Para quem quiser conhecer o pacote de 10 novidades, as mesmas já estão disponíveis no Portal do Governo num sistema visual bastante irritante.
Não deixa de ser curioso que logo na página 3 surja o argumento do aumento do número de alunos, que ainda há pouco MLR contradizia em parte das suas declarações.
Mas concentremo-nos nas novidades:
- Mais apoios para os alunos do secundário – sendo uma boa notícia, está longe de constituir um novidade, mas sim o alargamento da base de incidência de um mecanismo já existente e que nos últimos anos sofreu uma contracção significativa.
- Acesso a bolsas de mérito a mais alunos – o que vale para a novidade acima vale para esta, pois as bolsas já existiam, eram é quase sempre negadas aos candidatos, com esta ou aquela razão.
- Subsídios de transporte – outra falsa “novidade”, pois volta a constituir a extensão de uma medida já existente e que no âmbito de cursos de tipo profissional antes existentes com o apoio do PRODEP era comum.
- Apoio à família – esta novidade, então como está formulada (p. 8 do documento) ganha contornos risíveis, pois não passa de uma declaração de intenções, sem qualquer especificação de medidas concretas.
- Estabilização do corpo docente – esta é mesmo para gozar com a malta. Porque das duas, três: ou é algo falso ou então foi falso tudo o que foi dito nos anos anteriores sobre essa mesma estabilização. Chega de malabarismos retóricos: lançar 10.000 docentes para fora do ensino em dois anos, ter este ano 4.000 docentes de QZP ainda sem colocação e ter obrigado várias centenas de professores dos Quadros de Escola a mudar de colocação é estabilizar o corpo docente?
- Professores-titulares – assim, sem grandes explicações, afirma-se que passaram a existir professores-tituilares nas escolas. É realmente uma novidade, a primeira nesta lista. Indesejada pela larga maioria dos docentes e sem quaisquer reflexos particulares na vivência dos alunos.
- Celebração de contratos de autonomia – isto também é uma novidade ou a continuação de uma política definida há cerca de uma década, mesmo se pouco usada por desinteresse das escolas e renit~encia da tutela?
- Manuais do secundário na convenção de preços – aquela convenção que permite aumentos acima da inflacção nos próximos anos e que prolonga o seu período de vigência de acordo com a pressão das editoras, que assim se limitam a reimprimir mais anos os manuais antes concebidos, reduzindo bastante os custos de produção? Pode ser que seja uma novidade, mas…
- Reutilização de manuais – mas os manuais já não tinham cadernos de exercícios em separado? A reutilização já não era possível? E será que acham que a resolução de exercícios era a única razão que inviabilizava a reutilização dos manuais? E os alunos deixarão automaticamente de sugblinhar e destacar conteúdos dos manuais, para não falar em outras decorações mais sugestivas. E em que moldes será feita essa reutilização?
- Aumento de apoios para a aquisição de manuais – ultrapassando o detalhe desta novidade contrariar algumas das anteriores, sublinha-se que, como várias outras, não é nada de novo, apenas mais do que já existe. Mais é sempre melhor do que menos, mas não conta como novidade.
Dito isto, verifica-se que novidades propriamente ditas serão duas: a existência de professores-titulares e o aumento do tempo de vigência dos manuais adoptados.
Se isto é tudo o que o ME tem para oferecer neste início de ano lectivo, então a coisa parece-me bastante pífia, como aquele famoso fogo de artifício no Tejo que acabou por ser mais fraquinho do que o foguetório de uma festa de aldeia.
E quando ao nível ministerial parece não se dominar o conceito de novidade ou operações de aritmética básica, estão explicados os problemas de literacia e numeracia do país.

Setembro 3, 2007 at 5:37 pm
Um rato pariu uma montanha.
Setembro 3, 2007 at 7:19 pm
oopsss… um rato? A lerdice é contagiosa: refiro-me à fêmea do dito cujo
Setembro 3, 2007 at 7:47 pm
Ou foi a montanha que pariu um rato?
Setembro 3, 2007 at 9:09 pm
O aspecto mais saliente de todas as novidades é, para mim, a falta de quantificação (questão numerológica). Poder-se-ía aquilatar do êxito das medidas se fossem indicados quantos alunos, por exemplo, beneficiam hoje de bolsas de estudo, e qual o número que o governo se compromete a englobar nesta medida no final do período (datar e quantificar são as pedras de toque da gestão).
Como nem sequer esclarece o número de bolsistas actuais, está aberta a porta para que se possa dizer mais tarde que o número de alunos foi alargado, ainda que na prática possa ter acontecido o contrário.
Muitas vezes se invocou nestas discussões que um ministro não necessita ser especialista na área da pasta que ocupa. Perdão, pode não ser especialista nessa área, mas, se não tiver conhecimentos básicos de gestão, então sou eu que começo a não entender patavina para que raio serve senão para estragar aquilo que já foi construido.
Setembro 3, 2007 at 9:22 pm
Novidade… novidade… só mesmo a citação do teu blogue naquele programa da Antena 1, do Pedro Rolo Duarte, que recomenda blogues!
Parabéns!
Verificar aqui:
http://multimedia.rtp.pt/index.php?pod=1
Setembro 3, 2007 at 10:08 pm
Ena eu… quero já o podcast disso.
Setembro 3, 2007 at 10:11 pm
As «novidadedes» trouxeram-me à memória um clássico do cinema italiano em que se afirma: «é preciso que as coisas mudem para que tudo fique na mesma»…
Setembro 3, 2007 at 10:15 pm
Falta a 11ª medida: Vejam como pomos os professores na ordem. Com menos fazemos mais e pagamos muito menos.
E aqui está o que diz o A. Ferrão: “Muitas vezes se invocou nestas discussões que um ministro não necessita ser especialista na área da pasta que ocupa. Perdão, pode não ser especialista nessa área, mas, se não tiver conhecimentos básicos de gestão, então sou eu que começo a não entender patavina para que raio serve senão para estragar aquilo que já foi construido.”
Exactamente António Ferrão: ESTRAGAR.
Setembro 10, 2007 at 11:53 pm
[...] leitura crítica em Educar [...]