Não creio que haja perguntas a mais nesta matéria. Todas devem ser encaradas frontalmente. A obrigação de ter ideias claras está do lado de quem se sente desconfortável com a situação.
A guerra dos números é um embuste, por isso vou tomar como bons os números do governo, treze por cento. Bem sei que acrescentaram 0,77%, para dar um ar de rigor pedante, enfim…
Se as contas forem, 87% estão satisfeitos a política laboral do governo e 13% contra, então estamos falados.
Um grevista não tem o mesmo peso que um eleitor activo, tampouco um não-grevista o mesmo peso que um abstencionista. Há um lado de empenhamento cívico muito mais pronunciado.
Subjectivamente, avalio assim: pelo factor dedicação, dou o peso 2 à disposição de um grevista, o que imediatamente coloca o impacto da greve nos 26%, aproximando-se da quota que tem permitido a formação de maiorias num ambiente morno de abstenções próximas de 40%.
1. Onde trabalho, numa escola, no Estoril, não dei por nada.
2. Do lado dos grevistas o desalento; do lado do governo o alento; do lados dos espectadores o bocejo.
3. A leitura dos acontecimentos continua a incidir nos manuais do sindicalismo e activismo político dos finais do Séc. XIX., quando se está na presença de uma sociedade mediática-espectacular, onde o que conta (o que aparece) é o circo, sempre com números novos e arriscados.
4. Os Professores-Doutores da Nomenklatura pró-greve não aceitam lições de ninguém. O povo trabalhador não aderiu porque é estúpido, tem medo e não tem “consciência de classe”.
5. Falta uma pergunta: Para que servem estes sindicatos que ignoram os excluídos, os imigrantes e os precários, ou seja, que se representam principalmente a si mesmos e, quanto muito, vão mitigando apenas uma parte da população (potencialmente) activa ligada ao estado?
Não aprecio especialmente que me coloquem palavras na boca que não proferi. Penso que há necessidade de um pouco mais de elevação no diálogo. Também não gosto especialmente de epítetos colados à testa, mas se isso dá muito prazer a alguém, posso compôr uma fotografia com todos esses rótulos. A mim não me afectam.
13 por cento (não vou mais especular com o impacto social) de grevistas é para mim uma expressão muito significativa de descontentamento. É preciso sempre entender que foram pessoas que ultrapassaram as barreiras mentais que os desaconselhavam de correr riscos. Em situações mais extremas esta questão se colocou na história recente. Muito menos de treze por cento da população assumiu o risco de se empenhar activamente na queda da ditadura.
Agora, passando ao lado estes faits divers, mais achas para a fogueira:
1) Algo poderia ter sido feito para tentar a adesão da UGT a esta greve, que eu não senti que tivesse sido feito.
2) Sinto que há uma necessidade urgente de que sejam desenvolvidas outras formas de manifestar o descontentamento.
Manyfaces: de acordo. Algo mais substantivo do seu lado? Como especialista em gestão, que peso atribui aos componentes trabalho/gestão na produtividade das empresas? Se fôr 50%/50%, o baixo valor deste índice tem dois responsáveis. Se fôr outra a distribuição, haverá um responsável principal. Aguardo a sua contribuição com curiosidade.
Vamos fazer aqui uma aritmética simplista para chegar à % real de trabalhadores que fizeram ontem greve.
Reforço o simplista.
E o raciocínio subjacente resulta da curta hora de almoço.
A CGTP representa um terço dos trabalhadores portugueses (estou a ser simpático?). Vá lá, para facilitar 65%.
No seu seio as dúvidas quanto à oportunidade da greve fizeram-se sentir numa proporção semelhante. Portanto 65% terão aderido de corpo e alma à decisão de fazer greve. O que dá 42,25% dos trabalhadores.
Este é, para mim e globalmente, o valor máximo da adesão de ontem.
Se considerarmos que daquele valor, houve outra vez um desfasamento na adesão efectiva, na mesma ordem, temos que a greve terá obtido 27,5% de adesão. O que para mim será o valor mínimo aceitável.
Tudo isto para chegar à conslusão que, sectores público e privado juntos, a adesão terá sido de um terço dos trabalhadores.
Alguém concorda comigo?
Não é que eu esteja à espera que este malabarismo intelectual seduza alguém, mas nunca se sabe.
No caso da nossa profissão: estamos descontentes com a difamação e a perda de direitos. A greve foi considerada justa pela plataforma de sindicatos. Apesar de não se encontrar quem diga que está satisfeito com as calúnias, perseguição e intimidação deste Governo, nem toda a gente fez greve. Os que fizeram, bateram o pé. Para mim o balanço é positivo. A S.ra Ministra tremeu, e vai tremar mais se continuar assim.
É claro que muitas pessoas que não podem mesmo fazer greve, em vez de apoiarem a greve, rosnam, na esperança de ver toda a gente a trabalhar a recibos verdes, caladinho, cheio de medo, sem direitos, e a encher a barriga aos manholas que fazem carreira na golpada e na exploração. É mentalidade medíocre e invejosa.
Paciência; o Marco Paulo também é campeão de vendas de discos e não é por isso que passa a ter talento.
As cotações da greve na Bolsa do Ego são virtuais, tal como as da Bolsa de Valores.
A questão, para ter alguma sentido, poderá ser: quem ganhou com a greve e o quê, ao certo?
Andar à volta com calculos manhosos, ou pôr num dos pratos da balança o orgulho e no outro os rosnadores, os golpistas e exploradores, não me parece uma avaliação racional e objectiva.
Misturar Marco Paulo com exploração também não tem coerência interna, tanto mais que os principais consumidores do artista são gente simples do Povo, que até vota no PCP.
Resumindo e concuindo, para além das “aferições” contorcidas e ressentidas, alguém me aponta um ou dois objectivos plenamente atingidos e as respectivas consequências ao nível de recuos da política do poder?
Talvez eu não atinja as subtilezas do seu raciocínio, e o meu amigo não atinja a simplicidade do meu.
