Ontem acabei por deixar, por manifesto embrutecimento intelectual causado pela leitura em causa, duas categorias de parâmetros de avaliação dos docentes por analisar de forma breve.
A categoria D, sobre a Avaliação das aprendizagens dos alunos padece do erro que atravessa todo este modelo de avaliação, ou seja, procura que seja avaliado o desempenho a prática contínua dos docentes sem que para isso o avaliador tenha os meios para o fazer, em especial quando existe um tritular para quinze colegas ou mesmo mais.
É perfeitamente impossível, de boa fé, acreditar-se na exequibilidade de algo que prescreve que se classifique de 1 a 4 se o «docente avalia o trabalho realizado com vista a um ajustamento permanente do processo de ensino/aprendizagem». Para começar, a expressão « processo de ensino/aprendizagem» que tanto se popularizou nos anos 90 e que deve ser um dos must em actas de Conselho de Turma, relatórios e planos disto e daquilo (eu garanto que a usei umas boas centenas de vezes) parece continuar viva e de boa saúde em algum gabinete da 5 de Outubro. Em seguida é sinal de perfeita demência de gabinete esperar que, com as condições de horários dadas aos titulares, eles possam acompanhar a esse ponto uma ou duas dezenas de colegas de Departamento. Só mesmo em mangas de alpaca tal ideia é concebível.
Mas o melhor/pior está reservado para a categoria E da grelha, que em boa verdade é a que acaba por grelhar todos, avaliadores e avaliados de um vez.
Porque esta é a categoria destinada a avaliar o desempenho das funções dos avaliadores por parte dos agentes do ME que passarão pelas Escolas uns quantos dias – com sorte uma semana – e terão a função e “competência” de analisar e classificar nesse tempo dois anos de trabalho do avaliador e aferir da forma como ele foi equitativo, independente e rigoroso nessa avaliação, sendo que tais conceitos, nestes tempos de pós-pós-modernidade, são mais do que flutuantes, são verdadeiros vazios de conteúdo preenchidos de acordo com os interesses das circunstâncias.
Porque o verdadeiro problema também reside aqui, na função de avaliação do professor avaliador pois, embora possa parecer uma garantia para os professores avaliados, mais não passa do que de um mecanismo de controle externo, exercido por quem do quotidiano escolar tem uma visão burocratizada e formalista e que aplicará uma grelha de classificação cujas directrizes escapam neste momento ao nosso conhecimento.
Porque não vale a pena pensar que os titulares serão necessariamente os maus da fita. Pelo contrário, muitos dos que exercerem as suas funções de forma mais justa, equitativa e rigorosa serão quase certamente dos primeiros a pagar por isso.
Setembro 26, 2007 at 8:15 am
O mais grave de todo este processo é o papel que é atribuído ao docente: o de simples funcionário/meio ao serviço do cliente, sob a dependência e vigilância do Estado.
É exigido ao docente a aplicação de uma série de técnicas profissionais, mas é ignorada a personalidade, o saber e a competência pedagógica do ser que está por trás dos instrumentos que utiliza.
Esta racionalidade instrumental, esta afectação da escola aos estritos interesses de uma economia de mercado e a humilhação do docente reduzido a um criado do Estado e babá dos alunos, equivale à condenação à morte por asfixia, da Cultura, do Belo e do Amor ao saber.
O cumprimento dos programas e a obediência às ordens é o que conta, tal como nos sistemas concentracionários, onde os guardas se tornam insensíveis ao que lá se passa. Esta é a banalidade do Mal que este governo transporta na sua carteira de encomendas, disposto a construir uma Rede mafiosa em portugal e antigas colónias (curioso aquele adido de embaixador-criminoso do PS no Brasil, os negócios de Almeida Santos/Stanley Ho, as ligações a Eduardo dos Santos e a Nino Vieira, etc.)
Setembro 26, 2007 at 9:20 am
H5N1
Estás poético homem!
