É um projecto que me foi nascendo no espírito ao longo dos últimos meses e que, mesmo não sendo profundamente original, tem neste momento uma acuidade maior do que há 2 ou 3 anos: estudar de que modo o poder político se relacionou coma docência nos últimos 150 anos, desde a Monarquia Liberal até ao Centralismo Democrático actual.
Se sempre fui pouco adepto das teorias da conspiração em torno da Educação, por encontrar nela um potencial emancipatório capaz de contrariar a sua utilização como instrumento ideológico do Estado (ou de outros interesses), começo neste momento a balançar em algumas das minhas convicções perante o que vou vendo e experimentando.
Mais do que uma mera proletarização da docência, pela restrição das suas aspirações materiais a ascender de forma consolidada a um estatuto de classe média remediada, está actualmente em decurso um movimento de reforma da Educação que, na sua essência e ao contrário do que ocorreu em outros períodos, passa principalmente por “reconfigurar” a função docente desde a sua formação até ao seu exercício diário.
Não considero que isto seja uma consequência linear de uma qualquer opção por uma política estritamente neoliberal. Acho que está para além dessa leitura, que acho demasiado simplista (desculpem-me alguns dos leitores regulares) e, por isso mesmo, mais fácil de afastar. Acho que o que se passa é, com alguns pontos de contacto com o que aconteceu nos anos 10 e 30 do século XX, uma investida por parte do Estado para tornar os docentes uma espécie de prolongamento acrítico da sua acção formatadora da sociedade no sentido de a fazer aderir a um determinado modelo de governação.
A principal diferença é que nesses tempos da I República e do Estado Novo no seu período de maior viço pretendia-se investir os professores num papel de doutrinadores dos seus alunos com um forte cunho ideológico e para tal, apesar de alguma pauperização salarial, investiu-se em contrapartida numa tentativa de valorizar o papel e dignidade social da classe docente. O velho pobrezinho mas honrado e, por tabela, respeitado. O estatuto material de professor poderia não ser invejável mas a sua imagem social era valorizada pelos regimes que o pretendiam apresentar como uma figura modelar para a sociedade. Podia não dar para comprar bife todas as semanas, mas bem ou mal aconchegava um bocadinho o ego.
Agora o que existe é manifestamente diferente em dois pontos: por um lado existe uma clara preocupação por diminuir perante a opinião pública a relevância social dos professores, apresentando-os como meros executores de políticas que os transcendem e que eles não têm o direito de contestar ou criticar ou, pior, como responsáveis pelo fracasso dessas mesmas políticas. Por outro, existe o investimento numa desqualificação da formação dos docentes não no sentido de a preencher com uma mensagem de forte matriz ideológica (como fizeram, a seu tempo, republicanos e salazaristas) mas exactamente de a esvaziar de todo o tipo de conteúdo desse tipo, muito em especial de tudo o que possa fazer com que os próprios docentes sejam capazes de tomar uma posição ideológica clara, seja ela qual for, e muito menos de agirem enquanto grupo profissional consciente de ter um estatuto próprio e uma identidade específica. Mais do que querer que os professores passem a doutrinar os alunos, agora pretende-se doutrinar – “desdoutrinado” – os próprios professores ao esvaziar a sua própria formação.
Sei que aqui entro – embora ressalvando alguma reserva mental – por territórios muito próximos de diversas teorias críticas e conspirativas sobre a instrumentalização da Educação por um aparato de interesses político-económicos que acenam com o bicho-papão do Neoliberalismo como causa de tudo. Só que, como já disse, acho que a investida está para além disso e o que se pretende é mesmo a ANOMIA das “massas” em nome da Democracia, para cercear aspirações e contestações ao modelo político apresentado como único possível e apesar de imperfeito, pilhando indecorosamente o legado de Churchill, o melhor de todos os possíveis.
