Hoje e amanhã tem lugar na Universidade Católica o simpósio internacional A Escolha da escola face à justiça social: dilema ou miragem, iniciativa da organização internacional OIDEL com o apoio a nível nacional da Fundação Pro-Dignitate e do Fórum para a Liberdade de Educação, que teve Maria José Barroso a abrir e terá Maria de Lurdes Rodrigues a fechar (discurso que me desperta alguma curiosidade).
O evento tem bastantes participantes estrangeiros e vários são os idiomas utilizados de acordo com o programa, ao que parece sendo isso extensível ao dito programa que opta pelo chamado português do Brasil em variados termos (”européia”, “planejamento”, “freqüentemente”, “cerimônia”), o que causa alguma estranheza assim como o facto de no título termos direito à expressão dilema or miragem, um híbrido anglo-português que também me deixa algo confuso. Mas tudo bem, são falhas que acontecem a qualquer um, mesmo a quem quer promover uma educação de qualidade em Portugal.
Aliás, a iniciativa é toda vocacionada para a promoção do ensino privado e para a crítica ao sistema público de ensino, mas não é isso que me incomoda por aí além. Para mim, há espaço para tudo. O que me incomodam são os argumentos utilizados.
Hoje pela manhã na rádio ouvia João Alvarenga, director do Colégio Didálvi e um dos organizadores do seminário (não achei ainda o link) a dizer algo como o seguinte, que cito de memória, com fidelidade ao conteúdo, mesmo se não à forma exacta:
O Estado só deve criar escolas onde a iniciativa privada não tenha chegado, porque o Estado não deve fazer concorrência à sociedade civil. Para além de que criar escolas públicas custa muito dinheiro e onde as comunidades se organizaram e em que há escolas religiosas as escolas do Estado não são necessárias, nem desejadas.
Isto é para mim o grau 1 (não desce a zero por pouco, porque não referiu logo a questão dos cheques-educação) de qualquer argumentação em defesa do sector privado da Educação porque parece desconhecer completamente a História do sistema educativo português e o modelo de implementação do sector privado da educação no nosso país.
Indo por partes e resumindo para não me estender:
- No século XIX, o Estado português fez tudo e mais alguma coisa para que a “sociedade civil” conseguisse organizar uma oferta educativa capaz de satisfazer as necessidades da população portuguesa, mas isso revelou-se uma impossibilidade.
- No século XX e em especial desde o final da I República, dando continuidade ao que antes se passava mas agora até com alguma condescendência do próprio Estado, a iniciativa privada concentrou-se nos grandes centros urbanos ou, fora deles, quase em exclusivo em instituições dependentes de congregações religiosas.
- Na actualidade, a implantação da oferta privada da Educação mantém este modelo e muitas das zonas mais carenciadas – incluindo aquelas onde as escolas públicas chegaram tarde e se estão a retirar cedo – essa oferta sempre foi inexistente. Para além disso, a oferta privada baseia a sua actividade normalmente no interesse – material ou espiritual – e muito mais frequentemente numa lógica de lucro que implica que a maior parte dos grupos sociais mais desfavorecidos não possam a aceder à frequência das suas instituições.
Para além disso, muito haveria a dizer e escrever sobre a forma de recrutamento dos docentes de muitas escolas privadas e do seu regime de trabalho, bem como dos modelos pedagógicos usados. Esses assuntos já foram tratados e discutidos aqui no Umbigo, pelo que não retornarei a eles de forma extensiva, mas apenas repetindo que em boa parte do sector privado da Educação – em especial aquele que se gaba dos seus bons resultados e rankings – se faz tudo aquilo que no sector público é considerado inadmissível: selecção/segregação socio-económica no acesso; ensino focado na obtenção dos resultados nos exames; criação de espírito de pertença a um grupo apresentado como distinto do meio envolvente; ensino de tipo confessional e fortemente doutrinário em muitas instituições.
Achando que essas instituições têm todo o direito de existir e seguir as suas regras, já acho, contudo, perfeitamente despropositado que se achem no direito de recusar a presença das escolas públicas – e mesmo de a considerar idesejável – quando isso perturba o seu negócio que, como já disse, é tanto em torno das coisas temporais como espirituais.
Setembro 7, 2007 at 6:24 pm
Concordâncias, discordâncias e reflexões…
“Para mim, há espaço para tudo”
Começo por aqui. Ora aí está uma posição, já suspeitava, que reforça o apreço pelo autor, o qual não conheço de lado nenhum, mas que me leva a dizer que este blogue, de entre os da área, é um dos mais despoluídos e, por isso mesmo, um dos mais interessantes. Tomei contacto com o blogue vai para 3 ou 4 meses, e tenho seguido (participado, pouco) com atenção muitos dos temas e abordagens do autor.
O fundamentalismo, qualquer que seja, é sempre doentio, no entanto pode ter cura, em especial se se deixar temperar. A afirmação do tal João Alvarenga tem um misto de fundamentalismo e irrealismo. Não me choca, longe disso, o principio em si, agora, a sua aplicação no actual situação é perfeitamente descabida. Numa utópica situação zero, tipo país que arranca do nada, a proposta é consistente à luz de determinadas ideologias políticas. Todos nós conhecemos também o caso contrário. Agora, tendo em atenção as tradições, a história e a actual situação, o João Alvarenga atira para os pés.
Quanto ao cheque educação, confesso que não sou grande apreciador da ideia, especialmente tendo em atenção a forma como ela é apresentada. Sou um adepto convicto do ensino público (não confundir com escola publica) e como tal a ideia do tal cheque faz-me muita confusão. (não chega a aversão, mas quase)
Quanto ao conhecimento da história, se calhar fruto de algum atrevimento meu, para não lhe chamar outro nome, tenho algumas dúvidas em relação ao que escreveu.
Parece-me que o período de tempo que descreve, conhece essencialmente duas situações. A primeira, que vai até ao fim da1ª republica, e a segunda que começa com Salazar (por volta de 40) e se prolonga até hoje.
Na primeira não existe qualquer predominância do público sobre o privado, bem pelo contrário. Com Salazar, a situação começa-se a alterar, e, em especial depois do forte investimento em escolas primárias (elas ainda aí estão por esse país todo) a relação de forças muda por completo. Mesmo apesar do muito menor investimento em liceus e escolas técnicas, o que é um facto é que existia uma rede pública que cobria todo o país. (com o tal deficit em liceus). O actual regime suprimiu na quase totalidade essa carência e a relação publico/privado não se alterou de forma significativa.
Por muito que custe a alguns, a opção pela escola pública feita pelos dois regimes é ideológica, e não tão divergente como pode parecer.
