Ao longo de uns bons anos em qualquer carreira, em especial quando ela entronca numa determinada área de formação, temos tendência para uma certa endogamia no plano das amizades e relações pessoais.
No caso dos professores existe de igual modo a endogamia propriamente dita, pelo que em férias, feriados e outros dias santos não é raro que se juntem grupos mais ou menos alargados nos quais o(a)s professore(a)s e educadore(a)s são a larga maioria e onde as conversas acabam por varejar em torno do nosso quotidiano, respectivos dilemas, ocasionais satisfações e perspectivas de futuro.
Nestes casos, os grupos minoritários são por via de regra abafados ou até se inibem de participar de forma muito activa em algumas conversas. Pelo que não é raro que fiquemos a discutir em circuito fechado, o que se é bom pela troca de experiências, pode ser menos positivo porque não faz essa troca com o exterior da profissão.
Mas quando os grupos são menores, ou a distribuição profissional diversa, as conversas seguem outros rumos ou então assumem tons diferentes, sendo possível perceber como parte do mundo circundante encara os docentes, a sua situação profissional e a imagem que fazem do seu conjunto.
Pela minha experiência, que nem é extremamente alargada e cada vez o é menos pelos motivos acima descritos, existem duas principais tendências entre os elementos dos grupos profissionais que têm qualificações académicas equiparadas às dos docentes.
Ressalvando sempre que o nosso caso particular – porque eu ou nós, claro, sou(somos) amigo(s) deles e por isso sou (somos) excepção(ões) à regra – os docentes são vistos quase sempre das seguintes formas:
- Como profissionais abnegados e que fazem o que podem dadas as circunstâncias, pelo que até temos valor, mas que, afinal, acabamos por ser uns coitados nas mãos do sistema, dos alunos e do ministério. Pelo que, embora dignos de respeito e consideração, não deixamos de ser igualmente merecedores de uma atitude de pena generalizada.
- Ou como uns desajeitados, uma espécie de idiotas úteis que foram para professores por não saberem fazer outra coisa e por terem optado pela solução fácil, ao não enveredarem por outras profissões de maior prestígio e exigência. Esta é normalmente a posição daqueles que acrecentam que dar aulas qualquer um dá, mas que no caso do autor do discurso isso não se aplica porque, embora sendo fácil, ele(a) nunca teria paciência para aturar isso, sendo “isso” as aulas e os alunos.
Não vou dizer que estas imagens são completamente erróneas e que não se aplicam, com maior ou menor fidelidade, a uma parte da classe docente. Parte essa que eu não possuo estudos sociológicos ou outros para quantificar de forma exacta. Resta-me o olhómetro que me indica que são imagens redutoras, simplificadoras e, nem sequer no limite, desprestigiantes para a classe docentes.
Porque ou somos coitadinhos – e nesse aspecto confesso as minhas e nossas culpas – ou somos uma espécie de idiotas comodistas, sem qualquer tipo de competência que não a adesão a rotinas.
Claro que a tutela no último par de anos ainda fez os possíveis por acrescentar a estas imagens mais alguns pózinhos de incompetência, absentismo e anquilosamento.
E isto é injusto porque em quase 150.000 profissionais certamente há um pouco de tudo, mas também existe muito mais. E é esse mais que nunca ninguém parece preocupado em destacar, a começar por aqueles que deveriam ter todo o interesse em reconhecer o que os docentes fazem de bem, na docência e para além dela. Porque há docentes que – apesar de todas as limitações que lhes são impostas – fazem outras coisas e são bons ou mesmo excelentes nisso, desde os que combinam a docência com outras actividades profissionais (músicos, treinadores desportivos, escritores, pintores) aos que apenas a complementam com o desenvolvimento de gostos pessoais mais ou menos relacionados com a sua área de interesses ou formação (investigação, poesia, novamente a pintura, a música), passando pelos que se envolvem em actividades da chamada sociedade civil como o associativismo, a assistência social, etc, etc.
Na comunicação social o professor ou é o desgraçado que levou pancada do encarregado de educação, ou o faltista-mor que deixa os alunos à chuva para ficar em casa sem fazer nenhum. Temos ainda os que surgem no retrato a estender a mão aos governantes em dia de visita oficial ou os que aparecem a gritar pela 5 de Outubro ou pela Rua de São Bento acima e abaixo nas romarias anuais de protesto.
