Agosto 2007


Primeiro concedem que colocar a fasquia em 14 valores para aceder à docência quando outros chegam a licenciados com trabalhos entregues por fax talvez seja um pouco exagerado.

Depois até admitem que o concurso para professor-titular se baseou numa lógica que conduziu a centenas de situações disparatadas - lá está a teoria dos efeitos perversos em funcionamento, assim como o princípio dos dramatismos individuais a virem à tona – e que é necessário corrigi-las.

Claro que cada uma das concessões à evidência dos factos é um mero acto de hipocrisia pública, tendo sempre o secretário de Estado Pedreira o cuidado de afirmar que estas decisões não resultam de qualquer negociação ou que sequer foram comunicadas às organizações sindicais, mas sim de actos voluntários do ME que, em demonstração de magnanimidade, decidiu corrigir o que antes afirmava ser intocável e infalível.

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Para além de se perceber que Jorge Pedreira se presta ao papel de um simulacro de face humana do ME e o enviado para as missões que implicam o recuo da tutela em questões fulcrais, para isso bastando relembrar o caso da TLEBS. Maria de Lurdes Rodrigues e o seu Sancho Pança mantêm-se na sombra, nunca surgindo a admitir publicamente qualquer disparate, mesmo se parte destes assuntos estão directamente no foro das suas competências (afinal quem é que preparou a legislação sobre o acesso à carreira?).

Que isto aconteça ao mesmo tempo que no site da DGRHE se publicite uma espécie de linha de valor acrescentado (50 cêntimos para receber um SMS) para os candidatos saibam os resultados dos concursos para as necessidades residuais é apenas uma coincidência que realça o ridículo a que tudo isto chegou.

Os Editors estão de volta.
O vídeo é do mais fraquinho, mas por certo foi do mais baratinho.
E se o que interessa é a música…

You came on your own
That’s how you’ll leave
With hope in your hands
And air to breathe

Ainda em férias fui dando uma e outra bicada ao anunciado Plano Tecnológico da Educação, mais uma socretinice tecnológica que assume que a solução dos problemas passa por anunciar o despejo mais gadgets nos sítios e que tudo se resolve por si só, mesmo quando a parafernália demora a chegar e depois não há condições adequadas para a fazer funcionar e manter.

Neste caso, até se contempla mais do que isso e um dos eixos do PTE apresenta-se como sendo de Formação dos recursos humanos disponveís para a correcta e adequada utilização dos quadros interactivos, dos portfólios digitais e mais essas coisas de que eu gosto muito – sem ironia – mas que sei que são as cerejas em cima do bolo e não a sua massa.

Só que este Eixo da Formação me levanta algumas reservas, talvez por causa de uma desconfiança que se tornou um defeito meu quando leio peças propagandísticas mal alinhavadas ou baseadas em tudo o que é chavão vago e dificilmente escrutinável.

Para comodidade de arrumação de ideias, vou separar as reservas de acordo com cada componente do eixo/projecto:

  • Formação e Cerificação de Competências TIC - lá estamos nós de novo no campo da famigerada certificação de competências, a actividade actualmente mais na moda em matéria de extensão do aparelho burocrático do Estado e de aspiração de fundos comunitários. Se é evidente que a formação nesta área nunca é definitiva e a sua renovação deve fazer-se a um ritmo bem mais acelerado do que a formação científica em História, Inglês ou Matemática, também é evidente que este foi um dos eixos com maior peso na Formação de Professores nos últimos 10 anos, graças aos financiamentos do PRODEP. Pelos vistos sem grandes resultados.
    Verdade seja dita que muita dessa formação foi feita de acordo com os interesses dos Centros de Formação e formadores recrutados a dedo, tendo-se constituído como um dos maiores barretes na área da formação contínua dos docentes. Sei isso por experiência directa e indirecta. Directa porque assisti a coisas lastimáveis, incluindo um formador que nem sabia os mais básicos comandos do velho MS-DOS que se propunha ensinar; indirecta porque leio e releio quase sempre o nome dos mesmos formadores, com as mesmas acções de formação, ano sobre ano, com o título mais ou menos retocado mas os mesmos materiais de apoio pelo que depois me contam os formandos, a minha cara-metade incluída. O desplante por vezes é tal que as acções nem sequer correspondem ao anunciado, sem que ninguém se pareça importar com isso ou queixar-se.
    Se é para continuar nessa senda, voltando a cometer os mesmos erros – afinal uma década já deveria ter chegado para nos tornar minimamente competentes a quase todos e não apenas a financiar os carros novos ou as férias tropicais dos formadores – nem vale a pena irmos por aí. Se é para nos ficarmos pelas “certificações”, gostaria de saber quem é que certificou que os certificadores têm competência para fazer o que fazem, pois a criação de estruturas de certificação é apenas mais um esquema para, como já escrevi, sorver fundos comunitários, dando certificados de forma muito longe de ser transparente ou de corresponder a uma real melhoria das competências dos certificados. Ou a formação e certificação abandonam os vícios que anquilosaram a formação contínua dos docentes ou nada feito. 
  • Avaliação Electrónica – sendo esta a novidade, parece-me que é uma novidade que está concebida de uma forma profundamente errada e perigosa, seja para o trabalho dos docentes, seja para o desempenho dos próprios alunos.
    Eu explico: se é claramente vantajoso que se criem ferramentas e redes destinadas à circulação de informação inter e intra-escolas ou para a sistematização da informação, já me parece profundamente duvidoso que seja mesmo útil «uniformizar critérios de avaliação e ritmos de aprendizagem», em particular quando não se definem as unidades de aplicação dessa «uniformização»: são os departamentos? são os ciclos de ensino? são as escolas? são os agrupamentos? é todo o sistema de ensino?
    Mas afinal não vai essa uniformização exactamente no sentido inverso e a contra-corrente de todas as teorias e práticas pedagógicas que nos incentivam a diferenciar estratégias de abordagem dos conteúdos, a diversificar os instrumentos de avaliação e a adaptar os ritmos de ensino-aprendizagem a cada situação concreta, seja ela a unidade-aluno, a unidade-turma ou a unidade-escola?
    Para além disso pressinto nesta forma de abordar a avaliação uma concepção tecnocrática demasiado formatadora e desejosa de uma pretensa quantificação objectiva da avaliação, que elimine toda a margem de subjectividade no processo, ou seja que retire qualquer margem de criatividade e inovação da parte de docentes e alunos.
    Pior, e isso é mais do que previsível com os actores em presença, adivinho que esta não será mais do que uma forma encapotada de tentar monitorizar e controlar ao mínimo detalhe o trabalho dos docentes, retirando-lhes toda e qualquer margem de autonomia ou de evasão às cartilhas ministeriais, segundo as quais o sucesso é para medir e para alcançar nas quantidades desejadas, a ebm (com a anuência acrítica dos docentes) ou a mal (com o castigo de quem prevarique e cometa pecados de lesa-sucesso para as estatísticas).