Setembro 26, 2007 at 10:36 am
Numa obra há pedreiros, marceneiros, ladrilhadores, estucadores, pintores, engenheiros (civis, electrotécnicos), condutores de máquinas pesadas (escavadoras, betoneiras, guinchos), carpinteiros, arquitectos… A obra resulta do esforço conjugado de todos.
Ao se tentar categorizar o nível de desempenho de todos por uma matriz comum de avaliação, a natureza específica do trabalho de cada um fica desde logo desvalorizada. As únicas questões possíveis serão tão abstractas como: Não quero saber o que fizeste, se cofragem ou medidas topográficas. Só quero saber se cumpriste todas as normas regulamentares.
É muito ilustrativo o exemplo da obra, porque, apesar da aparente diversidade, é mais homogénea a actividade dos seus participantes que a que é possível reconhecer entre os vários ambientes escolares, as várias matérias escolares, os percursos individuais dos alunos (não estão sujeitos às normas da indústria do aço), a disparidades dos manuais, etc.
Vendo um pouco mais de perto. Um professor honesto repara, pela resposta de um aluno, que o seu objectivo de desenvolver o primeiro princípio da identidade das equações está comprometido porque esse aluno não reconhece uma fracção como sendo um número. Questionando os restantes, confirma a sua apreensão em mais de um terço da turma. Põe-se-lhe o dilema: ignorar o hiato formativo ou honrar o ajustamento permanente do processo do ensino/aprendizagem. Opta por uma estratégia parcial, balanceando disponibilidades de tempo. Onde está o carácter permanente do ajustamento? Porquê entender sempre tudo em termos absolutos? Não se tratará antes de manter a porta aberta a um grau de discricionaridade (por parte do avaliador) que deprecia a objectividade do acto?
Será que os nossos deputados ajustam permanentemente o seu grau de vigília à importância dos temas tratados nos debates?
A grelha “E” é um convite ao harakiri. Depois de assinado pelos professores-avaliadores que foi garantida a equidade, rigor e independência do processo de avaliaçao; cumpridos os requisitos de acompanhamento das actividades lectivas e não lectivas, etc, que mais poderá ser feito pelo Ministério? Esturricaram alunos e professores de frio no Inverno e calor no Verão? Insignificâncias, ora.
Setembro 26, 2007 at 11:59 am
Façam o seguinte exercício: na grelha E substituam docentes por tratadores de porcos, e vão ver como também funciona
(E4: “actividade lectivas” por “actividades de engordar porcos”)
(E5: “actividades não lectivas” por “actividades de manutenção da exploração de suinicultura”)
Ou seja, a especificidade da actividade pedagógica, a relação mestre-aluno é substituída por um DESEMPENHO de TAREFAS mecânicas e impessoais a serem enquadradas por burocratas escrutinadores esvaziados da preocupação pelo Outro.
Esta desumanização é um dos traços mais marcantes desta legislatura. Socrates submeteu o PS à tenaz da crença neo conservadora nas virtude de um mercado global, completado por um Estado ultra centralizado e moralizador.
A mentira e o controlo dos media no propósito de agradar à opinião pública tem funcionado.
Os partidos da oposição estão catatónicos e/ou encerrados numa lógica do vazio, uma vez que o PS pegou nas suas bandeiras e espetou-as no coração dos teritórios conquistados.
Por isso só restam acordos de bastidores para garantir a partilha do saque, assegurado por um pacto de silêncio entre os grupos mafiosos.
O espectáculo ranhoso pela liderança do PSD, demonstra o nível de organização mental e relacional que os primatas alcançam quando se alcandoram a funcionários destes partidos com representação na AR.