Dizia a Olinda que em 30 professores houve 7 grevistas na escola dela.
Um resultado positivo da greve, para mim, é constatar-se com clareza que toda a gente diz cobras e lagartos das provocações baixas deste Governo, mas quando toca a demonstrar descontentamento, preto no branco, vêm os medos, e em 30, há 23 que se encolhem. Em termos percentuais (como se diz agora), a relação cobras e lagartos x atitudes concretas demonstra que a percentagem de professores com tomates (como este blog) é infelizmente baixa. Paciência; cá estão os outros para compensar…
Uns encolhem-se porque lhes faz muita falta o dinheirinho, à justa para pagar as prestações. Outros encolhem-se porque têm medo de ser prejudicados na famosa “carreira”. Outros encolhem-se porque não suportam as acusações de privilegiados. Outros encolhem-se porque não querem dar a cara, e baseiam a sua livre escolha em complicadas teorias sociológicas e filosóficas que melhor se resumiríam assim: “tenho medo de fazer greve!”. As funcionárias auxiliares ganham uma anedota de ordenado, e com menos filosofia mostram mais coragem.
No estado actual do país, a corrupção campeia ao nível dos políticos e dos grandes empresários. A incompetência dos mesmos é gritante, e a negociata faz lei. O povinho baixa as orelhas e vai dando graças a Deus por ter o seu empregozinho. Se este Governo continua esta política, vai ficar tudo a recibo verde e muito caladinho. Aí não há greves mesmo! São os poderosos com a faca e o queijo na mão – como no século XIX.
Os rosnadores rosnam por muitos motivos. Rosanam por exemplo porque estão chateados. E têm que descarregar em alguém. Os filhos chegam a casa, dizem que não tiveram duas aulas e eles começam logo a rosnar contra esses malandros, que não fazem nada, que só fazem greves, que são uns calões, que nadam em privilégios e ganham fortunas. Pouco lhes importa que tal seja mentira, que os professores sejam profissionais altamente qualificados, que se fartaram de estudar, e que não ganhem tais fortunas nem tenham tais privilégios. Eles têm que descarregar em alguém! Haverá muito boa gente que pensa assim – mas que não tem razão. E os factos comprovam-no. Esqueça a comparação estúpida com o Marco Paulo, a quem não censuro a falta de talento, mas a falta de carácter.
Muitos professores não fizeram greve com medo de não serem promovidos a professores titulares/ professores mandões/ professores caciques). Assim se vê que é fácil dividir para reinar.
O h5n1 está contente com este Governo, em termos pessoais e colectivos? Acha bem a difamação que fazem da nossa profissão? Concorda com as políticas gerais?
Eu não. Por isso fiz greve.
“O que o Ministério sabe mas esconde cobardemente, de forma a virar os
Portugueses menos esclarecidos contra os que trabalham dia a dia para dar
um futuro melhor aos filhos dos outros.
“Os PROFESSORES em Portugal não são assim tão maus…”
Consulte a última versão (2006) do Education at a Glance, publicado pela
OCDE.
Se for à página 58, verá desmontada a convicção generalizada de que os
Professores portugueses passam pouco tempo na escola e que no estrangeiro
não é assim.
É apresentado no estudo o tempo de permanência na escola, onde os
Professores portugueses estão em 14º lugar (em 28 países), com tempos de
permanência superiores aos japoneses, húngaros, coreanos, espanhóis,
Gregos, italianos, finlandeses,
austríacos, franceses, dinamarqueses, luxamburgueses, checos, islandeses e
Noruegueses!
No mesmo documento de 2006 poderá verificar, na página 56, que os
Professores portugueses estão em 21º lugar (em 31
países) quanto a salários!
Na página 32 poderá verificar que, quanto a investimento na educação em
relação ao PIB, estamos num modesto 19º lugar (em 31 países) e que estamos
Em 23º lugar (em 31 países) quanto ao investimento por aluno.
E isto, o M.E. não manda publicar”.
Mas procure-a por favor.
E já agora, uma achega suplementar: será que o movimento sindical se está (ou vai) renovar ou será que vai, em nome de um regresso à pureza original, retroceder para posições e posturas de há 15-25 anos?
Eu já tenho a minha análise mais ou menos feita.
Quando tiver tempo vou ver se a passo a texto legível.
Entretanto amanhã são as comemorações do dia da Criança na minha escola.
Sábado é a vez do almoço dos 20 anos da conclusão do curso.
Domingo a exploração da Feira do Livro.
A ver vamos, dizia o cego.
Henrique Santos,
Ficamos todos de respiração suspensa, à espera que a sua maturidade venha trazer alguma luz a estes pobres simplórios que nós somos.
Diga-nos quando e onde! Por favor! Não guarde a erudição sublime e douta só para um grupo de privilegiados! Nós também queremos escutar a Palavra!!!
Os números podem não ter sido os esperados pela CGTP.
As percentagens emitidas pelo governo, tendo em conta as directivas emanadas para a contabilização de aderentes e respectivas percentagens, no caso dos professores, poderão indiciar o que se passou em muitos dos locais com flexibilidade de horários… e não são tão poucos como isso.
Não sei dizer se os números constituíram um “número” que contentasse a CGTP, ou se constitui um “número” que faça sorrir o governo.
O que sei é que durante toda a semana, anterior à greve, o governo e respectivos ministérios, se desdobraram em tentativas de intimidação e de coacção dos trabalhadores, através dos mais diferentes meios.
O que eu sei é que o governo mobilizou 6 governantes para passarem o dia a intervir, nos OCS mais mediáticos, garantindo que a greve não estava a ter adesão, que os serviços se encontravam todos em funcionamento, que o país vivia um clima de tranquilidade, chegando ao ponto, de ao fim do dia, fazer coincidir a hora da conferência de imprensa com a da CGTP (facto que não é inédito nos anais deste governo)
O que eu sei é que Vieira da Silva se sentiu na obrigação de, a partir de Bruxelas, vir garantir que Lisboa vivia uma situação de “tranquilidade”.
