jgil.jpgFinalmente. Lá comprei a Visão na papelaria de serviço e acedi ao texto de José Gil que tanto queria ler (e já agora, lá por dentro parece que se respira um clima agreste para Sócrates, ao fim de dois anos de alinhamento estratégico da orientação editorial). A Edimpresa vai mandar-me uma nova edição, as só deve chegar quando calhar e eu tinha pressa. O ridículo é que me deixaram na caixa de correio, hoje pela manhã, uma Visão endereçada a outra pessoa da minha urbanização que mora no nº 22 de uma rua completamente diferente e nem sequer contígua, enquanto eu moro no 5. E tenho o nome bem à vista. Mas isso não interessa nada.

Fica aqui a imagem do artigo para quem o quiser ler na íntegra (é só clicarem na imagem), com um destaque que subscrevo aplaudindo de forma entusiástica, embora ainda acredite que a coisa se venha a inscrever:

Quando um pai acusa o filho injustamente e o castiga em seguida por ele protestar acabando por o calar (domar), este interioriza a primeira acusação com a aceitação da segunda. Obedecerá dali em diante voluntariamente sem saber porquê, apenas porque é uma ordem. Assim se incorpora inconscientemente medo e submissão. Porque a questão do currículo do primeiro-ministro foi enterrada sem ter sido esclarecida (quando o que stava em jogo era a autoridade moral de alguém que quer criar uma nova moralidade e racionalidade nos comportamentos dos portugueses), não houve inscrição, nada sucedeu, e o (pouco) protesto que se levantou foi abafado. Duplo-abafamento que cria mais obediência irracional e passiva. Não é assim que se fomentam espíritos livres. À força de não inscrever em nome da vontade de inscrição, à força de segregar mais obediência quando se diz querr mais criatividade e inovação, de produzir mais confusão, irracionalidade em nome da racionalidade da modernização, esquece-se que só existe invenção, inovação, produção criativa deixando margem para o imprevisível, o inavaliável, a irrupção da singularidade.

Aqui ficam inscritos na perfeição os paradoxos da hipocrisia deste governo socrático, baseado na aparência do movimento e da acção e na exigência da obediência acrítica - que tem um enorme paroxismo na área da Educação, área sensível nesta ordem discursiva da modernidade e da inovação e qualificação. E se aflora a contradição não resolvida em portugal há muito entre medo e respeito, submissão forçada e apática e adesão voluntária e activa.

Sendo que a margem da singularidade é, apesar de pouco, aquilo que nos resta para combatermos as tentações totalitárias em jogo. As mais evidentes, mas também as que, em nome da coerência do combate, se exercem em sentido contrário.

E, no meu cso, há muito que margem da singularidade é a única saída que encontro para combater o carneirismo e o automatismo. E o medo que se quer reinscrever (ou apenas reanimar?) na nossa mentalidade colectiva e igualmente na mentalidade individual de cada um de nós, incutindo-nos o medo se nos singularizarmos, assim nos tornando um alvo mais fácil para os novos guardiães do regime. Porque passamos a ser um pontinho colorido no meio do cinzentismo. Como José Gil, com as devidas distâncias salvaguardadas e imodéstias à parte.