Em Portugal o discurso político é por via de regra algo esquizofrénico, mas sobre a Educação a patologia atinge normalmente níveis mais elevados.
Estamos habituados a ouvir dizer que somos um país com baixas qualificações e por isso menos competitivos, menos inovadores, e que essa é a razão do nosso atraso. Questão complexa, se é a Economia que puxa a Educação ou vice-versa, depois logo a discutiremos.
Por outro lado, contactámos nos últimos tempos com as declarações da Ministra da Educação que afirma que a oferta de recém-licenciados com habilitações para a docência é excessiva, que a sua formação está sobre-dimensionada e que é necessário que os jovens saibam escolher a sua carreira com base não em eventual vocação, mas sim no nível de empregabilidade à saída da Universidade. O que quase – sublinho o quase – faria sentido, caso a responsabilidade pela estrutura da formação de nível superior não fosse da responsabilidade do Estado.
Mas, pronto, vamos assumir que os dois tipos de discurso não são incompatíveis e que o que temos é uma formação superior distorcida em relação às necessidades e que nos devíamos reger pelas médias dos países mais avançados, coisa com a qual nem discordo.
Então nada como analisar os dados disponíveis em termos comparativos internacionais. Comecemos pelos números da formação superior da população portuguesa:

Ooopppppsssss… Lá estamos nós em 29º lugar em termos da chamada formação terciária, em pessoas com mais de 25 anos. Sobre-qualificados não parecemos estar, muito pelo contrário. Ainda andamos a recuperar do atraso acumulado durante a maior parte do século XX.
Então, a explicação para o desemprego de tantos recém-licenciados deverá ser a estrutura distorcida da oferta em matéria de ensino superior, que tantas vezes opta por cursos baratos e de médias baixas para absorver os candidatos ao canudo, deixando de lado cursos mais “caros” em termos de equipamento e mais exigentes em termos de acesso e desempenho.

Et voilá…
Se é verdade que na área das chamadas Letras e Humanidades (incluindo as Ciências da Educação que foram uma das prioridades definidas desde os anos 80 para a formação universitária) encontramos um valor total de 55%, não é menos verdade que esse é um valor inferior à média dos países da OCDE nesta área (que é de 57%).
Por sua vez, nos cursos de Ciências, Engenharia ou Saúde encontramo-nos exactamente com o mesmo nível de população formada que a média dos países da OCDE, sublinhando-se que estes são totais para a população até aos 64 anos e não para uma faixa específica.
O que nos faz perceber que, provavelmente, não é necessariamente a formação que está distorcida para os padrões europeus, mas sim para a estrutura do nosso mercado de trabalho para licenciados e mão-de-obra com qualificações de nível superior.
Se existe um excesso de oferta de recém-licenciados em determinadas áreas – como a Educação – e mesmo aceitando eu de bom-grado que existem cursos nesta área em excesso, a verdade é que está tudo de acordo com os parâmetros europeus. O que falha está a jusante, pois é o mercado de trabalho que temos, ainda baseado na busca de mão de obra desqualificada ou, em especial, barata, que depois gora completamente as expectativas de quem obtém uma formação académica superior.
Que os Ministérios da Educação e do Ensino Superior se tentem escusar de responsabilidades é lá com eles. Que afirmem que é um «problema do país» até se pode aceitar, desde que percebamos que eles pertencem a um Governo diferente daquele a que pertencem os Ministros da Economia e do Trabalho.
Ou será que, afinal, estes problemas são encarados de forma atomizada, com cada ministro a tomar conta da sua paróquia e a lançar o que é inconveniente para os quintais dos vizinhos?
Setembro 23, 2007 at 2:28 pm
Meu Caro Paulo
Os dados que apresenta estão de acordo com a tese central do nosso (sub)desenvolvimento: não há excesso de diplomados; não há sequer distorsão (significativa) entre a oferta e a “procura devida” – o nível de desemprego friccional não será muito elevado; o problema do nosso país (digamos das suas elites que não têm sido capazes de criar uma renovada consciência social) reside na desvalorização do conhecimento, do saber fazer criativo, crítico e transformador. Portanto, o problema está no défice de reconhecimento no valor das qualificações, na míngua da procura de pessoas competentes para intervir na regeneração mais intensiva do mercado de trabalho (pois há vários mercados de trabalho…)
Setembro 23, 2007 at 2:41 pm
E também do facto de, em muitos desses “mercados” se optar por contratar o que é mais barato, eventualmente preferindo uma “nova oportunidade” menos exigente do que um diplomado.