O que eu sei é que até a “nossa” Ministra que há muito se mantinha calada veio à Ribalta com o regaço cheio de novas medidas!
Se a greve não teria ou não teve importância, se foram poucos os aderentes, se não influiu de modo nenhum na dinâmica do país, porquê e para quê toda esta azáfama?
Se a greve não iria ter expressão porque é que demoraram quase tanto tempo a preparar o “contra-ataque”, como a CGTP a preparar a greve?
Se a greve não teve expressão porque é que passaram o dia a tentar diluir e limpar os possíveis danos?
Caro Manyfaces
O simples facto de o governo, secundado por larga parte de empresários, estar sempre a insistir na necessidade de conter os aumentos salariais porque isso afecta a produtividade do país é, para mim, leitura correcta dos antecedentes e do contexto, para uma greve – respondendo a um dos desafios de Paulo Guinote. É tempo de começar a chamar os bois pelos nomes. Enquanto estes salários continuarem a baixar, vamos continuar na senda da baixa produtividade.
Aprecio muito a sua postura de rigor.
A CGTP cumpriu com o seu papel, o governo idem, os grevistas idem, os não grevistas idem, os empresários idem.
Qual é então, o problema deste país ?
Não estará precisamente nos papéis que se espera que cada um desempenhe, sem qualquer rasgo de audácia, autonomia e independência pessoal ?
Consultem-se os estudos sobre o comportamento dos jovens-adultos, por exemplo: os trabalhadores estudantes, em portugal, representam apenas 7%, quando na Dinamarca são 37% e na Holanda 44%. Até aos 30 anos , cerca de 86% dos jovens vivem em casa dos pais.
Será só um problema socio-económico ? Não! Trata-se de um cultura de DEPENDÊNCIA, primeiro dos pais, em seguida do estado. Quem a alimenta ? As mães e os pais que votam, que querem que os filhos tenham judo, yoga, natação, ballet, equitação, futebol, hamters, cães, X-Box, carta de condução, carro, um papel numa telenovela, uma licenciatura e sarna para se coçarem.
Esta cultura elevada a orgulho nacional, transfere-se posteriormente para o acomodismo, a lamúria, o “faz-de-conta”, a incapacidade de pensar e reflectir de forma responsável e autónoma. É ver os estudantes das universidades mais preocupados com a “imagem” da sua universidade do que com o rigor e a qualidade dos cursos. São os consumidores do efémero e do produto da moda, tal como os pais os habituaram e os especialistas aconselham.
E depois falam em tomates, quando estamos a tratar de Ketchup industrial.
Será só um problema socio-económico?
Há diferenças marcantes na sorte dos jovens em Portugal e na Holanda. Porém, nem todas as diferenças foram registadas. Aos dezoito anos, o estado holandês concede um subsídio aos estudantes, suficiente para prosseguirem os seus estudos sem mais encargos para os pais. O mesmo acontece no Luxemburgo e talvez na Dinamarca. Não dá para ficar rico e quem quiser reforçar, sempre pode realizar algum trabalho, o que explica o número de trabalhadores estudantes. Não deixa de constituir uma dependência do estado.
Mais, num confronto entre estas duas sociedades, uma das quais progrediu consideravelmente na social-democracia, eu não concederia todas as benesses à Holanda. Portugal ainda apresenta um vigor nas relações familiares que desapareceu há muito na Holanda. Para lá caminhamos…
…judo, yoga, natação, ballet, equitação, futebol, hamters, cães, X-Box, carta de condução, carro…
Trata-se claramente de uma liberdade de linguagem, ou da generalização abusiva de um contexto muito específico.
H5N1, desta vez estamos praticamente de acordo, embora com diferenças de aspirações e contextos.
Mas ficamos na mesma, qual o caminho a seguir…
AFerrão, o problema é que nós estávamos – e já falo no passado – num caminho, mais ou menos ziguezagueante, que ia no sentido daquele que foi percorrido pelos países ocidentais desde o pós-guerra.
Mas tínhmaos começado, eles pararam ou inverteram a marcha.
E nós também só que ainda íamos muito cá atrás na estrada e nunca teremos hipótese de seguir até onde eles seguiram.
Culpas?
Do imobilismo do Estado Novo.
Da incapacidade dos governos pós 25 de Abril fazerem melhor do que acomodarem-se a grupos de pressão.
Quanto à leitura dos antecedentes da greve, eu discordaria num ponto: a CGTP leu mal a reacção à última greve da FPública.
Meu caro amigo, os números da última greve na FP foram – vamos lá usar o lugar comum – pouco animadores. Em relação às movimentações anteriores, notou-se um decréscimo da mobilização.
Por exemplo nas Escolas a adesão foi mesmo muito baixa, incluindo professores e funcionários.
O efeito de “confluência” e acréscimo de entusiasmo na mobilização tinha ultrapassado o seu pico.
As pessoas começaram a resignar-se.
mesmo entre os docentes.
Se essa é uma atitude errada?
Certamente que poderá ser.
Só que lidamos com pessoas e grupos.
Há que ler os momentos e não ouvir apenas as vozes dos mais entusiastas, porque esses já estão convencidosa à partida.
Há que ir à procura dos cépticos, dos que balançam, daqueles que têm receio ou dúvidas e, em vez de os criticar por assim serem, convencerem-nos a deixar de o ser.
Se é verdade que as manifestações e greves de final de 2006 foram encorajadoras, se é verdade que em 2007 o Governo continuou num caminho desfavorável para muitos trabalhadores, não é menos verdade que bastaria a alguns activistas saírem de si e irem em busca dos outros, das outras formas de pensar e agir, para perceberem que podem estar a dar um tiro no pé enorme, pois gastaram uma arma que deve ser usada com ponderação, de forma desnecessária.
No sector privado, globalmente, a desão à greve deve ter sido abaixo dos 20%.
É muito pouco.
As pessoas são o que são.
Agarram-se à rocha escorregadia enquanto podem, se sentem o mar agreste.