Lamento se a minha visão de tudo isto é demasiado cínica, se já desacredito com facilidade das boas intenções de muita gente, mas é que a experiência passada e a observação presente de protagonistas e métodos (mais do que métodos são truques) não é de molde a acreditar que, subitamente e sem que saibamos de múltiplas epifanias por São Bento, pela 5 de Outubro e pela 24 de Julho, os velhos hábitos se mudaram e os novos métodos não passaram a ser mais do que recauchutagens modernaças mas duvidosas daquilo a que estes protagonistas nos habituaram.

Fiz uma reclamação de uma decisão da DRELVT no dia 26 de Julho, uma 5ª feira. Com os atrasos dos correios, pronto, acredito que tenha lá chegado dia 30, na 2ª feira seguinte.

São 30 dias para responder que se esgotaram, sem que chegasse resposta. Acho que a pessoa que tomou a decisão de que reclamei – ou pelo menos que mandou fazer o ofício de acordo com o despacho de uma outra senhoria hierarquicamente superior – está de férias e faz bem. Mas isso aqui não me interessa nada.

Para suprir o problema evidente do prazo atropelado, alguém da DRELVT decidiu ligar para a minha escola anteontem – limite do prazo a ficar nenuloso – a comunicar que a reclamação não podia ser satisfeita e pois, a legislação, não sei que mais. Sendo que a minha reclamação foi exactamente acerca da forma como foi seleccionada a legislação que foi aplicada. Mas tudo bem.

Só que eu não sei de nada. Não foi a minha escola que reclamou. Fui eu. E a mim ninguém disse nada, apesar dos contactos variados deixados a acompanhar a reclamação. Tal como já ninguém tinha respondido a um mail de pedido de informações. Tal como a tal decisão que motivou a reclamação, tomada por despacho datado de dia 12 de Julho, redigida em forma de ofício no dia 19 e chegada à minha escola no dia 23, a mim só me chegou dia 7 de Agosto.

São as férias, eu sei. São um período útil para tomar decisões, para as comunicar muito tarde aos interessados e para não responder atempadamente às reclamações. Mas é um bom período para os docentes andarem a concorrer. Não é o meu caso, mas isso também não interessa agora mesmo nada.

Espero que Setembro seja um período mais fresco para os recursos hierárquicos e para as queixas na Provedoria.

Porque eu sou chato, muito chato.

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A Gotinha lançou-me o desafio e é deseducado dizer não a uma senhora ou menina (abro excepção para a pestinha que anda cá por casa a pedir “surpresas” ao almoço, lanche e jantar).

A ideia é escrever sobre os últimos cinco livros lidos. O que no meu caso é um problema porque pratico a leitura múltipla e nem sempre percebo bem até que ponto quais foram exactamente os cinco que acabei de ler, ou que estão ainda a meio, ou que foram abandonados por causa da desilusão, ou porque ficaram soterrados sob uma avalanche de papel. Por isso mesmo esta lista é ligeiramente diferente da que lá deixei nos comentários.

 

Robert Wilson, The Blind Man of Seville.
Classificação: 7/10.
Comentário: História policial sólida, mesmo se não destinada a figurar na minha antologia pessoal das 10+ do género.

Vários: Pão Com Manteiga.
Classificação: 9/10.
Comentário: Um clássico nostálgico e imperdível.

Richard Ford: Mulheres e Homens.
Classificação: 6/10.
Comentário: Razoável desilusão, continuando sem perceber porque há quem tanto goste das histórias do homem. São medianamente interessantes, mas não mais do que isso.

Patricia Highsmith, Small g.
Classificação: 6,5/10
Comentário: Livro de despedida e de revisão apaziguada com velhos demónios, nomeadamente a homossexualidade. Mas muito ligeiro.

Vários; Snoopy’s Guide to the Writing Life.
Classificação: 7,5/10.
Comentário: Leiam as tiras e pranchas dos Peanuts (9/10) e saltitem os depoimentos (6/10) sem grande atenção, porque muitos são mesmo para encher chouriços.

E não, ainda não foi neste Verão que conclui a leitura da Guerra e Paz ou a revisão de todo o Dostoievsky, das obras completas do José Luís Borges ou da poesia críptica de um qualquer críptico autor português amargurado e semi-desconhecido. Afinal ainda é Verão e eu sou humano, demasiado humano.

Não sei porquê, mas começa a notar-se o regresso das setôras e dos setôres às respectivas bases. O rankings é de hoje às 15 horas, mais coisa menos coisa.

(c) Antero Valério

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