Raramente os professores, em especial os do ensino não-superior, são mais do que estereótipos como a loura americana burra do vídeo de uns posts abaixo.
E com o tempo estas imagens cristalizam-se no imaginário comum e acabam por afastar da docência, logo na escolha que dita o futuro profissional, mesmo os que sentem inclinação, vocação ou gosto por essa actividade, mas cada vez a encontram mais enxovalhada e desprestigiada aos olhos de todos.
E isso é um mal que se faz principalmente a toda a nossa Educação, visto que individualmente já quase todos nós aprendemos a lidar com a situação e a resistir aos olhares e observações zombeteiras com maior ou menor facilidade.
Só que a médio e longo prazo a opção por desqualificar os docentes, cortar-lhes perante todos as aspirações de progressão profissional e desprestigiar simbolicamentea função é apenas avançar para o abismo.
Agosto 29, 2007 at 2:57 pm
O mito constrói-se sempre com base na linguagem partilhada pela comunidade.
Isto é, se os docentes são vistos de UMA DETERMINADA MANEIRA, é porque não existe nenhuma outra forma de percepção dessa realidade que se imponha à opinião pública.
Então cabe fazer a pergunta: porquê?
Será porque quem REPRESENTA os professores, aparece sempre no papel de vítima, sem outra reivindicação que não seja a manutenção de um estatuto profissional, invejável, diga-se, para a maioria dos restantes trabalhadores, principalmente do privado ?
Será porque a publicidade dos desgraçados com doenças terminais, das agressões sofidas e dos vídeos com docentes impotentes perante os alunos, fazer um apelo implícito, precisamente, a esse tipo de representação ?
Quem confiou a sua imagem, nos últimos 33 anos, a empresas sindicais que formataram a representação dos docentes perante a opinião pública e, quem não cuidou de salvaguardar as condições de exercício real da profissão nas escolas, está a pagar o preço da alienação da sua identidade nas mãos de burocratas incompetentes e arrogantes.
(Faz lembrar um pouco a irritação dos McCann com os media, quando foram precisamente eles que os alimentaram e incentivaram este tempo todo)
É certo que o processo é complexo e não se podem assacar as culpas em exclusivo aos sindicatos. Mas não restam muitas dúvidas de que eles são uma peça fulcral em todo este desenvolvimento histórico que conduziu a uma acentuada perda de autoridade e integridade. Porquê?
Porque na sua ânsia de conduzirem uma política educativa para a “Escola Pública”, esqueceram-se de reflectir, de perceber o que estava em jogo, de discutir com os agentes centrais do processo, os professores, e representá-los em termos de PROFISSIONAIS CONCRETOS E HUMANOS COM PROBLEMAS ESPECÍFICOS NA ÁREA DAS RELAÇÕES SOCIAIS E PEDAGÓGICAS, tão preocupados que estavam em defender a “classe” e em capturar o ME.
O discurso abstracto e oitocentista que formata os neurónios dos burocratas, não concebe que a Escola não é uma ilha isolada do resto do mundo (uma espécie de reserva ecológica de funcionários do Estado ao tempo do salazarismo), não entende que a “escola pública” que “promove a igualdade” e “combate as assimetrias sociais” tem contribuído precisamente para o seu contrário em portugal e que as suas receitas são pura especulação ideológica sem qualquer consistência, como os últimos 33 anos o têm demonstrado (em portugal as assimetrias entre os mais ricos e mais pobres têm aumentado, ao contrário da maioria da Europa).
Será que existe algum discurso organizado, por parte dos docentes, que conteste este estado de coisas ? Parece-me que para além dos Blogs, e mesmo assim em número reduzido, não se dá por ele. Então como será possível fazer passar OUTRA representação dos docentes ????
Agosto 29, 2007 at 4:35 pm
Boa pergunta.
As associações profissionais, fragmentadas por disciplinas, são raramente operantes, a menos que seja quando entram em choque com o Ministério.
A questão relaciona-se directamente com as dúvidas quanto ao rumo a seguir pelo sindicalismo.
Assim como com aquele órgão que o ME instituiu para servir formalmente como “represnetativo das Escolas”.