Nos próximos tempos procurarei aprofundar melhor estas ideias, tanto na sua dimensão presente, como no que representam de realmente novo na relação histórica entre poder político e docência. Mas, como já acima escrevi, a minha visão está longe de ser ortodoxa, seja analisada pela destra ou pela canhota.
Março 13, 2007 at 12:43 pm
“muito em especial de tudo o que possa fazer com que os próprios docentes sejam capazes de tomar uma posição ideológica clara, seja ela qual for….
Mais do que querer que os professores passem a doutrinar os alunos, agora pretende-se doutrinar – “desdoutrinado” – os próprios professores”
Se desdoutrinar os Professores significa esquecer as teorias da educação prevalencentes nos últimos 30 anos, então vamos a isso… A ideologia ou doutrina associada à educação serve de pouco (aos educandos). Foi usada por republicanos e ditadores para imporem sua agenda política e mais recentemente por teóricos da educação e sociólogos para imporem a sua agenda social pós-moderna.
As duas grandes questões da educação: o que ensinar e como, foram sempre contaminadas por políticos e sociólogos que viram na educação um instrumento ao serviço das suas agendas. Hoje em dia é saudável que a educação seja contaminada mas por outro virus: o do pragmatismo. E se isso passa por desdoutrinar a educação, pois que seja…
Março 13, 2007 at 12:49 pm
Pela destra ou pela canhota tanto faz. As frequentes referências ao neoliberalismo não devem ser vistas como a adesão a qualquer projecto social claramente definido. Antes de os professores começarem a sofrer as consequências de serem portadores de conhecimento, logo, potencialmente perigosos pelo seu poder emancipatório intrínseco (subscrevo interiamente a tese), já os governos tinham abdicado de cumprir os seus mandatos eleitorais (sob a desculpa da desideologização da sociedade). Limitam-se a dar força jurídica interna, principalmente quando se encontram a situação de maioria absoluta, a textos elaborados em gabinetes de instâncias internacionais (governos sombra), necessariamente desligados da realidade concreta de cada país, muitas vezes em contraciclo com o que o bem senso da gestão aconselharia. Se esta atitude demissionista origina tensões sociais, há que aliviar a carga. Embrutecer é a ordem. Pagamos o canal público para ele nos devolver o favor dos esclarecimentos da vidente Maia, para nos auto-amequinharmos nas nossas capacidades de realização consciente, para continuarmos brutos. Talvez seja melhor então, se a opção for garantir os rendimentos, começar a estudar astrologia.
Março 13, 2007 at 1:58 pm
Aconselho a consulta dos manuais de Filosofia do 10º ano…
Março 13, 2007 at 2:13 pm
Artigo interessante sem dúvida. Mas recomendo ao Paulo Guinote uma leitura atenta do programa da disciplina “Ciência Política”. (pode encontrá-lo em: http://www.dgidc.min-edu.pt/programs/prog_hom/ProgCienciaPolitica.pdf). Se esta “coisa” não for uma descarada apologia do “neoliberalismo” então não sei o que seja. Falo disso, por estar a leccionar a dita cuja disciplina. Por outro lado é ou não verdade que o neoliberalismo subentende uma verdadeira anomia da sociedade (reveja-se Lipovetsky, “a era do vazio”)? Cada vez mais se pretende mergulhar a sociedade numa atitude de consumismo desenfreado, não lhe dando tempo para pensar no que quer que seja a não ser na irrefutável lógica do seu próprio umbigo (individual)? Onde param os valores? (e repare-se que não falo dos valores tradicionais, ou arriscava-me a cair num neo-conservadorismo em quase tudo muito semelhante ao neoliberalismo).
Isto dá pano para mangas e perneiras, mas pelo menos neste blog vai-se desopilando a mente e dando largas a uma contida vontade de “bater em alguém”
Março 13, 2007 at 8:27 pm
MFaces, a desdoutrinação vejo-a mais de outra forma, como o esvaziamento da formação dos professores de tudo aquilo que lhes permita ver para além dos limites exactamente dessas doutrinas que têm dominado as tais “teorias da educação”.
