de voltar à escola (…)». É certo que alguns lunáticos e conservadores ultrapassados dirão que se sacrifica  um pouco mais a cultura de exigência e de mérito que seria suposto começar a ensinar-se na escola pública. Mas os cães ladram e a caravana passa. (Visão, 31 de Outubro de 2007, p. 46)

Pois, como cristão-novo Pedro Norton agora reforça na linguagem anti o que antes exagerava nos prós. Mas é interessante o que a passagem do tempo faz a estes apressados entusiastas da acção desta equipa ministerial. E, por muito que eu goste destas deserções nas linhas adversárias, não deixo de assinalar a mudança de posição.

Por questões de memória passada e futura.

Na edição antecipada para hoje, embora chamando à capa os meandros da especulação em torno da banca, a Visão traz um artigo alongado sobre aquilo a que chama “A lição dos bons professores” e que, no essencial, passa pela identificação de casos individuais de boas práticas de docentes esplahados um pouco por todo o país.

É matéria para ser lida com óbvio interesse pelos casos exemplares apresentados e pela forma como, aparentemente, a Visão parece mudar de rumo em relação aos professores e à imagem que, a certa altura, ajudou – por certo que involuntariamente – a denegrir com um tristemente recordado suplemento sobre o Estado da Educação há pouco mais de um ano.

É tardio, mas é sempre reconfortante quando o olhar alheio deixa de procurar a nódoa na manga e se preocupa mais em perceber se a camisa está bem feita.

Mas o mais curioso é que, se observarmos onde trabalham estes colegas, raramente encontramos escolas posicionadas no topo dos rankings.

E isso é natural e fácil de explicar.

As verdadeiras boas práticas são, em muitos casos, invisíveis para as estatísticas mais mediáticas pois passam pela recuperação de alunos em situações de grande fragilidade e com acidentados percursos de insucesso escolar. Porque se é uma boa prática saber manter uma turma de bons alunos no topo da sua forma, por vezes é uma prática muito mais difícil trabalhar em condições adversas e fazer surgir à tona de água alunos e turmas com perfis complicados.

Quantas vezes um nível 3 ou um simples 10 implicam uma dedicação dos docentes muito superior à obtenção de um 5 ou de um 18. Só não sabe e percebe isso quem só vê o topo dos jacarandás das Avenidas Novas.

Texto do colega António Antão, enviado para publicação no Diário do Minho de hoje, mas que teve a simpatia de partilhar connosco e que eu divulgo esperando não “furar” a divulgação impressa. Os destaques a bold são meus.