Sem uma Ordem dos Professores a sério – com protagonistas que não estejam lá só por vaidade – que regule os aspectos éticos e deontológicos da profissão, é difícil.
Mas quer a estrutura já existente de uma Pró-Ordem, quer qualquer outra, será objecto fácilç do ataque concertado da tutela e dos sindicatos.
Agosto 29, 2007 at 5:27 pm
Não entendi o sentido do termo “invejável”, avançado pelo h5n1.
Pelo que vejo das outras “Ordens”, parece-me que não será por aí o caminho, como propõe o Paulo.
A escola sempre foi um parente pobre por esse mundo fora, com raríssimas excepções de países que perceberam há muito que é importante investir nela.
Num sector que não dá mais-valia a curto prazo, nunca lhe foi dada a atenção devida. Não houve um rumo. Esta também é uma das razões que levaram à corrosão da imagem da escola e dos professores.
Erraram sindicatos, mas acima de tudo erraram as políticas de educação e o país.
Agora dão-se pulos de gigante para o futuro, com e-escolas, Planos Tecnológicos, quadros interactivos e outros tics.
Será que é desta?
Não me parece.Porque, em última análise, com profissionais desmotivados torna-se tudo muito mais complicado. E o pessoal desconfia….
Agosto 29, 2007 at 5:29 pm
Esta conversa toda, a pretexto do assunto sério que a originou, redunda na descoberta de um bode expiatório chamado sindicatos e sindicalismo, ou melhor, sindicalistas malandros que em vez de discutirem a docência suas condições físicas e metafísicas, burocratizaram-se, olharam somente para o seu umbigo e por isso, tacharam-se, contribuindo dessa forma para o actual descalabro em que o ensino e os seus mais directos agentes, professores(as), se encontram . Seria (!!!) esse o objectivo pretendido?! Não quero acreditar nisso, mas acredito que aos nossos políticos lhes falta muita educação, interesse a menos na coisa educativa e a mais na coisa financeira para proveito próprio. Interesse a mais em si próprio e a menos na Nação. Quem os ensinou a ler, escrever e contar?! Com gente reconhecida e agradecida como os políticos que temos, estamos falados. Educar o povo não é tarefa fácil… E a ironia das ironias é que muitos desses políticos até são professores, ou pelo menos disso fazem menção no seu curriculum vitae…
Acredito que o sindicalismo, os sindicatos e os sindicalistas precisam de se renovar, discutindo, reflectindo, redefinindo estratégias e modus operandi e até precisam de fazer a integração europeia que o país está a fazer, mas sem subsídios, sem subserviências e sem expiações, embora admita a necessidade da catarse como meio para alcançar frescura e clarividência. Assim, a bater no ceguinho, acho que não vamos lá, ou seja não é o melhor caminho.
Perguntar-me-ão: Então qual é o melhor caminho? Responderei: A Ordem? Não sei. Sei é que a bater no ceguinho só ajudamos quem tudo faz para que o ceguinho não tenha possibilidades de endireitar a vida nem sequer de poder sonhar que é possível voltar a ver.
Agosto 29, 2007 at 5:48 pm
Pessoal:
Há uma pequenina coisa que todos se esquecem a propósito da “Ordem”. É que a ordem como instituição só pode existir para aqueles que são de uma profissão liberal, isto é, que trabalhe por conta própria.
O professorado (retirando os que vivem da explicações ou casos semelhantemente parecidos) é trabalhador por conta de outrém! Por isso só os sindicatos os podem representar e ser representados por eles. Pode existir ordem e sindicatos do mesmo ramo (vejam-se os médicos), pois os seus profissionais podem trabalhar nas duas áreas, mas para o professorado vejo a coisa muito complicada!
Há sim, que repensar, reorganizar, reprogramar e, sobretudo, reindependitizar (inventei esta agora) os sindicatos.
Isso sim, é urgente e necessário!!
Agosto 29, 2007 at 5:51 pm
Concordo com o comentário anterior (Flori).
E já agora, uma muito politicamente incorrecta: os salários dos professores!
As estatísticas que nos últimos anos foram saíndo repetiam até à exaustão que os professores ganhavam muito, trabalhavam menos horas que os outros professores europeus e tinham mais férias. Mentira!