E estando o mar muito agreste, não querem perder a sua réstia de segurança.
Haverá que vituperá-las por isso?
Talvez mais importante seja convencê-las.
E para isso não é muito certo avançar de punho em riste.
Isso deve reservar-se para quem está por cima.
Não para quem está por baixo.
Há que ir à procura dos cépticos, dos que balançam, daqueles que têm receio ou dúvidas e, em vez de os criticar por assim serem, convencerem-nos a deixar de o ser.
Não poderia estar mais de acordo. Uma parte do desânimo que noto entre os grevista resulta de terem colocado a fasquia um pouco…alta.
As boas colheitas resultam de boas sementeiras. Veremos se os mais entusiatas conseguem vencer algumas barreiras pois desânimo é coisa que não faz muita falta.
Por outro lado, não retiro conclusóes à letra da atitude seráfica e descontraída do governo. Pareceu-me bem que representavam um papel – retirado à pressa de guiões anteriores, – falavam como personagens e não como pessoas. Pequenas mensagens conotativas que passam muitas vezes despercebidas.
Ferrão, nesse aspecto acabamos por estar de acordo com o H5N1: todos os protagonistas debitam o guião de uma novela com personagens tipificados.
Discuti a greve com várias pessoas, incluindo sindicalistas e o que notei foi que, por exemplo no caso da FENPROF, assumiram que a vitória do Mário Nogueira significava algo mais do que significou, ou seja, a vitória de um candidato nas eleições para uma estrutura sindical com algumas fracturas.
A fasquia foi colocada alta.
Não são necessários os números do Governo para analisarmos o impacto real da greve.
Chega-nos a nossa própria observação.
E não adianta recriminarmos a realidade por ser como é.
Em História – e no trabalho de pesquisa historiográfica – conheci várias pessoas que, quando os factos não cabiam nos documentos e fontes disponíveis, os martelavam até caberem.
Não faz bem o meu género.
Porque se agimos sobre uma imagem idealizada do real, por muito que sejamos relativistas quanto às possibilidades de conhecermos o real, não conseguimos grandes resultados.
Concordo com os perigos da idealização e, precisamente por isso, achei que todas as perguntas devessem ter lugar e ser encaradas de frente. Mas a fotografia do “real” estará na intersecção de muitas contribuições, que ainda espero que venham. Entretanto pude aperceber-me, com alguma surpresa, de algum desencanto, precisamente quando a mim me pareceu que a iniciativa nem correu tão mal, dadas as condições em que se desenvolveu. Pois é nestes confrontos que se tornam mais nítidos os papéis que cada um assume. A melhor forma de desvalorizar a importância de uma acção pontual é empolar o seu alcance. Ninguém está livre, quando se propõe alcançar objectivos, de encontrar escolhos no caminho. Nem o governo, que pretende espalhar tiranetes aos montes pelo país, está livre de encontrar contratempos e dificuldades nessa empreitada assim como em qualquer outra.
Uma pergunta a Paulo Guinote: recriminei em algum passo a realidade?
Uma pergunta aos sindicalistas (que não acredito que não assistam a este debate) : os desafios de Paulo Guinote não têm interesse?
não me parece muito correcto comparar os nossos salários em bruto com os de outros paises, pois por baixo do gráfico que menciona aparece a relação entre os salários dos professores e o PIB per capita, e nesse estamos em 3.º!!!
Não Ferrão, em nenhum momento recriminou a realidade.
Essa alfinetada teria outras direcções, algumas das quais nem deixam aqui opinião, mas que leio em muitos blogues mais entusiasmados com a sua própria retórica, que mimetiza a do Governo na sua parcialidade.
Para mim o problema é que houve quem “descolasse” da realidade. E isso transpareceu.
Setora, não percebi exactamente a questão…
Nenhuns dados são irrelevantes nestas situações.
Olá DA, e obrigado por me passar cartão, apesar da falta de educação do meu umbigo (nunca me adaptarei ao blasé/séc. XXI europeu). A sua observação está correcta, e ainda bem. Mas no global desse relatório confirma-se a inverdade (esta é blasé) do que esta ministra tem dito da nossa (e dela) profissão. É isso que me custa. A questão salarial não me apoquenta, pois até sou um desprendido.
Maio 31, 2007 at 8:37 am
Não creio que haja perguntas a mais nesta matéria. Todas devem ser encaradas frontalmente. A obrigação de ter ideias claras está do lado de quem se sente desconfortável com a situação.
A guerra dos números é um embuste, por isso vou tomar como bons os números do governo, treze por cento. Bem sei que acrescentaram 0,77%, para dar um ar de rigor pedante, enfim…
Se as contas forem, 87% estão satisfeitos a política laboral do governo e 13% contra, então estamos falados.
Um grevista não tem o mesmo peso que um eleitor activo, tampouco um não-grevista o mesmo peso que um abstencionista. Há um lado de empenhamento cívico muito mais pronunciado.
Subjectivamente, avalio assim: pelo factor dedicação, dou o peso 2 à disposição de um grevista, o que imediatamente coloca o impacto da greve nos 26%, aproximando-se da quota que tem permitido a formação de maiorias num ambiente morno de abstenções próximas de 40%.
Maio 31, 2007 at 9:23 am
1. Onde trabalho, numa escola, no Estoril, não dei por nada.
2. Do lado dos grevistas o desalento; do lado do governo o alento; do lados dos espectadores o bocejo.
3. A leitura dos acontecimentos continua a incidir nos manuais do sindicalismo e activismo político dos finais do Séc. XIX., quando se está na presença de uma sociedade mediática-espectacular, onde o que conta (o que aparece) é o circo, sempre com números novos e arriscados.
4. Os Professores-Doutores da Nomenklatura pró-greve não aceitam lições de ninguém. O povo trabalhador não aderiu porque é estúpido, tem medo e não tem “consciência de classe”.
5. Falta uma pergunta: Para que servem estes sindicatos que ignoram os excluídos, os imigrantes e os precários, ou seja, que se representam principalmente a si mesmos e, quanto muito, vão mitigando apenas uma parte da população (potencialmente) activa ligada ao estado?
