Ao contrário do que se se pensa não são os States mas o Portugal Socrático.
Note-se desde já que nada tenho contra programas que visem o retorno de adultos e não-adultos à escola para completarem as suas habilitações e terem a sua devida certificação, potenciadora de uma melhoria da sua situação laboral e material.
Do que eu não gosto muito é do seguinte:
- Programas que atribuem certificações formais, sem que os formandos tenham adquirido quaisquer competências relevantes, assim permitindo apresentar taxas de sucesso elevadíssimas, ficando por provar se essas taxas correspondem a aprendizagens efectivamente realizadas, se apenas ao cumprimento de directrizes superiores viradas para o “sucesso”.
- Programas que resumem vários anos de educação e/ou formação em módulos de créditos de meia dúzia de meses, assim possibilitando elevar a taxa de conclusão da escolaridade básica de uma forma paralela e, em alguns casos, injusta para quem seguiu o seu percurso normal com dificuldades mas com persistência.
- Programas que permitem, na esteira do que atrás ficou dito, aceder ao Ensino Superior sem ter completado sequer metade da escolaridade prévia e sem que tenhamos a garantia de existirem controles eficazes do rigor da sua implementação e do acesso à Universidade.
Ora o que me parece, pelo que vou conhecendo de algumas realizações resultantes do programa Novas Oportunidades (seja no âmbito de CEF’s e afins ou de EFA’s), é que a aposta é feita principalmente na vertente da certificação e não tanto na do desenvolvimento de competências. Porque é a única maneira de compreender que sejam criados cursos em áreas profissionalizantes, de tipo obviamente técnico e prático, que são dados sem que existam nas instituições ou escolas onde são leccionados, os equipamentos técnicos indispensáveis para complementar uma formação puramente teórica antes do estágios em contexto de trabalho. Sei do que escrevo porque há alguns anos dei apoio burocrático a um curso de nível II (9º+1) na área da Restauração, ajudando na papelada destinada a receber apoios do PRODEP para o projecto. O dinheiro foi escasso e chegou tarde, mas lá chegou e permitiu que a Escola em causa tivesse equipamentos mínimos para desenvolver o curso e adquirir os produtos consumíveis (e comestíveis) para o efeito. Agora fazer um curso destes só com aulas teóricas, como se passa em muitos casos, já me parece razoavelmente estranho. Assim como em outras áreas de formação que requerem mais do que mesas, cadeiras, formador e computadores.
Alguns estabelecimentos de ensino aderiram à moda dos CEF’s como estratégia de curto-prazo para a sobrevivência de alguma carga horária para os seus docentes, mas a médio-prazo esta é uma aposta que se revelará um pouco suicidária.
O mesmo se passará com o Ensino Superior e a iniciativa de abrir a sua frequência a maiores de 23 anos que não tenham completado os estudos que, em situação regular, permitiriam o tal acesso, trocando, por exemplo, todo o Ensino Secundário (em boa verdade podem trocar quase toda a escolaridade) por um exame de admissão elaborado por instituições que precisam de alunos para sobreviver a todo o custo. Por um lado beneficia-se o infractor, criando uma via rápida e paralela para o sucesso, enquanto se abre uma porta das traseiras para o ingresso nas Universidades que queiram usar esta estratégia para engordar o seu corpo discente sem especiais exigências.
Toda esta ânsia em certificar competências e promover as habilitações académicas da população portuguesa seria altamente estimável, se na sua esteira não se verificasse que muitas das motivações destas medidas visam:
- Embelezar as estatísticas oficiais da Educação.
- Reduzir custos no ensino público regular, retirando dele um razoável número de potenciais alunos (em especial os que recorriam ao ensino nocturno) e dessa forma eliminando horários para os docentes existentes.
- Alimentar uma burocracia paralela (o tal Sistema de Reconhecimento, Validação e certificação de Competências, mais os centros dele dependentes) com dinheiros provenientes da União Europeia que não se investem directamente no sistema público de ensino.
- Dar pasto abundante para a propaganda.
Sinceramente gostaria que assim não fosse, mas este parece-me ser mais um daqueles processos que, como aconteceu com os dinheiros do Fundo Social Europeu, servem para disfarçar conjunturalmente os problemas e aparentar iniciativa e oportunidades numa área sensível para o desenvolvimento social do país.
Resta saber se, como se pode constatar 20 anos depois com o FSE, em 2020 não encararemos tudo isto como mais uma enorme má alocação de recursos, como eufemisticamente se usa dizer-se nestes casos.