“muito haveria a dizer e escrever sobre a forma de recrutamento dos docentes de muitas escolas privadas e do seu regime de trabalho, bem como dos modelos pedagógicos usados”
Aqui sim, temos algumas divergências de fundo, e penso que não resiste a uma forma insinuosa de apresentar as coisas. Posso dizer que, quer como aluno, quer como encarregado de educação conheço bem este tipo de escolas a que se refere, bem assim como as escolas publicas. Conheço até muito bem algumas dessas escolas que ocupam os primeiros lugares nos rankings, e rejeito por completo esse tipo de questões. Não deixa no entanto de ser verdade, que algumas das piores escolas deste país são privadas, e até poderia dizer que um estado forte já deveria ter fechado algumas. Curiosamente, é nesta ultima categoria, que muitos filhos de professores públicos iam ou vão fazer o 12º ano na procura de notas mirambolantes.
Quanto à “selecção/segregação socio-económica no acesso” penso que não difere muito daquela que é feita no restaurante onde uma refeição custa mais de 20 euros. De certeza que não espera encontrar entre os comensais habituais do restaurante determinados estratos sociais. Será que é caso para ter reservas mentais em relação ao restaurante? E seguramente lá encontraremos gente que apesar de poder pagar não consegue comer com a boca fechada.
Em conclusão, estou perfeitamente de acordo consigo quando diz que uma escola pública não pode ser considerada indesejável, mas também defendo que duas escolas públicas juntas são uma situação não desejável.
O por ora não me estico mais.
Setembro 7, 2007 at 9:32 pm
Antes de mais, obrigado pelo elogio à despoluição deste espaço.
Faço os possíveis por isso, mas nunca volto a cara a uma discordância como o jm já saberá.
Et por cause…
Para arrumar com as questões das eventuais insinuações, quando falo no recrutamento dos professores por parte de algumas instituições privadas, sei do que falo por conhecimento directo – leccionei ocasionalmente numa e o meu nome até surgia na lista oficial de docentes (ao contrário de outros que davam as aulas, assinadas nominalmente por outrém) – ou por testemunho de quem por lá anda.
Claro que nas escolas “de elite” o recrutamento é bom, mas poderemos arrumar essas escolas numa lista de poucas dezenas.
Mas ainda em relação a matéria de insinuação, acho que a passagem seguinte é bem pior:
Não deixa no entanto de ser verdade, que algumas das piores escolas deste país são privadas, e até poderia dizer que um estado forte já deveria ter fechado algumas.
Curiosamente, é nesta ultima categoria, que muitos filhos de professores públicos iam ou vão fazer o 12º ano na procura de notas mirambolantes.
Esta afirmação é que é complicada, pois pelo meu testemunho directo – de novo – não são os professores que mais usam esse esquema.
Por acaso os professores que conheço até seleccionam bastante – ma medida das possibilidades – as escolas privadas quando as usam para a sua descendência.
Mas adiante.
Agora sobre História:
O sistema público de ensino é dominante na criação de escolas desde o final do século XIX.
Salazar apenas continuou uma tendência anterior. As estatísticas que já usei várias vezes demonstram que, numericamente, não existem especiais inflexões durante cerca de 100 anos nessa matéria.
A República usou muita retórica em matéria de Instrução Pública.
O Estado Novo usou uma padronização arquitectónica que tornou as escolas mais visíveis.
Só isso.
Não sou dos que exaltam ou apoucam a obra do Estado Novo em matéria de Educação por questões ideológicas.
Não gosto dessa via.
Assim como não acuso todos os males da Educação actual por causa de ter experimentado uma forte matriz esquerdista em muitos aspectos, como a avaliação e a disciplina.
Mas em matéria de público/privado o Estado Novo caracteriza-se por guardar para si em especial o Ensino Primário e o Superior, deixando o Ensino Secundário mais entregue à iniciativa privada. De novo, essas são as ilações dos números que estudei extensivamente e posso um dia aqui facultar, embora já tenha abordado o assunto na Pré-História deste blogue.
Agora a metáfora dos restaurantes. Não me agrada por aí além por diversíssimas razões, mas aceitemo-la.
Isso significa que essa segregação na entrada por motivos económicos implica que em certos bairros só devem existir restaurantes de cinco estrelas e os eventuais menos abençoados pelos euros (e serviçais das famílias) desse bairro não podem comer fora em restaurante menos caro?
Sei que não é isso que quer dizer.
mas as infelizes declarações do Dr. João Alvarenga vão bem mais longe pois parecem indiciar que as tascas e os snack-bars devem ser mantidos a prudente distãncia para não estragarem as vizinhamças.
Enfim… em dia de simpósio, em que se vai estar rodeado de gente que só come nos Tavares e Gambrinus, uma pessoa pode perder o pé…
Mas meu caro jm, numa coisa pode estar certo: para mim é importante que exista oferta privada de Educação (uso-a há 4 anos, de início por ausência de rede pública), só que acho que essa iniciativa deve mover-se no âmbito da liberdade e liberalismo que proclama e não no da subsidiodependência.
Setembro 7, 2007 at 9:34 pm
“Les différents régimes politiques considérent le CONTRÔLE DE L’ÉDUCATION comme une question vitale pour leur survie et pour leur reproduction. Ainsi, la Monarquie, La Ie République et L’État Nouveau vont exiger des enseignants la signature d’une DÉCLARATION DE FIDÉLITE et d’adhesion à leurs ideaux respectifs”
António Nóvoa (Le Temps des Professeurs)
A seguir ao 25A a canga dos sindicatos e os comissários do “eduquês” mantiveram a “classe” nos carris do regime. Actualmente, com o declínio do Welfare State, com o domínio do Centrão e com a pressão do mercado, os docentes estão completamente rendidos aos encantos da Função Pública.
Setembro 7, 2007 at 9:46 pm
Mesmo sendo pago pelo Estado acho que, e de acordo com o que tenho afirmado nas minhas trocas de opiniôes com o MFaces, os docentes só teriam a ganhar em lutar firmemente por manterem uma idetidade própria de corpo profissional no âmbito da Função Pública.
Por isso sou pouco sensível a protestos convocados em nome da FP a menos que sejam muito bem explicadinhos.
Não é quebra de solidariedade, é apenas um mecanismo de recusa da indiferenciação dos assalariados em relação ao Estado-Patrão.
Quando a essa tese do professor Nóvoa é igualmente a minha, levando-a até mais loge do que o próprio que, em certos momentos, ainda se deixou inicialmente que a crítica político-ideológica ao regime salazarista impedisse uma melhor percepção de algumas das suas realizações em termos de “escola de massas”.
Mais recentemente já corrigiu essa posição e veio a reconhecer que, afinal, é no EN que se afirma verdadeiramente essa “escola de massas” em Portugal.
Setembro 7, 2007 at 10:18 pm
Não tem a ver com o assunto,desculpem, mas é um dilema que me vem, digamos, causando desconforto.