Declaradamente, os responsáveis pela tutela da educação não sabem o que fazer com os exames do 12.º ano. Tal como o Pedro, inventaram um lobo com que passaram a assustar os alunos e o lobo nunca mais aparece.
Em 21 de Maio de 2004, num quadro de implementação de um novo plano de estudos para os cursos do ensino secundário, introduziam-se também algumas alterações nas provas de avaliação externa (exames) de cuja prestação depende a aprovação em determinadas disciplinas.
Na altura, quer por aventureirismo irresponsável resultante de saudades de tempos irrepetíveis, quer por inabilidade política resultante da ignorância do estado em que se encontrava a educação no seu país, ou, na melhor das hipóteses, enlevado por ideias românticas de levar a sério a educação em Portugal, quem legislou sobre os exames do 12.º ano não conseguiu prever as consequências da sua utopia.
Com efeito, era determinado que “os exames finais nacionais realizam-se no ano terminal da respectiva disciplina, incidindo sobre as aprendizagens correspondentes à totalidade dos anos de escolaridade em que a disciplina é leccionada” (Portaria 550-D, de 21 de Maio, ponto 5 do artigo 17.º). Ao referir “totalidade dos anos de escolaridade”, o legislador tinha vontade de repor os antigos exames de fim de ciclo sobre as matérias de todos os anos que o integram, como é óbvio.
Não vamos aqui tratar as disciplinas de frequência bienal da componente de formação específica, que têm exame sobre matérias dos dois anos (pelo menos até a estatística do sucesso o tolerar), nem a disciplina de Filosofia da componente de formação geral, que começou por ter exame obrigatório para todos os alunos, que imediatamente passou a ter apenas exame facultativo para acesso ao ensino superior e que, actualmente, desapareceu do elenco das disciplinas com exame e nem para acesso a um curso de Filosofia será exigida como disciplina específica. (Entretanto, em 2008, um aluno poderá entrar no curso de Filosofia da Universidade do Porto com a nota do exame de Geografia, por exemplo). Vamos referir-nos apenas às disciplinas de frequência trienal que são Português, da formação geral, e Matemática-A, História-A, Desenho-A e Língua Estrangeira II ou III, da formação específica, dependendo dos cursos.
Como pretendia o legislador em Maio de 2004, os alunos que iniciaram o ensino secundário em Setembro seguinte tinham de se mentalizar que a prática até então institucionalizada de que matéria saída no teste era matéria arrumada, estivesse bem ou mal sabida ou não sabida, tinha de acabar. Afinal, as matérias dos 10.º e 11.º anos passavam a ser passíveis de voltar a aparecer num “grande teste”, em final do 12.º ano, em Junho de 2007. E a contar com este pressuposto planificaram os professores os seus trabalhos. E a contar com este pressuposto, durante dois anos e meio, foram os professores pressionando os alunos a não abandonar o estudo de matérias passadas, porque o lobo vinha aí.
Chegámos à altura dos exames e, afinal, o lobo não apareceu.
Sob o subterfúgio de que era necessário simplificar processos e dado que ainda havia alunos do plano de estudos anterior com o curso por concluir, determinava-se, já com os exames à porta, que seria realizada apenas uma prova comum a todas as disciplinas de que existisse uma variante trienal, exclusivamente sobre conteúdos do 12.º ano. Por exemplo História, que devia ter três provas, uma para os alunos do antigo plano de estudos, outra para História-A (trienal) e outra para História-B (bienal), ambas da nova reforma, teve apenas uma sobre os conteúdos do 12.º ano do novo programa.
Claro que isto gerou discriminações e arbitrariedades. Enquanto que em disciplinas de que não havia nenhuma variante trienal os alunos tiveram de fazer exames sobre conteúdos de dois anos, noutras, também bienais, os alunos fizeram exame apenas sobre conteúdos do último ano de frequência. E fossem só estas as discriminações e arbitrariedades então cometidas!
Mas, num país de brandos costumes e onde a impunidade de quem nos governa constitui norma, nada resultou como consequência e o rei continuou a passear a sua nudez. Até porque, acreditava-se, em 2008, tudo iria entrar na normalidade instituída. E o Pedro continuaria a gritar “Aí vêm os exames sobre conteúdos de três anos! Aí vêm os exames sobre conteúdos de três anos”.
Qual quê? Mais uma vez, os exames sobre conteúdos de três anos não vão aparecer em 2008. E os pastores podem continuar a apascentar a suas ovelhas sem grandes preocupações com o lobo, pois, desta vez, o Pedro antecipou-se e já nos disse que estava a mentir.
Com efeito, alegando, mais uma vez, que ainda há alunos do anterior plano de estudos para concluírem os seus cursos, no final deste ano lectivo, os exames de disciplinas trienais vão continuar a incidir apenas sobre os conteúdos do actual programa do 12.º ano. E mais uma vez se contradizem as determinações de 2004.
Há, todavia, uma novidade: em 2008, todas as disciplinas bienais terão exame sobre conteúdos dos dois anos. Esta novidade vem corrigir um dos erros de 2007, ao repor práticas comuns em situações comuns, mas vem também testar como correm as coisas para ver o que se poderá fazer em 2009. E, entretanto, professores e alunos que continuem o seu trabalho neste ambiente de incertezas e de instabilidade.
É que, para 2009, o Pedro já começou a dar indícios de que continua a mentir e que o lobo poderá não voltar a aparecer. Quem tutela a educação actualmente, já vai sabendo o perigo que exames sobre conteúdos de três anos constituem para a estatística do sucesso. E, se até já a Matemática foi uma disciplina de sucesso, em 2007, e voltará a ser, em 2008, como é previsível, como pode o Pedro ir dar cabo de tão bons resultados em 2009, ao fazer aparecer o lobo?
Segundo a jornalista Isabel Leiria, num artigo do jornal Público de 19 de Outubro passado, “o Ministério da Educação ainda não decidiu quais as regras que vai passar a adoptar em relação aos exames nacionais do secundário, mas entende que, para já, a melhor solução é manter a excepção decretada no ano passado”. Como “ainda não decidiu”? Então não existem normas que regulamentam o processo de exames? Então o que é que foi publicado em 2004? Que aquelas determinações de David Justino sobre o novo conceito de exames eram um nado morto, já nós tínhamos percebido. O que não conhecíamos era os engulhos que essas determinações estão a causar a quem quer, a todo o custo, anunciar estatísticas de sucesso, sobretudo, em 2009.
Com efeito, continua a articulista, “Valter Lemos tem mesmo dúvidas sobre as vantagens de uma prova testar os três anos e recusa qualquer ideia de “facilitismo”. Então não havia de ter dúvidas? Então não havia de recusar ideias de facilitismo? Até porque, se admitisse essas ideias, ninguém ia acreditar.
Demagogia! Mais uma vez, pura demagogia!
Então não é que o Secretário de Estado, numa surpreendente e admirável descoberta, considera que “se os programas estiverem bem feitos, com uma lógica de espiralidade, as competências terminais verificadas no 12.º incluem as adquiridas no 10.º e no 11.º”? Ora, como mais adiante considera que “só em História é que pode haver dúvidas”, então tem a certeza de que, nas restantes disciplinas, os programas estão “bem feitos” e a lógica de espiralidade funciona. Então, de que é que está à espera para fazer aparecer o lobo no exame de Matemática e das restantes disciplinas trienais? Por outro lado, se tem dúvidas sobre a dinâmica da lógica de espiralidade em História, é porque considera que os programas não estão “bem feitos”. Que espera, então, para mandar fazer programas “bem feitos”?
A História, com efeito, já não é um engulho para o senhor, é um trauma. Por isso, não interessa fazer bons programas de História porque, mesmo com maus programas, História também ensina a reflectir criticamente sobre todo o mal que esta gente vem fazendo à educação em Portugal.
E está traçado o destino da História.

António Antão

Já repararam na rapidez do truque da mão logo no início?
E depois na fluência em vários idiomas técnicos?

Deixou-me trés content. It was fantastic mesmo!

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