Limitando o ensino da História a professores de História ou de Português a professores de Português, e dando-lhes essa formação em dose muito escassa apenas em cima das tais teorias, está-se a criar um docente que não consegue ver para além da docência, o que é uma forma de o reduzir intelectualmente e limitar a sua capacidade crítica.
Concordo com o Aferrão e o FTrindade em boa parte do diagnóstico, e em especial a leitura da Era do Vazio há quase 20 anos (ainda marcava a data da compra e esta diz-me que foi em 24/Jan/89) foi extremamente estimulante.
A única questão positiva é que 20 anos depois ainda está ctual, o que significa que a neutralização total dos indivíduos é um processo bem mais complicado do que podria parecer.
Março 13, 2007 at 10:27 pm
Bom, não sendo apologista da violência, confesso que também não aprecio vontades contidas (excepto as boas
). Assim, sugiro uma investida da luva branca (ou não, dependendo da habilidade esgrimática ou pontaria de cada qual). Eu acho que vou pela luva branca …
Março 13, 2007 at 10:56 pm
Ao contrário de ti, sempre achei que o sistema educativo era um veículo da ideologia e das concepções políticas do estado. Não como doutrinador, isto é, não como disseminador das ideias políticas propriamente ditas (antes pelo contrário… passa pelo apolitismo exacerbado), mas pela forma como se desenvolvem os curricula, não só ao nível dos ensinos básico/secundário, mas também ao nível da formação de professores. É nestes contextos que se encontram as influências e as “manipulações” ideológicas. É aqui que se lavra o campo para a plantação das sementes. Não tanto pela transmissão de ideias, mais pela falta dessa transmissão e muito pelo inculcar de comportamentos e atitudes consentâneas com os objectivos de determinadas ideologias. Temos, por exemplo, a competição desenfreada que se vem implementando, de há uns dez anos para cá, na corrida à vaga para o ensino superior, à vaga para a colocação. É o objectivo que vai condicionar uma série de formas de estar quotidianas, que vai determinar uma “nova” forma de sociedade, não é a transmissão da ideologia vigente per si. Outro exemplo, a diminuição e a dispersão sistemáticas, quase com a mesma temporalidade do exemplo anterior, dos conteúdos da história e da filosofia, trocando-os por uma formação cívica ou por educação para a cidadania sem conteúdo, portanto à mercê das “vontades do momento”. Também aqui, o problema não está na transmissão de ideologias… está precisamente na sua falta. A coarctação das disciplinas que possam contribuir para o desenvolvimento do pensamento crítico, com a desculpa da necessidade das aprendizagens científicas, como se fosse possível aprendê-las na sua plenitude se o pensamento primar pelo acríticismo. Temos, ainda, elaboração dos manuais onde continuamos a encontrar: a transmissão de estereótipos, tais como o da separação de funções masculina e feminina; a dicotomia corpo/espírito; a análise de realidades “pimba” como textos do big brother, alegando que são situações do real, etc.
Que me lembre, nunca ideologias políticas foram transmitidas no nosso sistema de ensino. Mesmo no tempo da “outra senhora” a gestão do conhecimento (conhecimento global como forma de saber e de estar em sociedade) foi feita sempre feita pela gestão dos curricula, dos manuais e pelo condicionamento de comportamentos. A diferença era feita pela postura e “insinuações” de alguns professores “politizados”. Sorte a minha que tive alguns desses, quer no liceu, quer enquanto me formei.
Março 13, 2007 at 10:58 pm
Meu caro Paulo
estou em total acordo com a sua tese. Desde o início das propostas de alteração do estatuto da carreira docente que me pareceu que havia dois objectivos – poupar no orçamento e controlar os professores – e francamente não sei qual dos dois é mais importante para quem tem as rédeas do poder. De qualquer modo, circunstancialmente os dois objectivos estão ligados: controlando politica, ideologicamente, mentalmente, pedagogicamente, os professores é meio passo para conseguir rebaixar o estatuto material destes; e vice versa.