Tem a ver com o desfasamento na calendarização de ingresso no ensino universitário. As matrículas da 1ª fase de candidatura são feitas entre 17 e 21 de Setembro e o começo de aulas está previsto para meados do mês. Simultâneamente é feita a apresentação à 2ª fase, com saída de resultados a 15 de Outubro.
Caso o jovem candidato consiga o ingresso nesta 2ª fase, perderá quase um mês de aulas e será provavelmente confrontado com um teste ao entrar.
Não entendo.
Como o Paulo disse há tempos que se iria debruçar sobre o ensino superior, aproveito a deixa…
Setembro 8, 2007 at 12:04 am
Ripostando
Não tem de agradecer, é uma questão de justiça.
Insinuações? Não é o meu estilo. Fiz afirmações. Vejamos:
“Não deixa no entanto de ser verdade, que algumas das piores escolas deste país são privadas, e até poderia dizer que um estado forte já deveria ter fechado algumas.
Curiosamente, é nesta ultima categoria, que muitos filhos de professores públicos iam ou vão fazer o 12º ano na procura de notas mirambolantes.”
1º Parágrafo – Não admito que escolas privadas, algumas delas situadas nos grandes centros urbanos do litoral, vendam classificações ao Kg. Basta olhar para os rankings do secundário e ver o diferencial entre as CI e os exames. Chegam os 6,7 e mais valores. È publico, basta ver com atenção. Não o compreendendo, aceito muito mais facilmente esse diferencial numa publica de Moura ou Freixo de Espada Á Cinta, do que numa privada de Lisboa, por ex. Por mim fechavam. E como é óbvio, fechava igualmente as do vão de escada, com formas de trabalhar verdadeiramente degradantes.
2º Parágrafo – Os pais professores públicos são rigorosamente iguais aos pais profs. privados. Que não existam duvidas. A única diferença é que os primeiros são incomparavelmente mais numerosos, e eventualmente mais bem informados. Vou-lhe relembrar dois exemplos, daquilo que os pais professores são capazes de fazer para que a criancinha entre em medecina.
1º Lembra-se da mega fraude de Guimarães? É publico e documentado que começou em pequena escala dois anos antes com os filhos dos professores. No ano a seguir já foram os filhos e os amigos e ao 3º ano democratizou-se a gripe e toda a minha gente adoeceu com atestado.
2º Lembra-se do escândalo do recorrente, no 12º ano? Aquela passagem do diurno para o nocturno a meio do ano ? O colégio era e é em Lisboa, começa por um C e acaba num L. Quem explorou o buraco foram os professores que lá puseram os filhos calinas. Porque os bons alunos sabemos que são postos noutro tipo de escolas.
Faça-me a justiça de não me acusar de insinuações. São afirmações.
Quanto à história, eu bem me defendi com algum atrevimento, vulgo ignorância, mas tenho que ver os números. A ideia que tenho é que o aparecimento dessas escolas privadas foi algo muito localizado nos grandes centros, e que curiosamente eram preferencialmente frequentadas por uma população juvenil vinda do interior que na maior parte dos casos aí ficava internada. As elites de Lisboa frequentavam antes do 25 A mais o Camões do que o S. João de Brito. Posso estar enganado, mas é a ideia que tenho.
Quanto à metáfora dos restaurantes, é evidente que vale o que vale. Mas a problemática da “selecção/segregação socio-económica no acesso” dá pano para mangas, e há-de reconhecer que é muitas vezes utilizada com arma de arremesso contra o ensino privado. Só mais uma “metáfora”. Não sei onde vive, mas aposto que não trocaria a sua casa por uma igualzinha num daqueles bairros vitimas da “selecção/segregação socio-económica”. Mas adiante…
Caro Paulo G., para mim a escola privada que vive das propinas/mensalidades dos seus alunos, não tem nada que viver da subsidiodependência. É algo que julgo pacífico.
A questão é outra. Porque carga de água é que a escola pública tem praticamente o monopólio do ensino publico? Aqui é que parece-me que não nos entendemos. Na sáude, como sabe, a situação está rapidamente a alterar-se. Em que é que a educação é diferente?
Setembro 8, 2007 at 2:02 pm
Começando pelo fim:
Porque carga de água é que a escola pública tem praticamente o monopólio do ensino publico? Aqui é que parece-me que não nos entendemos. Na sáude, como sabe, a situação está rapidamente a alterar-se. Em que é que a educação é diferente?
A escola pública tem o monopólio do ensino público por essa razão! Não sei se percebi mal ou se foi o jm que formulou menos bem.
Quanto ao caso da saúde, as alterações que existem não serão especialmente vantajosas para os utentes.
Pelo contrário.
Para mim, as escolas privadas devem existir e entrar no mercado da educação pelos seus méritos, cobrando propinas ou – quando o sistema público fraqueja – exigindo um contrato de prestação de serviço público. O que é diferente de subsidiodepend~encia.
O que me sempre meteu confusão foi ver colégios “de elite” a advogarem a concessão de cheques-educação para quem deles não precisa pois, como bem sabemos e também admitiu, há restaurantes onde não entram todos, mesmo que levem o dinheiro certo. É mais como nas discotecas: podes ter dinheiro para o consumo mínimo, mas não és chic e não ficas bem no livro do final de curso.
mas agora à questão essencial, das disfunções do ensino privado.
Primeiro as questões que me aponta sobre os abusos promovidos pelos professores do ensino público.
Não conheço em detalhe o caso de Guimarães, quanto à profissão dos papás dos meninos e meninas. Admito que parte sejam professores, provavelmente do mesmo tipo dos que metem atestado para irem de férias ao “exterior” durante o período lectivo ou das avaliações e aparecem com um belo bronze em Janeiro ou na Páscoa. Por via de regra nunca lhes são mandadas inspecções a casa, apesar dos órgãos de gestão saberem o que se passa e fazem isto impunement ano sobre ano. Longe de mim fingir que não sei que isto se passa.
Quanto ao caso do colégio lisboeta que refere (do qual cheguei a conhecer algumas pessoas), a esse poderíamos acrescentar outros e ainda o facto de a corrupção na avaliação em muitos deles ser endémica e pandémica. Em alguns casos da forma mais óbvia (o cheque que transita de mãos), em outros de forma algo disfarçada (a prenda que se traz das viagens de longe) e ainda em outros de modo bem mais subtil (os conhecimentos que se travam, os convites que se fazem).
Essa é, aliás, para mim a principal crítica ao funcionamento de várias instituições privadas e a algumas pessoas que lá trabalha(va)m.
Dir-me-á que são factos o que afirma e não insimnações.
Então eu devolvo esse tipo de afirmação com a minha observação directa do que afirmei e considerou insinuação.
Em muitos estabelecimentos privados o recrutamento dos docentes (por exemplo nos anos 90 do boom do tal ensino “ao despacha” do secundário para entrar o mais brevemente possível numa qq Universidade privada)era feito com base no trabalho barato de dar aulas por gente sem habilitação própria para que outros assinassem na folha oficial.