Maio 31, 2007 at 9:54 am
Não aprecio especialmente que me coloquem palavras na boca que não proferi. Penso que há necessidade de um pouco mais de elevação no diálogo. Também não gosto especialmente de epítetos colados à testa, mas se isso dá muito prazer a alguém, posso compôr uma fotografia com todos esses rótulos. A mim não me afectam.
13 por cento (não vou mais especular com o impacto social) de grevistas é para mim uma expressão muito significativa de descontentamento. É preciso sempre entender que foram pessoas que ultrapassaram as barreiras mentais que os desaconselhavam de correr riscos. Em situações mais extremas esta questão se colocou na história recente. Muito menos de treze por cento da população assumiu o risco de se empenhar activamente na queda da ditadura.
Agora, passando ao lado estes faits divers, mais achas para a fogueira:
1) Algo poderia ter sido feito para tentar a adesão da UGT a esta greve, que eu não senti que tivesse sido feito.
2) Sinto que há uma necessidade urgente de que sejam desenvolvidas outras formas de manifestar o descontentamento.
Maio 31, 2007 at 10:44 am
Um balanço precário.
Maio 31, 2007 at 10:59 am
Manyfaces: de acordo. Algo mais substantivo do seu lado? Como especialista em gestão, que peso atribui aos componentes trabalho/gestão na produtividade das empresas? Se fôr 50%/50%, o baixo valor deste índice tem dois responsáveis. Se fôr outra a distribuição, haverá um responsável principal. Aguardo a sua contribuição com curiosidade.
Maio 31, 2007 at 12:35 pm
Vamos fazer aqui uma aritmética simplista para chegar à % real de trabalhadores que fizeram ontem greve.
Reforço o simplista.
E o raciocínio subjacente resulta da curta hora de almoço.
A CGTP representa um terço dos trabalhadores portugueses (estou a ser simpático?). Vá lá, para facilitar 65%.
No seu seio as dúvidas quanto à oportunidade da greve fizeram-se sentir numa proporção semelhante. Portanto 65% terão aderido de corpo e alma à decisão de fazer greve. O que dá 42,25% dos trabalhadores.
Este é, para mim e globalmente, o valor máximo da adesão de ontem.
Se considerarmos que daquele valor, houve outra vez um desfasamento na adesão efectiva, na mesma ordem, temos que a greve terá obtido 27,5% de adesão. O que para mim será o valor mínimo aceitável.
Tudo isto para chegar à conslusão que, sectores público e privado juntos, a adesão terá sido de um terço dos trabalhadores.
Alguém concorda comigo?
Não é que eu esteja à espera que este malabarismo intelectual seduza alguém, mas nunca se sabe.
Maio 31, 2007 at 6:45 pm
No caso da nossa profissão: estamos descontentes com a difamação e a perda de direitos. A greve foi considerada justa pela plataforma de sindicatos. Apesar de não se encontrar quem diga que está satisfeito com as calúnias, perseguição e intimidação deste Governo, nem toda a gente fez greve. Os que fizeram, bateram o pé. Para mim o balanço é positivo. A S.ra Ministra tremeu, e vai tremar mais se continuar assim.
É claro que muitas pessoas que não podem mesmo fazer greve, em vez de apoiarem a greve, rosnam, na esperança de ver toda a gente a trabalhar a recibos verdes, caladinho, cheio de medo, sem direitos, e a encher a barriga aos manholas que fazem carreira na golpada e na exploração. É mentalidade medíocre e invejosa.
Paciência; o Marco Paulo também é campeão de vendas de discos e não é por isso que passa a ter talento.
Maio 31, 2007 at 6:55 pm
Caro A. Ferrão,
Não tenho dúvidas em afirmar que a nossa baixa qualidade da gestão é uma das grandes causas para a baixa produtividade (já abordei noutro post).
Maio 31, 2007 at 6:57 pm
27,5%
Guinote deu uma volta completamente diferente, mas o seu número não é muito diferente do meu mirambulante. Considero um bom resultado.
Maio 31, 2007 at 8:15 pm
Em 30 professores houve 7 grevistas.
Acima da média.
Nos funcionários a adesão foi maior mas a escola manteve-se aberta.
Maio 31, 2007 at 8:20 pm
António Ferrão
Gostei da sua conclusão:
“Muito menos de treze por cento da população assumiu o risco de se empenhar activamente na queda da ditadura.”
Maio 31, 2007 at 8:36 pm
As cotações da greve na Bolsa do Ego são virtuais, tal como as da Bolsa de Valores.
A questão, para ter alguma sentido, poderá ser: quem ganhou com a greve e o quê, ao certo?
Andar à volta com calculos manhosos, ou pôr num dos pratos da balança o orgulho e no outro os rosnadores, os golpistas e exploradores, não me parece uma avaliação racional e objectiva.
Misturar Marco Paulo com exploração também não tem coerência interna, tanto mais que os principais consumidores do artista são gente simples do Povo, que até vota no PCP.
Resumindo e concuindo, para além das “aferições” contorcidas e ressentidas, alguém me aponta um ou dois objectivos plenamente atingidos e as respectivas consequências ao nível de recuos da política do poder?
Maio 31, 2007 at 9:51 pm
Os meus cálculos são assumidamente manhosos, a qualificação não me afecta o ego.
Algumas das questões que coloca são pertinentes, mas seria possível retirar a fixação no PCP de todas as prosas que escreve?
A inclusão da sigla e da diatribe em cada post é mesmo uma imagem de marca?
Maio 31, 2007 at 10:05 pm
h5n1, meu amigo
Talvez eu não atinja as subtilezas do seu raciocínio, e o meu amigo não atinja a simplicidade do meu.
Dizia a Olinda que em 30 professores houve 7 grevistas na escola dela.