Não é estar a querer dizer que os qualificados estão mais deprotegidos, apenas que muitas vezes sao obrigados a camuflar as suas habilitações para serem caixas de um banco ou quadros intermédios numa empresa.
Setembro 23, 2007 at 4:49 pm
Penso que a questão das qualificações e do emprego, só podem ser analisadas com o respectivo enquadramento na economia real.
A desvalorização dos títulos é uma coisa, outra é a pletora de diplomados em áreas sem qualquer saída profissional.
A primeira prende-se com a lógica do próprio processo de massificação e facilitação na obtenção dos graus académicos, a segunda deriva do desfasamento entre a produção de agentes produtivos pelo sistema educativo e a capacidade de absorção pelo mercado de trabalho.
O que se verifica em portugal é uma ruptura grave entre os dois processos, artificialmente alimentado pelos mercadores e vendedores de ilusões de todos os quadrantes políticos.
O n.ºde trabalhadores EMPREGADOS com baixas e médias qualificações aumenta enquanto os com altas qualificações diminuem (dados do INE 2.º trimestre 2007).
Sem investimento e desenvolvimento em áreas geradoras de empregos qualificados, como é que se vai inverter o processo ??? Fabricando mais liceciados, mestres e doutores, com recurso a crédito e tudo ???? Qual é a valorização possível de uma qualificação sem utilidade social e económica ?????
Resposta: um Estado que empregue todos, mesmo que com horários zero e com ordenados miseráveis, será talvez a solução…para alguns.
Setembro 23, 2007 at 5:54 pm
Não nego, antes reconheço, a importância da empregabilidade social dos saberes. Mas também é preciso saber que uma elevada percentagem de diplomados não exerce profissão na área da sua formação de base (o que pode querer dizer que a especialização pode não ser importante). Os dados estatísticos citados na entrada anterior indiciarão a ainda forte presença de um mercado de trabalho que não reconhece “valor acescentado” às qualificações mais elevadas….
Setembro 23, 2007 at 6:07 pm
Ainda hoje, estava eu a apanhar um bocadinho de sol na praia, e surge uma senhora, com uns papéis nas mãos, perguntando se podia entregar uns questionários para uma tese de mestrado, que por acaso, veio depois a dizer, serviam também para a recolha de dados para uma tese de doutoramento da sua orientadora.
Os questionários abordavam a relação entre a crença em algo Superior, Divino e a realização pessoal. Na introdução aconselhavam-se os inquiridos a não pensarem nas respostas na altura de colocar as cruzinhas.
A Instituição de referência que promoveu esta tese é o ISPA.
Palavras para quê…
Setembro 23, 2007 at 7:37 pm
Eu deixei de acreditar em algo “superior” relacionado com o “divino” a partir do momento em que morei num prédio em que no apartamento por cima se jogava bingo até às 2 da manhã em dia de semana. A partir desse tempo tomei a decisão de não ter sobre mim mais ninguém, salvo honrosas excepções que não adiantam aqui nada à seriedade da questão.
Setembro 23, 2007 at 9:00 pm
Eh!eh!eh!eh!!!
Novembro 12, 2007 at 4:43 pm
Ninguém sabe qual a empregabilidade dos cursos à saída das universidades e quem poderia saber não os divulga. Se o fizessem, estavam a assinar a sentença de morte no ano a seguir.
O sistema de escolha de cursos é aberrante. O aluno tem de decidir o que quer estudar com 16 anos de idade. Portanto, deve fazer um exercício de futurologia para saber como vai estar o mercado de trabalho numa área especifica daí a 8 anos. Escolher no final do 9º ano o que se quer estudar e onde se quer trabalhar o resto da vida é pedir um pouco demais a um puto de 16 anos não acham?
Se os dados de empregabilidade fossem conhecidos havia muito catedrático e “professor” que ia ver o seu posto de trabalho extinto.
Depois, mesmo que se queira optar por um curso profissional, só o pode fazer antes de se meter no 19º ano… é o fantástico modelo do liceu francês…