Isto de lutar contra a propaganda é muito complicado. Os mitos demoram a ser desmascarados e muitos professores até interiorizaram estas ideias.
Uma colega costuma dizer: Não é bonito protestar que ganhamos mal e não temos as condições de trabalho necessárias porque todos os dias mais pessoas caem no desemprego.
Eu costumo responder que vou deixar de dar de comer aos meus filhos porque em África se passa fome todos os dias.
Agosto 29, 2007 at 6:04 pm
FTrindade, os médicos do SNS não pertencem à respectiva ordem?
E os advogados dos serviços públlicos?
E os famosos “engenheiros”?
Quanto ao sindicalismo, não é o bode expiatório de nada, mas sabemos que não são os mais inocents nisto tudo, por muito boa vontade e sinceridade que muita gente que os compõe tenha.
Agosto 29, 2007 at 6:05 pm
Fernanda,
Concordo em absoluto que a eventual má paga não pode justificar qualquer menor empenho da nossa parte.
Porque somos pagos pelo ME mas trabalhamos em primeira e última instância para os alunos.
Agosto 29, 2007 at 6:13 pm
Não entendi bem o que o Paulo disse.
Mas quero a este propósito acrescentar que o facto de sermos mal pagos não significa menor empenho da nossa parte. Até porque, precisamente, temos alunos à nossa frente todos os dias e tal facto basta para nos empenharmos e fazermos o melhor que sabemos, apesar de tudo.
É que eles sabem bem quando nos empenhamos e gostamos do que fazemos, ou não.
Agosto 29, 2007 at 6:24 pm
Eu explico-me melhor (tinha a miúda ao colo a protestar que queria ser ela a escrever e saiu-me assim para o apressado):
Nós somos pagos pelo ME mas prestamos um serviço aos alunos pelo que se há que fazer um protesto, não deverá ser prejudicando quem não tem culpa de nada, pelo menos no que respeita a diferendos laborais.
Mas que não se extraia daqui a conclusão que estou contra o exercício da greve.
Agosto 29, 2007 at 6:38 pm
Há algo de pungente, mas ao mesmo tempo de desesperado, na tentativa de continuar a apostar nos sindicatos como órgãos democráticos e representativos dos docentes.
Tal como Arendt dizia que um ex-comunista não deixava de o ser, mas tão só se transformava num comunista de cabeça para baixo (certamente em analogia com a crítica de Marx a Hegel), assim também um sindicato, por mais mudanças que sofra, continuará sempre a ser um instrumento de integração do trabalho assalariado no mercado capitalista.
Para se construir uma IDENTIDADE PRÓPRIA, que escape ao sistema oligárquico reinante nos sindicatos e no ME, os docentes terão de retomar a palavra, nos seus próprios termos, nos seus próprios espaços, no seu seio.
Terão de se assumir como seres humanos autónomos e pensantes, responsáveis pelo que acontece nas escolas, e não como meras vítimas do destino que lhes reserva a contratação entre o estado e os sindicatos. Ficar à espera do “reconhecimento” dos políticos ou da súbita “reprogramação” dos sindicatos, parece-me pouco sensato.
Chega-se a este cúmulo: como numa farsa, ou numa cena religiosa, estamos condenados a ser guiados por uma força cega, aceitando o castigo da queda inevitável no purgatório ou no inferno.
Se nos portarmos bem, então a Força será misericordiosa e conceder-nos-á o perdão e, quem sabe, o céu.
33 anos de democracia para chegarmos a isto ? O que é que andámos a fazer este tempo todo ? Nem no tempo do salazarismo havia tanto conformismo ! O pastoreio do sócrates está-se a revelar mais eficiente do que eu alguma vez imaginei ser possível.
Agosto 29, 2007 at 6:46 pm
Paulo, Passe o teclado à miúda!
Agosto 29, 2007 at 7:15 pm
Hum… Em vez de tentarmos descobrir logo a inteligencia artificial, vamos por partes, e comecemos por construir uns robozinhos que facam tarefas simples, como ultrapassar obstaculos, e que tenham umas chips com capacidade para aprender .