Quanto ao neoliberalismo em todas as suas vertentes, ele está aí, é a ideologia de base de quase todas as reformas e está a orientar aqueles que, há primeira vista, não deveriam fazer dele o seu ideário. Exemplos entram-nos pelos olhos dentro. O neoliberalismo também já saiu há décadas da fase da conspiração (verdadeira até aos fins dos anos 60): o Hayek e o Milton (recentemente) até já faleceram.
Março 13, 2007 at 10:59 pm
Errata: como se fosse possível apreendê-las na sua plenitude se o pensamento primar pelo acríticismo.
aprrendê-las, em vez de aprendê-las
Março 13, 2007 at 11:13 pm
Acrescento, ainda ao que disse anteriormente, a permanente desculpabilização de atitudes, comportamentos, insucessos das crianças/jovens, contribuindo para uma infantilização cada vez maior, para a ausência de um autocriticismo, para a procura constante de um responsável exterior, para um conceito do sentimento de que tudo lhes é devido. Tudo isto conduz a um terreno fértil para a criação de meia dúzia de fura-vidas a qualquer custo, por um lado e dos socialmente adaptados (a maioria) por outro. E tudo isto “agindo apoliticamente”.
Março 14, 2007 at 9:10 am
Maria, por diversas razões (origem social, carreira escolar sempre nas turmas “dos fundos”, experiências académicas “interessantes”, etc), sempre senti a sedução da teorias da reprodução social e de controle ideológico por via da Educação.
Mas, exactamente por sentir essa sedução e pensar que é possível contrariá-la e utilizar esses mecanismos implícitos e explícitos de controle contra o próprio sistema, sempre preferi encarar a Educação com moderado pessimismo (ou será optimismo) e acreditar que as sementes da contestação e crítica que permite são tão importantes como as “outras”.
Só que essas sementes dependem muito dos indivíduos e dos seus interesses e motivações (ou paixões, na terminologia de um liberal inteligente como Hirschman).
E o que me preocupa agora é reparar que esses interesses e paixões cada vez são mais superficiais, fúteis e voláteis. A persistência, em particular, parece ter desaparecido e o que não é conseguido com facilidade e imediatez provoca frustração rápida e abandono da tentativa.
E isso espalhou-se não só pelos alunos…
Março 14, 2007 at 11:24 am
sempre que por aqui passo fico surpreendido positivamente com o conteúdo dos seus post.
parabéns, não só a si mas também aos excelentes comentários que aqui li
Março 15, 2007 at 9:42 am
Não vale a pena fazer suposições metafísicas ou apostar em Teorias da Conspiração.
Basta rever as principais conclusões da Agenda de Lisboa 2000 e olhar para os documentos que emanam de Bruxelas sobre educação.
A nomenklatura do ME limita-se a operacionalizar as recomendações transnacionais e a reproduzir os conselhos das “Comissões de Sábios” recheadas de burocratas e “especialistas da educação”.
Sócrates, adepto incondicional do Estado Terapêutico, tudo fará para transformar e educação numa mera ante-câmara do mercado de trabalho, reduzindo os cidadãos a uma “multitude” de consumidores alienados.
A McEscola está aí. Basta estudar e analisar o modelo dominante nos EUA e RU, para perceber o que está acontecer em Portugal.
Março 15, 2007 at 11:56 am
Meus caros:
Como estou de acordo convosco! Como regozijo um pouco por poder ler a clareza e o esclarecimento com que falam!
As vossas palavras, as vossas posições, a vossa persistência (Paulo, falando de persistência) são necessárias e essencias como água, e pão. Para todos nós. Para todos.