Como lhe disse leccionei ocasionalmente, substituindo durante um ano uma colega grávida, (pessoa que até passou a estar ligada ao ramo do lado do empresariado de jardins de infãncia da “linha” de Cascais)num externato do centro de Lisboa onde conheci as histórias do “tal”, assim como de outros com nomes de pensadores latinos e mesmo daquele onde estava, onde assisti pessoalmente a situações de tal forma aviltantes que, quando abri a boca, fui dispensado de vigiar qualquer serviço de exames.
Algum tempo depois, quando essa instituição foi finalmente inspeccionada, deu-se a coincidência maravilhosa de ser assaltada numa noite e de sido vítima de ladrões muito interessantes, daqueles que só roubam processos de alunos, pautas e um ou outro computador mais fácil de transportar para disfarçar.
Em outros casos, o recrutamente é diferente e obedece a critérios confessionais ou de alinhamento ideológico, sendo que muitos docentes nem habilitações académicas possuem para leccionar as disciplinas que leccionam.
Por fim, e bem mais recente e próximo de mim, dá-se o caso de estar na direcção pedagógica de uma instituição privada de ensino cheia de “prestígio” uma pessoa que, quando fez parte do meu Conselho de Turma, ter provocado um levantamento geral dos alunos devido ao seu incumprimento de horários, tratamento abusivo dos alunos e desleixo generalizado nas suas obrigações. Como as de supervisor pedagógico que mandava os seus estagiários preencher a avaliação de todos os parâmetros com “S de Satisfaz” porque – e isso ouvi eu – “isso é tudo a mesma merda”.
Agora faz parte da equipa que selecciona quem entra na instituição privada “de prestígio”, seja para professor como para aluno.
Exemplos, exemplos, todos os temos.
Nenhuma classe é perfeita.
Nenhum sector é absolutamente puro.
O problema são aqueles que têm duas faces: uma quando estão no público e outra quando passam para o privado.
Setembro 8, 2007 at 5:04 pm
“A escola pública tem o monopólio do ensino público por essa razão! Não sei se percebi mal ou se foi o jm que formulou menos bem.”
Agora sou eu que não percebo.Repito a pergunta adicionando algo mais. Porque carga de água é que a escola pública tem praticamente o monopólio do ensino publico? Será que o ensino público (gratuito) não pode ser feito por privados contratualizados?
“Quanto ao caso da saúde, as alterações que existem não serão especialmente vantajosas para os utentes.
Pelo contrário.”
Olhe que não, olhe que não…
Pergunte às gravidas de Elvas se se deram mal com a troca…
“Nenhum sector é absolutamente puro.”
Tire o absolutamente e assino por baixo.
Setembro 8, 2007 at 6:38 pm
Na Saúde os exemplos da gestão privada subsidiada pelo Estado não são os melhores. Basta irmos ao caso dos dinheiros do Amadora-Sintra.
E quanto á privatização de serviços públicos, basta ver o que aconteceu a muitos por essa Europa fora, a começar pela Grã-Bretanha, onde em nome do liberalismo se passaram a ter piores serviços, por exemplo na área dos transportes.
Por cá, as experiências de gestão “moderna” e “lucrativa de serviços públicos acabaram com metade do meu correio a desaparecer substituído por publicidade, mas os CTT a darem lucro.
Quanto ao 1º assunto, penso que existe um mau uso do termo “público”, pois se o sistema é público as escolas são necessariamente públicas.
Julgo que quererá dizer algo mais como “será que as escolas privadas não poderão fazer mais eficazmente o serviço que fazem as públicas, dispondo para isso de contratos com o Estado para a prestação desse serviço?”
Bom, tenho as minhas dúvidas porque, afinal, o pessoal disponível é o mesmo, a emnos que o serviço fique mais barato à custa de uma mais baixa remuneração dos docentes, que é a actual política do ME.
Eu vou tentar ser claro quanto ao que acho do ensino privado, que acho tão estimável como qualquer outro sector privado da actividade económica e empresarial.
O sector privado da Educação funciona para obter lucro, o que é normal.
Ora, se o Estado não procura o lucro como prioridade na sua actividade na área da Educação, mas apenas reduzir os custos, não percebo como contratualizar com os privados pode reduzir esses custos, a menos que seja como a antiga “venda dos cargos” que os Reis faziam, recebendo uma renda fixa daqueles que ficavam com a obrigação de cobrar posteriormente os impostos régios, independentemente do que recolhessem.
Explico melhor: se na gestão privada há lugar para a busca do lucro, das duas uma: ou o Estado pode fazer o mesmo mais barato ou então é porque as entidades privadas reduzem os custos da prestação desse serviço. E essa redução só pode ser feita – se estamos a falar na prestação de um serviço equivalente ao público, universal, gratuito, etc – à custa dos encargos com pessoal ou com o material.
Num caso iso agravaria a situação laboral dos docentes; no segundo os meios disponíveis para o trabalhos deles e dos alunos.
Portanto eu acho que o papel do ensino privado é muito simples:
a) Oferecer uma proposta alternativa à do Estado, eventualmente de melhor qualidade ou com um determinado tipo de alinhamento confessional e ideológico, submetendo-se às leis do mercado nesse campo. Dou-lhe o exemplo do pré-escolar na minha zona: a rede pública é mínima e florescem os infantários privados.
b) Contratualizar com o Estado onde este não tenha assegurado uma rede pública minimamente satisfatória.
A solução dos cheques-educação em jome da liberdade de escolha dos pai´s é, entre nós, uma ficção e um truque que só serviria a alguns.
Falo pelo que vejo: nos vários concelhos onde tenho leccionado não encontro qualquer escola privada secundária que tenha vindo concorrer com as escolas públicas oferecendo um melhor serviço.
Pudera, isto é o que eufemisticamente se chama uma zona deprimida.
(mas isto devem ser preconceitos meus…)
Setembro 8, 2007 at 9:03 pm
“Explico melhor: se na gestão privada há lugar para a busca do lucro, das duas uma: ou o Estado pode fazer o mesmo mais barato ou então é porque as entidades privadas reduzem os custos da prestação desse serviço.E essa redução só pode ser feita – se estamos a falar na prestação de um serviço equivalente ao público, universal, gratuito, etc – à custa dos encargos com pessoal ou com o material.
Num caso iso agravaria a situação laboral dos docentes; no segundo os meios disponíveis para o trabalhos deles e dos alunos.´”
Postas as coisas nestes termos, então faça o estado tudo, mas mesmo tudo. Ou será que haverá alguma coisa que o estado não consegue fazer mais barato?
Setembro 8, 2007 at 10:20 pm
A questão não se coloca nesses termos embora, em tese, até esteja certo.
