Continuando na silly season opinativa sobre a Educação o investigador (de quê?) João Miranda contribui com o seu disparate pessoal para o peditório. Para ele, cada escola deveria poder ter o seu sistema próprio de avaliação.
Em nome da liberdade, em especial da tal liberdade de escolha, João Miranda dá a receita: os bons alunos iriam para as boas escolas com exames e os maus para as más escolas sem exames.
Isto é um diaparate a tantos níveis, que num sábado de manhã nem estou para aí virado.
Só me interrogo se João Miranda andou numa boa escola, daquelas com exames, para opinador e teórico da Educação.
Parece-me que este vai ser um Verão penoso nesta matéria. De repente a Educação tornou-se uma espécie de futebol para quem não tem outro assunto de conversa. Um tipo tem uma ideia que acha muito gira, diz ou escreve uns disparates a esse propósito e já está. Parece que há mesmo quem receba dinheiro por isto.
Julho 7, 2007 at 6:13 pm
Penso que o artigo de João Miranda é escrito, de alguma forma, num tom irónico e inscreve-se na lógica da opinião ligeira com que hoje em dia somos brindados no circo mediático.
Se abundam as mais variadas ideias em matéria da educação, é porque ela não pode ser reduzida a uma actividade científica e, em portugal, acontece mesmo que é o palco das mais espatafúrdias trapalhadas e adaptações de mau gosto.
Desde que se confudiram factos psicológicos com especulações ontológicas, nomeadamente pela via da psicologia metafísica de Compayré-Claparéde-Piaget, estava aberto o caminho a todo o tipo de atropelos e experimentalismos.
Depois do empirismo de Locke, do espiritualismo-naturalismo de Rousseau, do positivismo de Comte, do conformismo de Piaget e do flexipedomercantilismo de Perrenoud, entrámos numa fase em que qualquer prescrição técnica é encarada com a máxima seriedade pelos burocratas e terapeutas de serviço.
Hoje em dia, com a educação transformada numa espécie de pedotecnologia, qualquer engenheiro escolar se acha no direito de aplicar as receitas aprovadas num qualquer gabinete de Bruxelas. Por isso, após a desvalorização dos diplomas de engenharia, não admira que qualquer um se ache no direito de apontar uma nova via para a solução da educação.
Basta ver a facilidade com que o próprio ME engendra “medidas” para lidar com os problemas do ensino. A educação serve para “qualificar” e dar “competências”. É natural, por isso, que as Ciências Humanas sejam desprezadas e, com elas, o espírito de humanidade e de sentido de responsabilidade que veículam. Restam as sessões terapêuticas de “educação sexual”, de “cidadania”, de “multiculturalismo”, de “violência doméstica” e de outras técnicas sociais de “empowerment” , para quem não tem qualquer sentido de identidade ou sequer de personalidade estruturada, porque lhe falta o básico para se sentir humano (pertencendo a uma espécie com uma história e uma memória).
Trata-se de um mundo com que a Nomenklatura sempre sonhou, aquele que os Camisas Rosas estão a construir em portugal.
Julho 7, 2007 at 6:39 pm
Eu percebo a ironia no texto.
E gosto, em geral e mesmo no particular, do uso da ironia e do sarcasmo nestas questões.
O problema é que este texto filia-se no mesmo tipo de ironia, ou de metáforas, dos minsitros e júdices que falam sobre o país e a Educação.
Ironizam sobre preconceitos errados e visões erradas de tudo isto.
Se a defesa dos exames é interessante e eu partilho-a, é um completo disparate defender-se um sistema completamente descentralizado de avaliação porque isso, entre nós, apenas irá multiplicar um esquema de “truques” que até posso concretizar, com conhecimento directo nos últimos 15-20 anos (ou mais se contar a experiência como aluno), no ensino público e privado.
Julho 7, 2007 at 7:47 pm
Desculpa Paulo mas mais perigosas do que o argumento imbecil ou irónico para a defesa dos exames ou a sua condenação, parecem ser as afirmações paradigmáticas de que os exames promovem o rigor e a exigência e a não existencia de exames promove a igualdade.
Estas afirmações parecem ser aceites como naturais e nem a solução irónica, ou imbecil, do articulista o consegue esconder.
Assim teremos que quem defende os exames defende a desigualde,isto porque defender a igualdade não é respeitar a diferença mas sim escondê-la! Ao contrário, quem acha que os exames não são necessários fica a defender a igualdade mas irremediavelmente associado à preguiça e ao laxismo, como se um simples exame pudesse garantir o fim de tudo isto!
Pois! O que é perigoso são estas simples ideias que ninguém descodifica, uns por pensarem nelas como absurdos, outros por serem evidências, outros ainda por nem sequer pensarem no assunto. e os brilhantes articulistas da nossa praça. com a sua ignorância. vão transformando imbecilidades em verdades absolutas … com o perigo que tal sempre comporta.
Um abraço
Julho 7, 2007 at 7:55 pm
Tens razão.
Eu defendo a existência de exames, ou pelo menos de mecanismos de avaliação externa dos alunos, e não é por isso que quero excluir seja quem for da escola e do sucesso ou promover a desigualdade.
Mas realmente há muito que se enquistaram estereótipos do género exames=rigor=desigualdade.
O que está muito longe de reflectir ou explicar a realidade.
Julho 8, 2007 at 4:03 pm
Enquanto isto, as escolas particulares, onde há aulas de facto, e não descalabros de gritaria e ordinarice, vão angariando alunos de todas as famílias que podem pagar. Os outros, os que não podem pagar, vão ficando nas escolas públicas, dos gangs, da chungaria.
Enquanto isto, os professores debatem o flexipedomercantilismo e o autoclismo.