Sendo assim, eu pela parte que me toca, tenciono:
1-Nas proximas eleicoes, nao votar nesta gente(nunca votei alias)uma vez que considero que se tem revelado prejudicial a classe e a causa da educacao, e nao votar tambem nos outros iguais a estes(ja votei neles), uma vez que tem sido completamente cumplices.Portanto, colegas professores de esquerda, que guiaram um 2CV, gostaram muito do Fernao Capelo Gaivota, votaram na Pintassilgo e foram fas dos Trovante, pensem bem no que fizeram, e nao se esquecam de voltar a dar-lhes o voto.
2-Promover e procurar criar condicoes para que a ideia do trabalho efectivo de 35 horas NA ESCOLA se va tornando numa realidade.Ao levarmos o trabalho para casa, estamos objectivamente a esconde-lo, e como tal, a desvaloriza-lo. E contra mim falo, mas este ano vou tentar mudar a minha maneira de trabalhar.
3-Interessar-me mais pela actividade sindical,aproveitando para lhes sugerir que comecem a fazer outsorcing, e contratem uns tecnicos de relacoes publicas, uns economistas, e porque nao, uns pedagogos,que tenham como missao, junto a comunicacao social,limpar as dragas de lama que tem sido lancadas sobre a classe,tipo: “os professores nao se interessam pelo sucesso dos alunos”,ou os “milhoes de faltas”, ou os “professores ganham muito bem relativamente ao PIB”(sem qualquer outro tipo de parametros que contextualizem a frase).Este genero de imagens falaciosas devera ser devidamente desmascarada por quem saiba.
Relativamente a formas de luta tipo greve, sinceramente nao me entusiasma, acho-a essencialmente inocua.
Concordo com o Paulo, quando ele diz que a luta devera ser travada ao nivel juridico.
Alias,a reaccao do MST as providencias cautelares, mostra que estamos no bom caminho.Ali e que lhes doi.
Agosto 29, 2007 at 7:29 pm
Todos os anos penso que não quero ser “coitadinha”. Mas acabamos sempre por cair no mesmo: pagamos papel, cadernos, tinta de impressora, acetatos, fotocópias, DVDs, pens, canetas, CDs, livros, revistas, etc. Leva-se o portátil também. E há quem fale em levar um retroprojector para as aulas. É que os que existem nas escolas são poucos ou têm a lâmpada fundida.
Agosto 29, 2007 at 7:41 pm
Nuno,
Essa das 35 horas na escola é defendida por muitos colegas.
Seria bom, mas se pensarmos nas condições actuais da escola, o mais certo era depois ainda virmos para casa trabalhar.
Eu preciso de estar só para realizar certo tipo de trabalho, sem interrupções constantes e barulho. Para não falar nos montões de livros que preciso e que estão em minha casa.
Agosto 29, 2007 at 9:12 pm
-Quero um gabinete que posso partilhar com mais colegas;
-Quero um PC pessoal, computador de mesa pessoal, para eu poder não só programar, calendarizar, guardar, organizar, ensaiar, esquematizar, modelar, fazer montagens multimedia, sim, sim, juntar som e imagem com placa de captura e digitalizador para poder, juntamente com os meus colegas e alunos recolher, isto é, fazer trabalho de recolha, pesquisa…de campo prático.
-Quero nesse gabinete o material que todos os gabinetes têm, material de escritório como lápis, canetas, canetas várias, acetatos etc, etc, quero “titular” esse material;
-Quero livros, muitos livros e tempo e sossego para os ler e sobre eles reflectir;
-Quero que as listas de obras, que todos os anos me pedem para a minha área disciplinar, sejam compradas e, pelo menos, que entrem na biblioteca, porque os do gabinete até dou de barato trazer os meus que compro com o “ordenado milionário de professor que recebo mensalmente do ministério que me tutela”;
-Quero trabalho e condições para trabalhar e não quem me tutele chamando-me malandro, irresponsável e ingrato. Quero aprender sempre para poder saber o que ensinar.
Depois destes quero, será que o que quero é demasiado para o que querem que eu faça como trabalho? ENSINAR.
Agosto 29, 2007 at 9:43 pm
Muito bem.
Chegamos assim, pelo menos, a um quase consenso sobre a exigência de contabilizar efectivamente as horas que trabalhamos e não as que dizem que trabalhamos ou as que passamos na Escola.