Um resultado positivo da greve, para mim, é constatar-se com clareza que toda a gente diz cobras e lagartos das provocações baixas deste Governo, mas quando toca a demonstrar descontentamento, preto no branco, vêm os medos, e em 30, há 23 que se encolhem. Em termos percentuais (como se diz agora), a relação cobras e lagartos x atitudes concretas demonstra que a percentagem de professores com tomates (como este blog) é infelizmente baixa. Paciência; cá estão os outros para compensar…
Uns encolhem-se porque lhes faz muita falta o dinheirinho, à justa para pagar as prestações. Outros encolhem-se porque têm medo de ser prejudicados na famosa “carreira”. Outros encolhem-se porque não suportam as acusações de privilegiados. Outros encolhem-se porque não querem dar a cara, e baseiam a sua livre escolha em complicadas teorias sociológicas e filosóficas que melhor se resumiríam assim: “tenho medo de fazer greve!”. As funcionárias auxiliares ganham uma anedota de ordenado, e com menos filosofia mostram mais coragem.
No estado actual do país, a corrupção campeia ao nível dos políticos e dos grandes empresários. A incompetência dos mesmos é gritante, e a negociata faz lei. O povinho baixa as orelhas e vai dando graças a Deus por ter o seu empregozinho. Se este Governo continua esta política, vai ficar tudo a recibo verde e muito caladinho. Aí não há greves mesmo! São os poderosos com a faca e o queijo na mão – como no século XIX.
Os rosnadores rosnam por muitos motivos. Rosanam por exemplo porque estão chateados. E têm que descarregar em alguém. Os filhos chegam a casa, dizem que não tiveram duas aulas e eles começam logo a rosnar contra esses malandros, que não fazem nada, que só fazem greves, que são uns calões, que nadam em privilégios e ganham fortunas. Pouco lhes importa que tal seja mentira, que os professores sejam profissionais altamente qualificados, que se fartaram de estudar, e que não ganhem tais fortunas nem tenham tais privilégios. Eles têm que descarregar em alguém! Haverá muito boa gente que pensa assim – mas que não tem razão. E os factos comprovam-no. Esqueça a comparação estúpida com o Marco Paulo, a quem não censuro a falta de talento, mas a falta de carácter.
Muitos professores não fizeram greve com medo de não serem promovidos a professores titulares/ professores mandões/ professores caciques). Assim se vê que é fácil dividir para reinar.
O h5n1 está contente com este Governo, em termos pessoais e colectivos? Acha bem a difamação que fazem da nossa profissão? Concorda com as políticas gerais?
Eu não. Por isso fiz greve.
Se a greve é um mau meio, então qual é o bom?
Maio 31, 2007 at 10:11 pm
«Relatório da OCDE sobre Ensino».
“O que o Ministério sabe mas esconde cobardemente, de forma a virar os
Portugueses menos esclarecidos contra os que trabalham dia a dia para dar
um futuro melhor aos filhos dos outros.
“Os PROFESSORES em Portugal não são assim tão maus…”
Consulte a última versão (2006) do Education at a Glance, publicado pela
OCDE.
Em…
http://www.oecd.org/dataoecd/44/35/37376068.pdf
Se for à página 58, verá desmontada a convicção generalizada de que os
Professores portugueses passam pouco tempo na escola e que no estrangeiro
não é assim.
É apresentado no estudo o tempo de permanência na escola, onde os
Professores portugueses estão em 14º lugar (em 28 países), com tempos de
permanência superiores aos japoneses, húngaros, coreanos, espanhóis,
Gregos, italianos, finlandeses,
austríacos, franceses, dinamarqueses, luxamburgueses, checos, islandeses e
Noruegueses!
No mesmo documento de 2006 poderá verificar, na página 56, que os
Professores portugueses estão em 21º lugar (em 31
países) quanto a salários!
Na página 32 poderá verificar que, quanto a investimento na educação em
relação ao PIB, estamos num modesto 19º lugar (em 31 países) e que estamos
Em 23º lugar (em 31 países) quanto ao investimento por aluno.
E isto, o M.E. não manda publicar”.
Maio 31, 2007 at 10:15 pm
Caro Paulo
as suas perguntas merecem uma resposta madura. Por falta de tempo não a darei agora nem aqui. cumprimentos.
Maio 31, 2007 at 10:23 pm
Mas procure-a por favor.
E já agora, uma achega suplementar: será que o movimento sindical se está (ou vai) renovar ou será que vai, em nome de um regresso à pureza original, retroceder para posições e posturas de há 15-25 anos?
Eu já tenho a minha análise mais ou menos feita.
Quando tiver tempo vou ver se a passo a texto legível.
Entretanto amanhã são as comemorações do dia da Criança na minha escola.
Sábado é a vez do almoço dos 20 anos da conclusão do curso.
Domingo a exploração da Feira do Livro.
A ver vamos, dizia o cego.
Maio 31, 2007 at 10:34 pm
Henrique Santos,
Ficamos todos de respiração suspensa, à espera que a sua maturidade venha trazer alguma luz a estes pobres simplórios que nós somos.
Diga-nos quando e onde! Por favor! Não guarde a erudição sublime e douta só para um grupo de privilegiados! Nós também queremos escutar a Palavra!!!
Maio 31, 2007 at 11:02 pm
Os números podem não ter sido os esperados pela CGTP.
As percentagens emitidas pelo governo, tendo em conta as directivas emanadas para a contabilização de aderentes e respectivas percentagens, no caso dos professores, poderão indiciar o que se passou em muitos dos locais com flexibilidade de horários… e não são tão poucos como isso.
Não sei dizer se os números constituíram um “número” que contentasse a CGTP, ou se constitui um “número” que faça sorrir o governo.
O que sei é que durante toda a semana, anterior à greve, o governo e respectivos ministérios, se desdobraram em tentativas de intimidação e de coacção dos trabalhadores, através dos mais diferentes meios.