A questão é que o estado não consegue chegar a todo o lado, nem tem a obrigação de prestar um ensino sectário ou confessional a ninguém.
Por isso, a iniciativa privada pode complementar o papel do Estado onde ele não chega e proporcionar alternativas a quem não se satisfaz com a oferta estatal.
Eu, por exemplo, mantive a minha miúda num infantário privado, após a abertura do estatal.
As razões são ambivalentes, pois existem coisas piores nesta instituição mprivada do que na pública.
Só que preferi mantê-la com a mesma educadora e “núcleo duro” de colegas com que está há 4 anos, depois de me aperceber que boa parte dos encarregados de educação também ia optar por isso.
Daqui por 1 ano provavelmente irá para o público se tiver vaga; se não tiver continuará.
Pago a mensalidade – elevada – por essa opção.
E não peço nada ao Estado por isso, embora quando não consegue suprir a procura o sistema público pudesse de algum modo compensar quem fica de fora.
Esse devia ser o espírito de quem opta pelo privado.
Quanto à gestão do privado que observo, no caso em apreço e em vários outros de gente que conheço, é a da exploração do trabalho de uma mão-de-obra que o próprio ME considera excessiva e que, por isso mesmo, prefere um lugar mal pago do que o desemprego.
E que, mesmo assim, dão o melhor que podem.
(In)felizmente é assim.
Quanto ao sector público, não tenha dúvidas: se fosse gerido de forma competente (nem laxista, nem mercantilista) poderia ser sempre uma óptima opção para os sectores mais sensíveis da prestação de serviços aos cidadãos. O problema é que ao nível da gestão de topo passa por lá muita gente que apenas anda a organizar a vidinha ou em trânsito para outros poisos.
Setembro 9, 2007 at 1:40 pm
DN de hoje:
Portugal alcançou o 25º lugar em cem países num ranking sobre liberdades educativas, segundo os resultados de um relatório internacional apresentado ontem à tarde num simpósio organizado pela Fundação Pro Dignitate, em Lisboa. A elaboração do relatório, que teve em conta vários factores esteve a cargo da Organização Direito à Educação e Liberdade de Ensino (OIDEL), uma organização sediada em Genebra que coopera com a UNESCO e o Conselho da Europa.
A tabela é liderada por países europeus – Dinamarca, Finlândia e Irlanda – enquanto que países como Cuba, Cambodja e Vietname figuram no final da lista. Quanto a Portugal, classificou-se à frente de países como França e Alemanha, ainda que tenha sido precedido por Espanha, Itália, Chile ou Israel.
Atendendo aos critérios considerados, Portugal alcançou 16 pontos em 20 possíveis sobre os critérios legislativos para permitir a criação de escolas por parte da sociedade civil, a mesma classificação alcançada pelo líder da tabela dos cem estados. Já no item da obrigatoriedade de financiamento estatal às escolas obteve 13 pontos, mas no critério do valor desse financiamento o saldo foi negativo, com oito pontos. Na qualidade do ensino somou 13 valores.
“A escolha da escola face à justiça social: Dilema ou Miragem?” foi o tema deste simpósio internacional que incidiu principalmente no assunto da liberdade na escolha da escola e da educação por parte dos responsáveis de educação.
Para o vice-presidente do Parlamento Europeu, Mario Mauro, que apresentou o documento, a liberdade educativa é um dos pilares para que haja uma democracia de qualidade. “Não há verdadeiramente democracia se não há liberdade educativa. A organização do sistema educativo deve responder às exigências de liberdade da sociedade”, afirmou Mario Mauro à agência Lusa. O vice-presidente do Parlamento Europeu frisou também a importância da liberdade educativa no combate ao fundamentalismo e relativismo que considera como os maiores perigos enfrentados pelo mundo.
No que respeita à educação praticada em casa, o presidente da OIDEL, Alfred Fernandez, disse que esta existe maioritariamente em países do Norte da Europa permitindo que as crianças aprendam em casa, mas tendo, ainda assim, de realizar exames. “Em grande parte dos casos são pais que não têm meios para pôr os filhos numa escola privada e que consideram que o ensino público não tem qualidade suficiente”, disse o presidente da OIDEL, justificando a escolha pela educação particular.
O relatório alertou para a necessidade dos Estados se abrirem mais à sociedade civil, existindo um maior número de escolas fundadas por entidades como Cooperativas de Ensino ou Ordens Religiosas. | LUSA
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Os seus dois últimos parágrafos são elucidativos das reservas mentais (conscientes ou inconscientes)que tem em relação ao sector privado e da superioridade moral (se assim lhe possso chamer) do sector publico.
Não posso deixar de repudiar (desculpe-me, mas é o termo) a forma como trata os que trabalham no sector privado, passando-lhes um atestado de menoridade (”prefere um lugar mal pago do que o desemprego.”) que só pode advir da eterna superioridade moral de tudo o que é público.
Imaginará quantos preferem um lugar mal pago no público a um melhor pago nouto sector, só para não terem responsabilidades perante ninguém?
Setembro 9, 2007 at 2:24 pm
Eu não repudio as suas afirmações, mas convidá-lo-ia a pensar de forma reflexiva, no mesmo assunto, inquirindo-se se não padece do pecadilho inverso ao que me acusa.

Porque eu escrevi sobre o que conheço de forma directa e não generalizei a todo o sector privado.
Não passei atestado de menoridade a ninguém, constatei factos que observo no meu quotidiano. Admito que observe situações adversas.
Não é por isso que acho que esteja a passar atestados de menoridade a ninguém. Aliás, se há coisa que detecto nos defensores da iniciativa privada na educação é a defesa de uma superioridade moral como base na defesa da “liberdade de escolha”, mas quando se lhes aponta a necessidade de levarem as consequ~encias do seu liberalismo até ao fim, hesitarem logo.
Quanto à acusação dos docentes do ensino público não prestarem contas a ninguém, acho que é um mito urbano/comunicacional útil para soundbytes na imprensa que, para alguém que está nisto há 20 anos, vale o que vale como manobra propagandística e tão só.
(e tenho dificuldade em apontar-lhe as notícias de professores agredidos como prova de um sistema de prestação de contas “a doer”, quantas vezes de forma injusta, no ensino público).
Quanto à notícia do DN, que prova mais clara de que toda a parafernália argumentativa dos defensores da “liberdade de escolha das famílias” não passa de uma “miragem”.
Leiamos de novo:
Portugal alcançou 16 pontos em 20 possíveis sobre os critérios legislativos para permitir a criação de escolas por parte da sociedade civil, a mesma classificação alcançada pelo líder da tabela dos cem estados. Já no item da obrigatoriedade de financiamento estatal às escolas obteve 13 pontos, mas no critério do valor desse financiamento o saldo foi negativo, com oito pontos.
O problema não está na possibilidade da sociedade civil oferecer educação, o problema está em obter dinheiro do Estado em troca disso.