Se é verdade que há muito trabalho para fazer nas Escolas, então que as condições de trabalho respeitem um horário semanal de 35 horas, a partir do qual deve ser pago trabalho extraordinário.
Pertenço a dois departamentos, tenho reuniões de cada um deles uma ou duas vezes por mês, não contabilizadas no horário.
Enquanto o tal do ratio de computadores não aumenta, mas principalmente enquanto os custos de tinteiros são elevadísimos, sou obrigado a trabalhar em casa e a imprimir os originais do meu material de trabalho quase todo à custa do meu dinheiro e do meu tempo familiar.
Corrijo testes em casa numa base semanal porque trabalho com turmas de PCA com um sistema de avaliação contínua a sério, com monitorização permanente do progresso dos alunos.
Leccionei o ano passado três disciplinas a uma dessas turmas, o que implicava por mês a correcção de, pelo menos, 10 materiais de avaliação, cujo tempo não é contabilizado no meu horário.
E como eu, muitos mais dedicam à escola mais do que 35 horas semanais, não precisando para isso que os mandem por decreto.
Estou com a Fernanda, o Nuno e o(a) Flori.
Agosto 29, 2007 at 9:59 pm
Já agora…
Como eu tenho de alimentar-me, o refeitório, bar ou “coffe-shop” tem de estar aberto mais tempo. Com comida, evidentemente. Comida saudável.
E as casas de banho também têm de estar guarnecidas de sabonete para mãos e papel higiénico. E mais aquecedores de inverno e ar condicionado de verão.
O (a) Flori está com uma pedalada desgraçada. É assim mesmo.
Agosto 29, 2007 at 10:13 pm
Eu cá não me importava nada que voltassem a deixar servir sopa quentinha, pelo menos nos meses de Inverno, no bar ao lado da sala dos professores.
É que essa proibição é de uma idiotice que não lembra a ninguém…
Agosto 30, 2007 at 11:48 am
Jornal Público de 29/06/2007
(Carta retirada do espaço Cartas ao Director)
E se fosse consigo prezado encarregado de educação?
1. Imagine que o seu filho tinha concluído, com êxito, o ensino secundário e tinha também obtido, no exame de acesso à Universidade, uma classificação que lhe garantia uma entrada folgada no curso da sua escolha.
2. Imagine que, poucos dias após a boa notícia, uma nota do Ministério da Educação redigida naquele linguajar cinzentão e enigmático que tanto fascina os pobres de espírito, vem alertá-lo que afinal o tão desejado acesso não está de todo garantido, já que o aluno deverá submeter-se a um inovador sistema de pontos, de carácter retroactivo, cujos critérios o ministério tinha acabado de definir.
3. Imagine agora que, de modo totalmente aleatório, o novo sistema de acesso ao ensino superior do seu filho tornaria secundárias as suas notas académicas e estaria dependente, sobretudo, da pontuação obtida nos itens seguintes:
– assiduidade na frequência dos três anos do ensino secundário;
– comportamento;
– realização de trabalhos escritos de investigação (solicitados ou não);
– desempenho de cargos diversos (delegado, subdelegado… ).
4. Imagine que este novo sistema tinha sido cozinhado à revelia de toda a gente, na clandestinidade dos gabinetes e iria mudar, de modo imprevisto, as regras a meio do jogo, com a agravante de incidirem sobre itens que nunca foram minimamente contabilizados para qualquer mecanismo de acesso à universidade e em relação aos quais ninguém fora remotamente notificado.
5. Imagine ainda que uma investigação de um bloguista irrequieto tinha revelado que, subjacente a todo este processo (apresentado pelo ministério como profundamente motivador e concorrencial), estava a obsessão furtiva da 5 de Outubro em reduzir significativamente o corpo docente do ensino superior por razões meramente contabilísticas e orçamentais, o que, em consequência, iria exigir a redução do número de alunos a frequentar a universidade pública.
6. (…) Pois é exactamente isto que o Ministério da Educação está a fazer a dezenas de milhares de professores (todos eles com mais de 20 anos de carreira) com um famigerado “concurso” para professores “titulares”. E, não contente ainda com a patifaria, decidiu também espoliar estes professores de todo o trabalho qe desenvolveram ao longo de 2/3 da sua carreira, resolvendo contemplar e avaliar apenas os seus últimos 7 anos de serviço. Na opinião do ministério, parece que é um processo altamente motivador e estimulante para todos os envolvidos!!!.