You can be what you wanna be.
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Need it or not
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yeah.
Julho 22, 2007 at 8:53 pm
Paulo! Depois de um post destes, o que pensarão os eduqueses? Que se rendeu ao ensino elitista do tempo da Outra Senhora?
Veja bem: de um certo ponto de vista, as aprendizagens formais não têm qualquer interesse… O que é preciso é entreter os miúdos e, agora, os graúdos na escola. A isso há quem chame “inducação”, digo, “educação”.
Julho 22, 2007 at 9:32 pm
Uma questão se levanta. Dado que há uma clara apetência pelo canudo; dado que uns tantos demagogos se prestam a vender gato por lebre – nestas condições, como voltar a dignificar o ensino? Que poderá ser feito com resultados sérios nesse sentido, para além de uns posts de protesto? Estou afim de aceitar umas alvíssaras.
Julho 22, 2007 at 9:45 pm
Ferrão,
Não é muito difícil:
Basta no caso da Formação profssional acabarem com o círculo vicioso do dinheiro para formação ficar retido nas redes burocráticas ou financiar acções que interessam mais aos formadores do que aos formandos.
Em matéria de regresso ao sistema não se promover o facilitismo certificador e investir-se em iniciativas que visem uma efectiva ligação ao mundo do trabalho.
No sistema público de ensino regular apostar-se de uma vez num ensino rigoroso e não no facilitismo dos conteúdos e do modelo de avaliação.
Não e´um programa popular a curto prazo porque inicialmente pdoerá provocar um choque e até o aumento do insucesso.
Mas é a única solução a médio-longo prazo.
Não fazendo isso estaremos entregues a lamentos recorrentes.
Quando tivermos esta malta toda certificada e quase 100% de sucesso no Ensino Básico faz-se um qualquer estudo a nivel ínternacional e descobrimos que estamos tão funcionalemnt analfabetos como antes.
E depois a culpa será de quem?
Eu já estou a colocar o meu lombo a jeito, porque sei que quem idealizou isto não vai estar cá para apanhar as canas.
Julho 22, 2007 at 10:21 pm
Já correm umas informações acerca de tentativas para se “meterem ao bolso” os fundos para estas Certificações de Competências.
E quem me contou sabe do que fala…..
Onde já vimos este filme?
Julho 22, 2007 at 11:14 pm
Já não sei quem aqui é idealista ou romântico. A resposta de Paulo é interessante, partindo de uma permissa que me parece felhar redondamente: a de que no governo estão pessoas interessadas em dignificar o ensino. Nestas condições, o que poderá ser feito, com hipóteses de contrariar o rumo já traçado. Um congresso de professores e outros interessados, organizado por todos os que, como pessoas individuais ou colectivas, estejam dispostas a desmascarar estas falsas oportunidades? Quem promove a compilação dos casos concretos de má aplicação dos dinheiros?
Uma publicação periódica orientada no mesmo sentido? Um blog especializado (por acaso o Umbigo está bem posicionado, mas será suficiente)?
Julho 23, 2007 at 1:00 am
E depois vamos ver o acesso ao emprego! Os empregadores que querem mesmo trabalhadores qualificados/competentes não vão em cantigas de certificados de uma qualquer universidade, vão é olhar para quais as unibersidades que os deram, e nisso não têm os olhos fechados. (E o mesmo, para outros empregos, quanto a certificados de conclusão da escolaridade básica pelos tais módulos de créditos de meia dúzia de meses)
Julho 23, 2007 at 1:11 am
E depois vamos ver o acesso ao emprego! Os empregadores que querem mesmo trabalhadores qualificados/competentes não vão em cantigas de certificados de uma qualquer universidade, vão é olhar para quais as universidades que os deram, e nisso não têm os olhos fechados. (E o mesmo para outros empregos, quanto a certificados de conclusão da escolaridade básica pelos tais módulos de créditos de meia dúzia de meses)
Julho 23, 2007 at 5:22 am
Isto esta a configurar-se para termos 8/10 da populacao favelada, a volta de uma tantas ilhas de riqueza e das sete maravilhas de Portugal, todos certificados, engenheiros de caixa registadora, anestesiados por rocks in rio e festivais de pontos cardeais, espectaculos laser, futebois e colombos, todos muito “resilientes” e flexiveis. Ideias como trabalho para toda a vida ou seguranca no emprego passam a ser pecado, se nao mesmo tabu.