Facto que eu já sei há muito tempo.
Setembro 9, 2007 at 3:22 pm
Tenho seguido com interesse o debate PG-JM.
Até agora pareceu-me equilibrado, embora o contra-argumento de PG relativamente à “prestação de contas” dos docentes na Escola Pública”, com o exemplo da violência parental sobre os docentes, se apresnte como o mais fraco argumento(?) de PG.
JM toca num ponto central da Escola Pública, para o qual não há evidentemente nenhuma resposta convincente, uma vez que o interesse dos pais nem sempre se situa em que os filhos aprendam realmente (para muitos é a “felicidade” o valor supremo, para outros é a permanência no espaço da escola, para outros ainda, é ir “passando” sem escrúpulos: ex. Guimarães); nem tão pouco existe o hábito de uma intervenção persistente e organizada das famílias no processo educativo.
Por isso, a “avaliação” tem seguido em velocidade de cruzeiro com piloto automático, isto é, têm sido os docentes a determinar, em última instância, o seu próprio desempenho.
Setembro 9, 2007 at 5:07 pm
“Eu não repudio as suas afirmações, mas convidá-lo-ia a pensar de forma reflexiva, no mesmo assunto, inquirindo-se se não padece do pecadilho inverso ao que me acusa.”
A prova que não é bem assim é o facto de ter reproduzido uma notícia do DN que tinha alguns trunfos a seu favor. Verdade ou não?
“Quanto à acusação dos docentes do ensino público não prestarem contas a ninguém, acho que é um mito urbano/comunicacional útil para soundbytes na imprensa que, para alguém que está nisto há 20 anos, vale o que vale como manobra propagandística e tão só.”
Alto lá! Não falei em docentes, e quando escrevi, dou-lhe a minha palavra de honra, que estava a pensar noutro tipo de funcionários públicos. Até lhe dou exemplos. Qualquer “auxiliar educativa” ganharia muito mais em qualquer actividade não pública do que ganha actualmente. Mas é sempre a eterna questão do pouquinho mas seguro e eterno. E isto explica em muito o eterno patinar do país.
De qualquer forma, e já que falou em docentes, convenhamos que também há alguns que… Felizmente que são uma minoria (a minha “superioridade moral” não entra por esses caminhos).
“Portugal alcançou 16 pontos em 20 possíveis sobre os critérios legislativos para permitir a criação de escolas por parte da sociedade civil, a mesma classificação alcançada pelo líder da tabela dos cem estados. Já no item da obrigatoriedade de financiamento estatal às escolas obteve 13 pontos, mas no critério do valor desse financiamento o saldo foi negativo, com oito pontos.”
Sobre isto, dou-lhe factos.
Na escola pública, a tendência é para as turmas terem cada vez menos alunos. Como professor, acho mil vezes bem. O ensino só tem a ganhar. Ambos sabemos, a diferença enorme que existe entre uma turma de 28 e outra abaixo dos 24.
No ensino contratualizado a tendência é a contrária. Por razões economicistas, o número de turmas não pode aumentar, como a pressão da procura é sufocante (porque será?) aumentem para 28 alunos a turmas, independentemente de se saber que a qualidade vai baixar.
Se calhar é por factos deste tipo que nas questões do financiamento a coisa deixa a desejar. (como me pagam o ordenado no fim de cada mês, nem questiono os atrasos nas transferências de verbas, isso é de outros pelouros que não o meu).
Provocatoriamente (não leve a mal) mesmo com 28 apresentamos em traços gerais melhores resultados. (repito, não leve a mal a provocaçãozita clubista).E sabe porquê? Por uma questão muito, muito simples. A nós, ninguém nos perdoa nada.
Setembro 9, 2007 at 5:16 pm
“(e tenho dificuldade em apontar-lhe as notícias de professores agredidos como prova de um sistema de prestação de contas “a doer”, quantas vezes de forma injusta, no ensino público).”
Curvo-me perante todos os colegas mal tratados. Dou por vezes comigo a pensar como reagiria numa situação dessas. Se calhar faria alguma, que me levaria ao “banco dos réus” dos telejornais das nossa queridas televisões.Quanto ao facto das razões estarem “como prova de um sistema de prestação de contas “a doer”,” sabe tão bem como eu que isso não correspode completamente á verdade. Mal por mal, antes fosse…
Setembro 9, 2007 at 7:11 pm
Há instruções para que aas turmas no publico tenham este ano 28 alunos….
Setembro 9, 2007 at 7:47 pm
H5N1 e jm, aquela do “a doer” era obviamente uma provocação.
Quanto à experiência que tenho do privado – curta como docente, longa como observador, média como utente – diria que não é possível estabelecer uma comparação verdadeiramente objectiva entre os dois sectores.
Só se me colocarem duas escolas (uma de cada género) com populações estudantis com um perfil sociológico semelhante.
Os rankings abrem com uma maioria de escolas privadas e fecham com uma maioria de escolas privadas. Pelo meio fica a grande massa da escola pública e, por estranho que possa parecer, acho isto normal.
Acho estranho é que escolas públicas que levam 1000 alunos a exame consigam estar próximas de colégios privados que levam 50 ou 100.
Mas vou fazer-lhe um balanço do que acho serem alguns pontos positivos no sector privado da educação (por cero existirão mais):
1) Espírito de corpo nas instituições de topo que cuidam da sua identidade e imagem.
2) Capacidade, em virtude da forma de recrutamento do corpo docente, de criarem equipas homogéneas em termos de projecto pedagógico.
3) Manutenção de velhos hábitos de trabalho e de disciplina.
4) Famílias dos alunos mais envolvidas na sua vida escolar e no seu sucesso, pois pagam para isso.
Como pontos negativos cingir-me-ei a citá-lo, pois o que afirma tem naturais consequências, de acordo com muito dos meus argumentos sobre o funcionamento de muitas escolas privadas:
No ensino contratualizado a tendência é a contrária. Por razões economicistas, o número de turmas não pode aumentar, como a pressão da procura é sufocante (porque será?) aumentem para 28 alunos a turmas, independentemente de se saber que a qualidade vai baixar.
Isto é uma evidência.
No infantário onte tenho a minha miúda, o ano passado eram “só” 28 crianças numa sala, pois esse era o limite. E por vezes ainda aparecia um 29º ou um 30º ocasional. Inquirida a directora, pareceu achar natural, mas só até ao momento em que lhe perguntei se achava mesmo a sério que era assim que “dava nome” ao colégio.
Este ano são “só” 26.
Na escola pública onde lecciono, fruto de ser TEIP, tenho turmas entre 18 e 22 alunos.
O ano passado com uma turma de currículos alternativos consegui resultados acima da média nacional em termos de sucesso nas provas de aferição de LP, porque eram apenas 10.
Se a escola fosse dirigida pelo princípio do lucro a turma não poderia existir.