Setembro 26, 2007 at 12:21 pm
Concordo plenamente convosco. H5n1, mas se é assim em todos os sectores, poderia não o ser na educação? E não é de Portugal que nasce. Aquilo a que assistimos, é apenas ao rebentar consciente de um dique para que o rio flua em certa direcção: a mecanização. Não era o Sócrates nem a Ministra que a poderiam parar…
Afinal, porquê que nos admiramos? Já não se fala deste resultado há mais de cem anos? Já não fomos repetidamente avisados de todos os cantos que isto iria acontecer se não nos virassemos para uma vida mais interior, mais amorosa, mais compreensiva, mais ocupada de tudo aquilo a que chamaram ‘’soft”?
E foi isso que fizemos?
Eu cá ainda nunca ouvi ninguem dizer ‘’somos atrasados porque lá na Alemanha eles são mais amorosos, e portanto mais felizes…”
Ou então: ”nós afinal somos mais avançados porque temos ainda um coração que sente em vez de se ter tornado uma máquina de calcular, temos poesia – estamos mais perto da essência… temos Natureza a proteger, os nossos vegetais ainda têem sabor…e temos cultura, mais cultura…”.
Não. Só ouço que ”lá fora é que tudo é bom” – e é lá fora que tudo é mais mecânico… ”lá fora é que há desenvolvimento, porque há ciência”. Mas é a ciência (aplicada) que, sem ser acompanhada do ”Vernunft” – da Consciência, da Ética, é o instrumento principal, a seguir ao dinheiro, da redução do ser humano a um aglomerado de matéria, a uma máquina que vive enquanto respira…e que se manipula. Tão bem com ”a ciência” como com a religião. É esta absoluta e radical manipulabilidade (?) do Homem, que me faz sentir uma vertigem à beira de um abismo…
Faz-me lembrar a Maria João Pires à poucos anos… e entre as pessoas todas com boas vidas, quem é que a ajudou quando ela teve problemas? Se nem houve alguém para ajudar a grande portuguesa a continuar a investir no nosso País (como tanto lutou por fazer), como é que pode haver alguém que ofereça, no Governo, uma resistência a uma força internacional tão gigantesca?
Setembro 26, 2007 at 12:50 pm
Lá fora nem tudo é bom.
Pelo contrário.
Por vezes pintam-se certos quadros internacionais como idílicos – e servem como modelos – quando a realidade é bem outra.
Setembro 26, 2007 at 2:03 pm
Muito se tem falado de gestores, por vezes até estes são apresentados em contraposição com outras actividades profissionais, como os professores. Vale então a pena aceitar este desafio. Pois não há, na minha opinião, nada mais próximo de leccionar que gerir. Gerir as desigualdades de preparação dos alunos, gerir os constrangimentos para a preparação das aulas, gerir as deficiências – por vezes demasiado evidentes, outras vezes menos – dos livros didácticos, gerir o difícil equilíbrio entre atenção aos filhos dos outros e atenção aos filhos próprios, gerir os insultos publicados em letra de forma nos jornais, e os seus reflexos mais preversos na disposição dos alunos (ou nos seus pais). Gerir, gerir, gerir. Não no sentido relativamente previsível de uma obra de construção civil (o exemplo escolhido acima), mas noutro sentido de caos extremado, golpes baixos, constrangimentos severos (a actividade tende a ser vista como não lucrativa); diri – supergerir.
Porque os patrões bem sabem que gerir é, sobretudo, lidar com o imponderável, com o contigente, com o poder de persuasão, com os constrangimentos negociais, etc, pagam bem a estes funcionários, não os substituem por computadores.
Se estivessem convencidos que os gestores só tivessem que seguir à risca os regulamentos, já os teriam substituido.
Ao invés, aos super-gestores camuflados em professores, o ME não reconhece maior mérito que seguidores de um regulamento de valor nulo para qualquer efeito prático que dele se pretenda tirar (bem ao contrário dos regulamentos da construção civil).
Setembro 26, 2007 at 3:53 pm
A escola não deve ser confundida com nenhuma fábrica de roscas. A escola não produz bens nem géneros nem tão pouco “serviços”. Esta é a principal ideia a reter se não quisermos encarar a escola como um domínio empresarial como qualquer outro.