Resumindo, uma humanidade de aviario gerida por uns tantos capatazes. Em fundo, altifalantes vao repetindo sempre a mesma frase: “Nao ha almocos gratis!” “Nao ha almocos gratis!” “Nao ha almocos gratis!”…
Julho 23, 2007 at 7:55 am
Em Portugal a relação ensino geral/ensino profissionalizante é inversa da alemã, por exemplo. Eu não sou especialista em ciências da educação mas parece haver algo errado nisso como concordará. A inversão da situação cria muitas “oportunidades” ao sector privado que não deixará de tentar que a escola pública não ofereça ensino profissionalizante. Não conseguiu até agora, mas conseguirá, sobretudo nos cursos com baixo investimento. Não estamos a falar de centros de formação de Palmela, mas de escolinhas profissionais privadas , com docentes a recibos verdes (muitos que são profs do ensino público) oferecendo cursos de computador, lápis e papel.E muito mais teria a dizer sobre isto pois não concordo com o que diz mas deixo para quando estiver finalmente de férias.
Julho 23, 2007 at 7:59 am
As linhas programáticas que Paulo Guinote aponta (comentário 3) são uma optima base de partida. Porém, a pergunta que fiz referia-se mais ao lado instrumental, se é que faz algum sentido.
Julho 23, 2007 at 9:31 am
Tendo tido a possibilidade de assistir a uma apresentação de um trabalho num curso de nível II (na área da puericultura), constatei que para além do esforço e da boa vontade das docentes responsáveis por essa área, as alunas tinham-se limitado a fazer uma pesquisa de material na NET e a ler (com muita dificuldade) o trabalho perante as colegas.
O trabalho que me foi dado observar numa “aula” daquelas alunas, consistia em fazer recortes, colagens e em apresentar qualquer coisa de “bonita”, na perspectiva de fazer uma qualquer “animação”.
Fiquei perplexo mas não tive coragem de fazer perguntas, porque apercebi-me de que aquilo era algo que acarretava um grande esforço em termos de ATITUDE (porque ia contra as rotinas da escola, exigindo uma dedicação extra das responsáveis), mas merecia, simultaneamente, um grande desprezo do Ministério.
Por isso faço minhas as dúvidas do PG.
Julho 23, 2007 at 9:48 am
Ferrão,
Eu, partilhando as dúvidas sobre os interesses de quem passa pelo ME desta vez, tenho sempre a vaga esperança que um dia apareça alguém com coragem para ir pelo caminho impopular mas certo, aquele que não “ganha as populações” contra os professores, mas que permite inverter a situação REAL e não a sua descrição ESTATÍSTICA.
Se é verdade que as escolas privadas de “topo” são para copiar em matéria de organização do trabalho dos docentes, porque o não são em termos de regras disciplinares e exig~encias de trabalho?
De início pode custar a habituar mas, por experiência o sei, não demora muito tempo a conquistar algumas turmas para trabalho a sério, com métosos de avaliação a condizer.
Agora como organizar um movimento acerca disto tudo.
Sinceramente é algo de difícil concretização, perante a fraca capacidade de resposta dos sindicatos e associações profissionais de professores neste momento.
Criar uma espécie de federação das Associações de Professores de Português, Matemática, Inglês, História, Ed. Física, etc, etc?
Que não se entretenham nas lutas intestinas pelo meio crédito de horário que as escolas podem, distribuir?
A classe docente cresceu de forma desarticulada, há uma sensação de identidade partilhada que os inquéritos detectam e que se observa em muitas escolas, mas depois é difícil generalizar isso em termos de mobilização.
Mas é um caso para pensar, reflectindo nas hipóteses, vantagens e obstáculos.
Julho 23, 2007 at 9:50 am
H5N1,
Na minha escola vai existir um CEF nessa área da Puericultura.
Vai ter um par de alunos meus deste ano que acaba, uma sem jeitinho nenhum para a coisa (mas bastante apta para as TIC) e outro que vai para lá porque o amor da sua vida actual também vai.
Já lhes disse que as crianças não são para deixar cair de cabeça no chão.
Estava a brincar, mas ainda quero ver o que sai daquilo…
Julho 23, 2007 at 2:31 pm
Como diz SL, “de um certo ponto de vista, as aprendizagens formais não têm qualquer interesse…”, ou seja, o “económico”!
O “exército de reserva” de trabalho qualificado já excede o que seria socialmente desejável… e a nossa emigração é, tradicional e basicamente, de mão-de-obra indiferenciada.