Se, de agora em diante, notar que os professores se preocupam, sobretudo, com o exercício empenhado de cargos burocráticos, administrativos e amanuenses na sua escola, não estranhe: é que, de acordo com os critérios pedagógicos do nosso Ministério da Educação, muito mais do que um enfadonho acto de ensinar esses… é que dão os pontos!!!.
José Caldas
Rio Tinto
Agosto 30, 2007 at 11:50 am
O maniqueismo é uma das especialidades com grande tradição Lusa. O que sempre me fascinou… Temos uma tendência congénita para ver o Mundo a preto e branco. É mais fácil.
Agosto 30, 2007 at 1:37 pm
Não entendi o comentário 21.
Agosto 30, 2007 at 1:47 pm
Eu acho que percebi, mas o MFaces poderia agora concretizar de forma mais específica?
Agosto 30, 2007 at 2:02 pm
Classificar os professores de coitados ou idiotas é maniqueísmo Luso de conveniência. É conclusão fácil que não exige pensamento mais elaborado… O meu argumento é que somos muito dados a estas simplificações, por preguiça e impreparação… Preferimos os estereótipos.
Em Portugal pensar a preto e branco é ser coerente e corajoso. Pensar com a palete completa é ceder ao compromisso.
Agosto 30, 2007 at 2:04 pm
O ManyFaces tem-se revelado um(a) brincalhão (ona) na maior parte dos seus comentários, coisa que até tenho apreciado.Mas, oh ManyFaces, que o José Caldas fez uma oportuna, excelente, lógica e engraçada colagem, corte, pastiche ou coisa de Maniqueu, como queira, com aquilo que dói a uma boa parte dos encarregados de educação, ai isso fez. Não acha? E até gostei. Não me ocorreu tal e por isso saúdo o José Caldas pela ideia. Maniqueísta ou não, está muito bem esgalhada, como se diz na gíria…
Agosto 30, 2007 at 2:37 pm
É “o” MFaces.
Eu percebi que ia por aí e é verdade que somos dados a extremos, embora e por estranho que pareça, sejamos de “brandos costumes”.
É mais um paradoxo por resolver na nossa esquizofrenia.
Somos de extremos, desde que os extremos sejam moderados.
Mas verdade seja dita que esse é um fenómeno cíclico na nossa História.
Normalmente somos assim quando sentimos que a chibata nos pode bater no lombo.
Se ficamos nós com a chibata já é diferente…
Agosto 30, 2007 at 5:21 pm
Este Verao, estive com um casal amigo, ambos professores.Ele, com 34 anos de servico, no 10 escalao e sem ter ficado titular, porque so tinha 94 pontos.Ela, no 8 escalao, com 86 pontos e titular.
Esta deve ser uma das tais situacoes a preto e branco que o Mfaces fala.
Deixa-me ca pensar cinzento, a ver se consigo extrair sentido da abjeccao…
Agosto 30, 2007 at 5:38 pm
Por acaso isso parece-me um bom caso de pensamento a preto e branco. Não faço ideia de quais são os itens que dão pontos para titular (imagino que antiguidade seja um deles), mas sejam quais forem não me parece linear que só porque alguém esteja no 10 escalão (por antiguidade) deva ter precedência sobre alguém que está no 8º escalão só porque este tem menos pontos… Se alguém está no 10º e não tem pontos que cheguem isso revela o quê? Os profs do 10º deveriam ser todos titulares só porque têm trinta e tal anos de serviço?
Agosto 30, 2007 at 6:39 pm
Este comentário 28 merece de facto um esclarecimento.
Só diria que o concurso a titular não é preto, branco ou cinzento. É uma grande borrada monumental. E que a situação mencionada pelo Nuno Sousa não deve ser muito do agrado do ME, porque terá de pagar mais ao professor do 8º escalão.
Agosto 30, 2007 at 6:59 pm
Mas estou certa que, aos poucos e poucos, alguém irá explicar à ManyFaces as incongruências deste concurso. E acho que não devemos deixar de esclarecer.
Eu neste momento vou fazer o jantar e estender a roupa do puto que andou por aí a fazer campismo.