Aliás, aqueles miúdos nem lá andariam, a menos que fosse num qualquer externato com aulas dadas a metro e com uma disparidade brutal entre os resultados da avaliação interna e externa.
Por fim – por agora – apenas um detalhe a partir dos seus dados: se a procura do nsino privado chega a ser “sufocante” para que precisam do apoio do Estado?
Agora mesmo para finalizar este comentário lhe direi que o maior problema das escolas públicas resulta de um processo de degradação da posição do professor, desautorizado em questões como a avaliação e a disciplina, o que não se passa no sector privado, onde os docentes poderão ter de prestar contas, mas em que a sua posição não é facilmente negociável na sala de aula.
No ensino público, quem não tem casca grossa e segurança do que faz está sempre sujeito a chantagens, por muito bom trabalho que faça.
No bom ensino privado isso não se passa.
Setembro 9, 2007 at 7:52 pm
Por isso, a “avaliação” tem seguido em velocidade de cruzeiro com piloto automático, isto é, têm sido os docentes a determinar, em última instância, o seu próprio desempenho.
H5N1, a culpa da não regulamentação da avaliação no anterior ECD é responsabilidade de quem?
Se alguém quisesse requerer um Muito Bom não tinha a possibilidade de o fazer.
E se a ideia era premiar os que se destacavam isso inviabilizava tudo.
Mas eu volto à minha. Não é o sistema que nos foi imposto que vai melhorar nada. A partir de agora, muitos dos “chefes” vão ser dos menos capacitados para o ser e vão sê-lo porque foram empurrados.
Os casos concretos são tantos, tantos.
Setembro 9, 2007 at 10:13 pm
“Por fim – por agora – apenas um detalhe a partir dos seus dados: se a procura do ensino privado chega a ser “sufocante” para que precisam do apoio do Estado?”
Isto já parece um diálogo de surdos. Ando eu aqui a defender o privado contratualizado, aquele que existe por aí em pequena escala, e o Paulo a introduzir constantemente o privado das mensalidades.
Vamos lá ver se nos entendemos. Digo, repito, reafirmo, provo, que se oferecer aos alunos e aos pais um ensino à borla eles optam na sua maioria pelo privado. Nos sítios onde isso acontece, hoje, a procura é sufocante. E é nesse ensino, que funciona com TODOS os alunos de TODOS os estratos sociais, TODOS, que a procura excede em larga escala a oferta. E o curioso, e tenho largas dezenas de exemplos, em cada ano, é que os encarregados de educação que são professores na escola pública são os primeiros a lá pôr os filhos.Falo do ensino básico e do secundário. Esta é uma verdade incontornável, e só não apresento nomes, vários, porque neste país até as paredes têm ouvidos.
Setembro 10, 2007 at 8:21 am
Pronto, não percebi bem qual era a sua defesa.
É a de algum privado.
Essa parte é que me deixa um bocado “estranho”.
Explique-me lá onde é que essa oferta existe, que é para eu ser um desses professores a ir a correr meter lá minha miúda.
É que eu olho em redor e acabo por concluir que o outro é que tinha razão: isto aqui é um deserto.
Setembro 10, 2007 at 1:28 pm
Ponto de ordem à mesa!
Os pais não optam pelo privado nem pelo público “a priori”, mas sim pela escola que lhes der garantias de (consoante os casos):
a) ficarem mais tempo com os seus filhos
b) darem menos incómodos na deslocação dos mesmos
c) zelarem pela segurança e a “felicidade” dos rebentos
d) oferecerem uma qualidade de ensino, em termos de aprendizagens e saberes académicos, acima da média
e) representarem um determinado estatuto social face aos vizinhos e amigos
f) serem comportáveis em termos de disponibilidade financeira
g) outros
Só na conjugação destes diferentes factores, é possível estabelecer uma lógica para as “famílias”, o que na realidade não traduz nenhum padrão universal, já que como vários estudos o demonstraram, não existe uma família “tipo”, antes várias racionalidades em função da cultura e dos objectivos individuais de cada uma.
Por isso, falar das vantagens do Público ou do Privado, em abstracto, parece-me um jogo viciado à partida e que não traduz nenhuma realidade objectiva, mas antes uma visão parcial do mundo que fundamenta as convicções e as decisões dos sujeitos.
Setembro 10, 2007 at 9:44 pm
h5n1
Penso que 90% ou mais das opções feitas pelos pais não têm qualquer tipo de preconceito privado/publico. Curiosamente no meu caso todos os meus três filhos usaram as duas situações, consoante as características de cada um deles e as idades. Penso que as alíneas d, f e g serão aquelas que mais peso têm. A alínea a só é importante nas idades mais novas.
Penso que não advoguei qualquer supremacia congénita do privado, apontei casos verdadeiramente calamitosos de escolas privadas defendendo até o seu fecho.
Agora, o que vejo sempre, é a defesa da escola pública contra tudo e contra todos, como se não existissem outras soluções. Quando a escola pública falha, e se tem falhado ao longo dos últimos 25 anos, a culpa nunca é dela e dos seus profissionais, mas sempre de um qualquer ministro, seja ele qual for, tenha ele a cor politica que tiver.
Numa outra caixa de comentários deste mesmo blogue, tive oportunidade de transcrever um comunicado de um qualquer sindicato sobre o tal colégio da Covilhã, e toda a argumentação usada é de uma arrogância e de um preconceito a toda a prova.
Neste tipo de problemática, qualquer professor que não leccione numa escola pública, sente-se sempre como um cidadão de 2ª e um professional de 3ª. Cidadão de 2ª, porque contraria um dogma politico/constitucional politicamente correcto, professional de 3ª, porque para além de leccionar em escolas onde se praticam as maiores patifarias ainda se deixam explorar, como de escravos se tratassem.
Procurei sempre ao logo desta amigável discussão, não apresentar exemplos localizados de situações anómalas, que acontecem em todo o lado e em especial no sector que é mais numeroso, citei apenas alguns exemplos que foram amplamente divulgados pelos meios de comunicação.
Resta-nos, a mim e a alguns milhares, a consolação que as avaliações externas (porque será que é tão mal tratada pelos outros?) nos vão dando algumas alegrias que nos alimentam o ego, e que por outro lado provam que os pais dos nossos alunos não podem ser tomados como idiotas quando nos preferem.
Aonde verdadeiramente reconheço a supremacia da escola pública é na forma como se autoavalia. Aqui sim, penso que atinge patamares que só estão ao alcance dos eleitos.
Setembro 11, 2007 at 7:31 am
A “Escola Pública” é um conceito iluminista/jacobino, que faz da Educação uma extensão do Estado. Começou com o Marquês de Pombal quando substituíu os jesuítas pelos professores régios e, a partir daí, o ensino em portugal passou a ser propriedade monopolista do estado, entregue aos terapeutas e especialistas do pastoreio.