O que eu sei é que o governo mobilizou 6 governantes para passarem o dia a intervir, nos OCS mais mediáticos, garantindo que a greve não estava a ter adesão, que os serviços se encontravam todos em funcionamento, que o país vivia um clima de tranquilidade, chegando ao ponto, de ao fim do dia, fazer coincidir a hora da conferência de imprensa com a da CGTP (facto que não é inédito nos anais deste governo)
O que eu sei é que Vieira da Silva se sentiu na obrigação de, a partir de Bruxelas, vir garantir que Lisboa vivia uma situação de “tranquilidade”.
O que eu sei é que até a “nossa” Ministra que há muito se mantinha calada veio à Ribalta com o regaço cheio de novas medidas!
Se a greve não teria ou não teve importância, se foram poucos os aderentes, se não influiu de modo nenhum na dinâmica do país, porquê e para quê toda esta azáfama?
Se a greve não iria ter expressão porque é que demoraram quase tanto tempo a preparar o “contra-ataque”, como a CGTP a preparar a greve?
Se a greve não teve expressão porque é que passaram o dia a tentar diluir e limpar os possíveis danos?
Maio 31, 2007 at 11:06 pm
Caro Manyfaces
O simples facto de o governo, secundado por larga parte de empresários, estar sempre a insistir na necessidade de conter os aumentos salariais porque isso afecta a produtividade do país é, para mim, leitura correcta dos antecedentes e do contexto, para uma greve – respondendo a um dos desafios de Paulo Guinote. É tempo de começar a chamar os bois pelos nomes. Enquanto estes salários continuarem a baixar, vamos continuar na senda da baixa produtividade.
Aprecio muito a sua postura de rigor.
Maio 31, 2007 at 11:33 pm
Sei de agrupamentos que andaram a telefonar aos professores em falta para saber se estavam em greve.
Alguém confirma que os sindicatos avalizaram a substituição dos professores em greve, informação que me deram hoje na escola?
E agora, desculpem a minha ignorância, mas onde está a produtividade do país?
Cada vez em mais famílias da zona da minha escola – subúrbio de Lisboa – os pais estão a emigrar.
Junho 1, 2007 at 7:54 am
A CGTP cumpriu com o seu papel, o governo idem, os grevistas idem, os não grevistas idem, os empresários idem.
Qual é então, o problema deste país ?
Não estará precisamente nos papéis que se espera que cada um desempenhe, sem qualquer rasgo de audácia, autonomia e independência pessoal ?
Consultem-se os estudos sobre o comportamento dos jovens-adultos, por exemplo: os trabalhadores estudantes, em portugal, representam apenas 7%, quando na Dinamarca são 37% e na Holanda 44%. Até aos 30 anos , cerca de 86% dos jovens vivem em casa dos pais.
Será só um problema socio-económico ? Não! Trata-se de um cultura de DEPENDÊNCIA, primeiro dos pais, em seguida do estado. Quem a alimenta ? As mães e os pais que votam, que querem que os filhos tenham judo, yoga, natação, ballet, equitação, futebol, hamters, cães, X-Box, carta de condução, carro, um papel numa telenovela, uma licenciatura e sarna para se coçarem.
Esta cultura elevada a orgulho nacional, transfere-se posteriormente para o acomodismo, a lamúria, o “faz-de-conta”, a incapacidade de pensar e reflectir de forma responsável e autónoma. É ver os estudantes das universidades mais preocupados com a “imagem” da sua universidade do que com o rigor e a qualidade dos cursos. São os consumidores do efémero e do produto da moda, tal como os pais os habituaram e os especialistas aconselham.
E depois falam em tomates, quando estamos a tratar de Ketchup industrial.
Junho 1, 2007 at 8:10 am
Será só um problema socio-económico?
Há diferenças marcantes na sorte dos jovens em Portugal e na Holanda. Porém, nem todas as diferenças foram registadas. Aos dezoito anos, o estado holandês concede um subsídio aos estudantes, suficiente para prosseguirem os seus estudos sem mais encargos para os pais. O mesmo acontece no Luxemburgo e talvez na Dinamarca. Não dá para ficar rico e quem quiser reforçar, sempre pode realizar algum trabalho, o que explica o número de trabalhadores estudantes. Não deixa de constituir uma dependência do estado.
Mais, num confronto entre estas duas sociedades, uma das quais progrediu consideravelmente na social-democracia, eu não concederia todas as benesses à Holanda. Portugal ainda apresenta um vigor nas relações familiares que desapareceu há muito na Holanda. Para lá caminhamos…
Junho 1, 2007 at 8:15 am
…judo, yoga, natação, ballet, equitação, futebol, hamters, cães, X-Box, carta de condução, carro…
Trata-se claramente de uma liberdade de linguagem, ou da generalização abusiva de um contexto muito específico.
Junho 1, 2007 at 8:19 am
H5N1, desta vez estamos praticamente de acordo, embora com diferenças de aspirações e contextos.
Mas ficamos na mesma, qual o caminho a seguir…
AFerrão, o problema é que nós estávamos – e já falo no passado – num caminho, mais ou menos ziguezagueante, que ia no sentido daquele que foi percorrido pelos países ocidentais desde o pós-guerra.
Mas tínhmaos começado, eles pararam ou inverteram a marcha.
E nós também só que ainda íamos muito cá atrás na estrada e nunca teremos hipótese de seguir até onde eles seguiram.
Culpas?
Do imobilismo do Estado Novo.
Da incapacidade dos governos pós 25 de Abril fazerem melhor do que acomodarem-se a grupos de pressão.
Quanto à leitura dos antecedentes da greve, eu discordaria num ponto: a CGTP leu mal a reacção à última greve da FPública.
Junho 1, 2007 at 9:56 am
…CGTP leu mal a reacção à última greve da FPública…
Sou todo ouvidos.
Junho 1, 2007 at 10:29 am
Meu caro amigo, os números da última greve na FP foram – vamos lá usar o lugar comum – pouco animadores. Em relação às movimentações anteriores, notou-se um decréscimo da mobilização.
Por exemplo nas Escolas a adesão foi mesmo muito baixa, incluindo professores e funcionários.