Agosto 30, 2007 at 8:55 pm
“Ao” MFaces.
Discordem mas não o emasculem ou transgenderizem (belo palavrão, há quanto tempo o queria usar, assim para dar ares…).
Agosto 31, 2007 at 11:04 am
A Fernanda parece descobrir o lado feminino que há em mim.
O concurso está cheio de barbaridades, acredito. Tenho seguido a discussão e parece-me inquestionável. O meu argumento em cima tentava apenas voltar à velha discussão da progressão por antiguidade versus progressão por mérito. Não me aflige que nem todos os Profs do 10º sejam titulares. Podem lá ter chegado apenas pela força da gravidade (por antiguidade). E nesse caso ficarão muito bem como estão…
Agosto 31, 2007 at 5:08 pm
E o cônjuge que estava no 8º escalão e passou a titular como chegou ao dito escalão? Não foi por antiguidade? Todos concordamos que as regras deste «processo concursal» são inconcebíveis, iníquas…, mas, se o que se pretendia era arranjar um método objectivo, por pontos, parece-me inadmissível que um professor com menos pontos seja titular e outro com mais pontos o não seja só porque está no décimo escalão. Como é possível avaliar deste modo o mérito, a competência, o empenho? A mim o que me aflige – apesar de,infelizmente ser titular,- são as injustiças concretas que vi na escola onde trabalho e que sei que se verificaram por esse país fora: pessoas competentíssimas ultrapassadas por outras menos competentes e muito mais novas. coincidência das coincidências -acabo de ouvir na RTPN o seceretário Pedreira a reconhecer as injustiças cometidas neste concurso e a prometer repará-las. Fico feliz!
Agosto 31, 2007 at 6:20 pm
Vão reparar as injustiças cometidas utilizando a estratégia de sempre: cometendo mais injustiças e atropelando mais uma vez os (as) que já atropelados foram, porque para reparar os injustiçados mais umas quantas vítimas se vão criar. Não foi assim com o exame de química? E aprenderam a lição? E deram a mão à palmatória? E reconheceram que houve M*r*a? Cá para mim só há uma saída: TENHA-SE A CORAGEM DE ANULAR ESTA TRAMPA DE CONCURSO que o é pela pressa e atabalhoamento com que foi feito. Afinal as tarefas acometidas aos titulares até vão, numa maioria de casos, ser desempenhadas por quem não é titular. Onde está o problema em anular o concurso? Na falta de humildade, na falta de diálogo, na falta de consideração. Olhem na falta de educação da gente que manda na educação,em Portugal,neste momento.
Agosto 31, 2007 at 6:34 pm
Assino por baixo.
Agosto 31, 2007 at 6:39 pm
Totalmente de acordo. Estive a ler a notícia do Público online e verifiquei que afinal o que se vai fazer é precisamente criar novas injustiças, na medida em que tudo vai ser feito a nível de escola e só abrangerá alguns. A única solução seria a anulação do concurso, mas, pelo conheço desta equipa, não acredito. Colegas, somos tantos, todos vítimas de ilegalidades e injustiças muito graves cometidas nos últimos dois anos, TEMOS de fazer alguma coisa. O quê? Não sei…mas, em 32 anos de serviço, nunca vi uma coisa assim -tudo feito em cima dos joelhos, tudo feito sem qualquer conhecimento da realidade concreta que se vive nas escolas, tudo feito sem consultar os principais intervenientes no processo, tudo feito só para «roubar» os professores, tudo feito para destruir o ensino público, tudo feito…
Agosto 31, 2007 at 8:32 pm
Uma graça esta do ME reconhecer estas aberrações como injustiças.
Às tantas, ainda vão dar o dito por não dito, manter os professores de escalões mais baixos como titulares, sem a subida do índice remuneratório. Do género, ficas com o “títalo”, mas sem “cheta”.
Agosto 31, 2007 at 9:02 pm
Já escrevi por aqui algures num post do Paulo que tenho momentos… e acreditem que tenho mesmo momentos que penso que só lá vai ao tiro… oh, mas que inconfidência isso não se diz. Bem, como os metralhas da bd quero dizer…
Agosto 31, 2007 at 9:56 pm
Com MÍSSEIS!
Com MÍSSEIS!