Os cidadãos, por sua vez, sempre olharam para o estado como uma vaca sagrada, onde cada corporação, sindicato, partido e empresa, se agarra com todas as forças, gerando uma rede e um tráfico de influências, que chegou até aos nossos dias.
Eu trabalho no Sector semi-público (cooperativo) e também sinto na pele, muitas vezes, a arrogância e ignorância dos agentes educativos que trabalham directamente sob a dependência do estado e que nos consideram como parasitas (com destaque para os sindicatos).
Por isso percebo muito bem o JM.
Setembro 11, 2007 at 9:38 am
Uso neste momento o sistema privado pelas razões que o H5N1 identifica nas alíneas b) e c) (ênfase na segurança e porque não na felicidade sem aspas).
Quanto à alínea d) ainda haverá muito a fazer e a melhorar, mas a instituição ainda é nova.
A alínea f) vai-se aguentando.
Quanto à análise da dicotomia público/privado, mesmo em abstracto, faz todo o sentido em termos dos modelos propostos de funcionamento, financiamento, de organização das aprendizagens, etc, etc.
Porque, queiramos ou não o ensino público – que para mim não tem, em abstracto, nenhuma vantagem moral, embora depois as encontre em muitos casos concretos (mas existe o vice-versa também) – tem traços distintos do privado, ou pelo mnenos de algum privado que se organiza em alternativa ao do Estado não apenas por questões de “qualidade” mas principalmente por questões de “afinidades”, sejam as de ostentação de estatuto (não é por acaso que os “uniformes” mudaram completamente de simbolismo), seja por questões de homogeneidade ideológica.
No concreto a oposição pode perder-se na exposição de casos individuais que provam cada uma das teses que se defendam e acaba por, a menos que se faça uma extensa análise quantitativa, nos deixar mais irredutíveis em cada trincheira.
Eu pertenço aos defensores da Escola Pública que recorreu ao sistema privado porque aquela não existia onde eu vivo mas qu, logo que possível, retornarei à Escola Pública que me (de)formou e a qual frequentei no seu período mais crítico e caótico. Por isso mesmo não vivi numa redoma e passei por muitas situações arriscadas para a minha integridade física e mental.
Felizmente, a minha filha já poderá- 30 anos depois – beneficiar de uma escola Pública bem menos confusa.
Setembro 11, 2007 at 10:26 am
Penso que todos estaremos de acordo, com excepção dos fundamentalistas, em que a diversidade de modelos e a possibilidade de escolha serão o melhor meio de garantir a liberdade de pensamento e o desenvolvimento de personalidades mais ricas e variadas.
Mas por vezes esta perspectiva liberal e darwinista choca-se com a tentação uniformizadora e igualitarista dos adoradores do Estado.
Alem disso, nada nos garante que num futuro próximo, a “Escola Pública” não se mercantilize e se transforme numa imenso parque zoológico de zombies consumistas.
Setembro 11, 2007 at 12:26 pm
Os defensores do ensino privado fariam melhor em tentar destacar-se pela qualidade – usando os meios financeiros que os seus clientes estão dispostos a proporcionar-lhes – que em carpir os seus desgostos sobre o ensino público e invejar-lhe o financiamento do Estado – altura em que perdem toda a razão. Se a liberdade dos cidadãos é tão fortemente condicionada pelo sistema público do ensino como afirmam, sempre poderão concorrer às eleições com um programa que estabeleça claramente a eliminação do todo o apoio financeiro do Estado às escolas.
Setembro 11, 2007 at 1:30 pm
Se o Estado financia estádios de futebol e favorece clubes privados que só querem lucros, porque é que não poderá financiar escolas privadas para educar e formar cidadãos portugueses ?
Nunca constatei nenhum protesto indignado e organizado contra o Euro 2004, que até foi considerado “Desígnio Nacional”. Porque será ?
Setembro 11, 2007 at 1:51 pm
Eu cá protestei, em privado.
E hoje até protesto de novo porque o meu SCP ficou entalado com aa situação na CML e a promessa de loteamento para financiamento do estádio.
Agora é um protocolo, um tribunal arbitral e sei lá que mais.
O Estado financiou mal os estádios, os clubes enterraram-se quase todos e só ganharam os senhores do sector da construção, as estatísticas do desemprego durante um par de anos e o recrutamento do trabalho pouco qualificado dos imigrantes africanos e de Leste.
Setembro 12, 2007 at 11:48 am
Focando os aspectos políticos e financeiros
Segundo a Constituição, existe o direito à educação.
Para nós é óbvio que a educação privada não consegue proporcionar este direito à população toda. Proporciona apenas à gente mais abastada, e ainda chupando o dinheiro, na forma de subsídios, que devia ser usado no ensino público.
A educação pública na forma como se encontra implementada é apenas um faz-de-conta que mal consegue ensinar 1 em cada 10 alunos que entram. O que falta? Já dissemos.
Outubro 6, 2007 at 4:16 pm
Ei… perdi esta discussão.
O bom ensino privado:
http://www.ribadouro.com/documentos.php?id=000003
http://www.cdduarte.pt/documentos.php?id=000003
http://fersap.no.sapo.pt/04/externato.html
aqui os alunos entram com 14 e saem com 20!
Na cidade do Porto estes estão em maioria.
O primeiro é propriedade de um professor recentemente aposentado do ensino público, militante do PSD, e director regional adjunto de educação do norte entre 2002 e 2005.
Outubro 6, 2007 at 5:51 pm
Se há coisa que eu gosto é dos professores-burocratas que vivem no ensino público, mas que depois é no privado que demonstram todas as suas capacidades.
Outubro 7, 2007 at 5:36 pm
Reparaste no n.º de turmas no secundário destes fabulosos colégios?
no 5.º anos tem 1 turma com 20 alunos, no 12.º 11 com 28 alunos.
Onde está a Margarida Moreira?
E a IGE?
Outubro 7, 2007 at 5:50 pm
Nestas condições claro que o sucesso educativo só não é possível se um tipo for mesmo incompetente.
E depois nos rankings, upa-upa.
Outubro 7, 2007 at 6:25 pm
Na diferenca entre as classificações internas e externas um deles está na posição 570.
http://clix.guiadoestudante.pt/web/default/ranking/comparacao.asp
David Justino escreveu:
“Uma última palavra para comentar os diferenciais entre as classificações internas e as de exame. A regra de as escolas com médias mais baixas tenderem a inflacionar as classificações volta a confirmar-se (geralmente não se resiste à benevolência com os alunos mais fracos), mas mais uma vez detectam-se alguns estabelecimentos privados que abusam do favorecimento das classificações internas dos seus alunos. Entre as dez escolas que apresentam maior diferencial entre as classificações interna e externa, 7 são privadas.”
http://clix.guiadoestudante.pt/web/default/ranking/artigo33.asp