O efeito de “confluência” e acréscimo de entusiasmo na mobilização tinha ultrapassado o seu pico.
As pessoas começaram a resignar-se.
mesmo entre os docentes.
Se essa é uma atitude errada?
Certamente que poderá ser.
Só que lidamos com pessoas e grupos.
Há que ler os momentos e não ouvir apenas as vozes dos mais entusiastas, porque esses já estão convencidosa à partida.
Há que ir à procura dos cépticos, dos que balançam, daqueles que têm receio ou dúvidas e, em vez de os criticar por assim serem, convencerem-nos a deixar de o ser.
Se é verdade que as manifestações e greves de final de 2006 foram encorajadoras, se é verdade que em 2007 o Governo continuou num caminho desfavorável para muitos trabalhadores, não é menos verdade que bastaria a alguns activistas saírem de si e irem em busca dos outros, das outras formas de pensar e agir, para perceberem que podem estar a dar um tiro no pé enorme, pois gastaram uma arma que deve ser usada com ponderação, de forma desnecessária.
No sector privado, globalmente, a desão à greve deve ter sido abaixo dos 20%.
É muito pouco.
As pessoas são o que são.
Agarram-se à rocha escorregadia enquanto podem, se sentem o mar agreste.
E estando o mar muito agreste, não querem perder a sua réstia de segurança.
Haverá que vituperá-las por isso?
Talvez mais importante seja convencê-las.
E para isso não é muito certo avançar de punho em riste.
Isso deve reservar-se para quem está por cima.
Não para quem está por baixo.
Junho 1, 2007 at 11:09 am
Há que ir à procura dos cépticos, dos que balançam, daqueles que têm receio ou dúvidas e, em vez de os criticar por assim serem, convencerem-nos a deixar de o ser.
Não poderia estar mais de acordo. Uma parte do desânimo que noto entre os grevista resulta de terem colocado a fasquia um pouco…alta.
As boas colheitas resultam de boas sementeiras. Veremos se os mais entusiatas conseguem vencer algumas barreiras pois desânimo é coisa que não faz muita falta.
Por outro lado, não retiro conclusóes à letra da atitude seráfica e descontraída do governo. Pareceu-me bem que representavam um papel – retirado à pressa de guiões anteriores, – falavam como personagens e não como pessoas. Pequenas mensagens conotativas que passam muitas vezes despercebidas.
Junho 1, 2007 at 1:39 pm
Ferrão, nesse aspecto acabamos por estar de acordo com o H5N1: todos os protagonistas debitam o guião de uma novela com personagens tipificados.
Discuti a greve com várias pessoas, incluindo sindicalistas e o que notei foi que, por exemplo no caso da FENPROF, assumiram que a vitória do Mário Nogueira significava algo mais do que significou, ou seja, a vitória de um candidato nas eleições para uma estrutura sindical com algumas fracturas.
A fasquia foi colocada alta.
Não são necessários os números do Governo para analisarmos o impacto real da greve.
Chega-nos a nossa própria observação.
E não adianta recriminarmos a realidade por ser como é.
Em História – e no trabalho de pesquisa historiográfica – conheci várias pessoas que, quando os factos não cabiam nos documentos e fontes disponíveis, os martelavam até caberem.
Não faz bem o meu género.
Porque se agimos sobre uma imagem idealizada do real, por muito que sejamos relativistas quanto às possibilidades de conhecermos o real, não conseguimos grandes resultados.
Junho 1, 2007 at 2:07 pm
Concordo com os perigos da idealização e, precisamente por isso, achei que todas as perguntas devessem ter lugar e ser encaradas de frente. Mas a fotografia do “real” estará na intersecção de muitas contribuições, que ainda espero que venham. Entretanto pude aperceber-me, com alguma surpresa, de algum desencanto, precisamente quando a mim me pareceu que a iniciativa nem correu tão mal, dadas as condições em que se desenvolveu. Pois é nestes confrontos que se tornam mais nítidos os papéis que cada um assume. A melhor forma de desvalorizar a importância de uma acção pontual é empolar o seu alcance. Ninguém está livre, quando se propõe alcançar objectivos, de encontrar escolhos no caminho. Nem o governo, que pretende espalhar tiranetes aos montes pelo país, está livre de encontrar contratempos e dificuldades nessa empreitada assim como em qualquer outra.
Uma pergunta a Paulo Guinote: recriminei em algum passo a realidade?
Uma pergunta aos sindicalistas (que não acredito que não assistam a este debate) : os desafios de Paulo Guinote não têm interesse?
Junho 1, 2007 at 2:15 pm
Como são os números da vitória do Mário Nogueira em que assentam essas análises dos sindicalistas? Conhece os números?
Ou será um dado irrelevante?
Mesmo que do sindicato só faça parte a direcção, está como tal registado, logo existe…
Junho 1, 2007 at 2:21 pm
Para o Professor X,
não me parece muito correcto comparar os nossos salários em bruto com os de outros paises, pois por baixo do gráfico que menciona aparece a relação entre os salários dos professores e o PIB per capita, e nesse estamos em 3.º!!!
Junho 1, 2007 at 2:33 pm
Não Ferrão, em nenhum momento recriminou a realidade.
Essa alfinetada teria outras direcções, algumas das quais nem deixam aqui opinião, mas que leio em muitos blogues mais entusiasmados com a sua própria retórica, que mimetiza a do Governo na sua parcialidade.
Para mim o problema é que houve quem “descolasse” da realidade. E isso transpareceu.
Setora, não percebi exactamente a questão…
Nenhuns dados são irrelevantes nestas situações.
Junho 2, 2007 at 1:38 pm
Olá DA, e obrigado por me passar cartão, apesar da falta de educação do meu umbigo (nunca me adaptarei ao blasé/séc. XXI europeu). A sua observação está correcta, e ainda bem. Mas no global desse relatório confirma-se a inverdade (esta é blasé) do que esta ministra tem dito da nossa (e dela) profissão. É isso que me custa. A questão salarial não me apoquenta, pois até sou um desprendido.