A escola está a meio caminho entre a esfera doméstica da família e a esfera pública da política. Pensar a escola como um problema organizacional produtivo em que a gestão se pode assemelhar à exploração de uma suinicultura ou de um lupanar, é algo de extravagante mas que não repugna a muita boa gente.
Já Marx previra a transformação do docente num proletário ao serviço do Capital, produzindo lições em vez de parafusos.
Mas agora a realidade começa a fintar a ficção. E não se trata de opôr as “emoções” à “razão” ou o “interior” ao “exterior” ou ainda a ciência à “humanidade”.
A lamechice nacional é o caldo de cultura do caciquismo e da incompetência.
O estereotipo português de Luis Filipe Menezes não é melhor do que o estereotipo global de Sócrates, assim como a filosofia de Agostinho da Silva não é mais “humana” do que a de Heidegger.
Setembro 26, 2007 at 4:53 pm
Pois é… acho que frequentemente se pinta como idílico o que é mau, e a isso se imita, e tudo o que é bom, se julga mau…
Lamento ouvir dizer que vocês professores se deparam com tantas dificuldades. Pude observar como o ensino em Portugal é frequentemente melhor que no estrangeiro, quanto a conteúdo – mesmo no tempo em que os professores já se queixavam do mal de tudo. O que eu não gostava era do espírito repressivo.
Espero que consigam dialogar (com as autoridade), esclarecer, para que ao ir dar errado com o método errado, ficar a vossa experiência e visão de como mudar de novo para melhor.
Mas posso perguntar uma coisa? Aquilo que me lembro em criança, foi que os bons professores – Só me lembro de dois bons professores, toda a vida: ambos eram muito simpáticos e viam-me A MIM – não como ego, mas como alma…De resto, uma professora de português leu-nos uma história tão bonita que fiquei para sempre a amar a poesia. De resto nada de especial fizeram. Vocês têem material de mais a dar?
Não têem espaço para usar métodos inventivos para os fazer gostar da matéria?
Vocês leram os livros do A.S.Neill?
Apesar da situação ser radicalmente diferente talvez isso vos inspire. Segundo ele as crianças são capazes de aprender a ritmo incrível quando querem e isso é mais importante do que tudo o resto.
Se gostávamos daqueles professores era justamente porque eles eram tudo menos gestores, queriam apenas partilhar connosco a matéria deles, eram muito simpáticos e do coração. De resto eram até um bocado tímidos na sua forma de ensinar.
Gostava de saber porquê que há tanta complicação, vocês sabem-me explicar por favor?
Há matéria demais? Os alunos??
Às vezes também tudo corre bem? Ou são só desgraças?
Setembro 26, 2007 at 5:10 pm
Olá H5,
O meu ”pois é” é para a resposta do Paulo. Eu estava a escrever aquelas baboseiras e nem vira o seu comentário… com o qual mais uma vez concordo. sobretudo com o princípio.
Com o resto também: aliás a filosofia de Heidegger é bem humana: mais poesia, tempo e reflexão, menos correria, técnica e retórica. Tudo o que faz a sociedade é precisamente o inverso disso.
O Agostinho acrescenta o que faltava ao Heidegger, não se opõe.
Não não se trata de opôr – o problema é que já foi oposto: claro que nada há de errado com a ciência ou técnica, se não for imporem só essas, a excluir todo o resto, e esse é o problema. Sem isso não haveria problema nenhum, não é?
Setembro 26, 2007 at 5:35 pm
Nem tudo é mau, obviamente.
Por vezes é apenas caricato.
Outras vezes até é bom.
Basta pouco para ser bom.
Aliás, bastaria que deixassem a Escola ser Escola.
Setembro 26, 2007 at 10:44 pm
Pois é PG, só que querem transformar a escola numa fábrica de chouriços…