att00155.gifÉ um projecto que me foi nascendo no espírito ao longo dos últimos meses e que, mesmo não sendo profundamente original, tem neste momento uma acuidade maior do que há 2 ou 3 anos: estudar de que modo o poder político se relacionou coma  docência nos últimos 150 anos, desde a Monarquia Liberal até ao Centralismo Democrático actual.

Se sempre fui pouco adepto das teorias da conspiração em torno da Educação, por encontrar nela um potencial emancipatório capaz de contrariar a sua utilização como instrumento ideológico do Estado (ou de outros interesses), começo neste momento a balançar em algumas das minhas convicções perante o que vou vendo e experimentando.

Mais do que uma mera proletarização da docência, pela restrição das suas aspirações materiais a ascender de forma consolidada a um estatuto de classe média remediada, está actualmente em decurso um movimento de reforma da Educação que, na sua essência e ao contrário do que ocorreu em outros períodos, passa principalmente por “reconfigurar” a função docente desde a sua formação até ao seu exercício diário.

Não considero que isto seja uma consequência linear de uma qualquer opção por uma política estritamente neoliberal. Acho que está para além dessa leitura, que acho demasiado simplista (desculpem-me alguns dos leitores regulares) e, por isso mesmo, mais fácil de afastar. Acho que o que se passa é, com alguns pontos de contacto com o que aconteceu nos anos 10 e 30 do século XX, uma investida por parte do Estado para tornar os docentes uma espécie de prolongamento acrítico da sua acção formatadora da sociedade no sentido de a fazer aderir a um determinado modelo de governação.

A principal diferença é que nesses tempos da I República e do Estado Novo no seu período de maior viço pretendia-se investir os professores num papel de doutrinadores dos seus alunos com um forte cunho ideológico e para tal, apesar de alguma pauperização salarial, investiu-se em contrapartida numa tentativa de valorizar o papel e dignidade social da classe docente. O velho pobrezinho mas honrado e, por tabela, respeitado. O estatuto material de professor poderia não ser invejável mas a sua imagem social era valorizada pelos regimes que o pretendiam apresentar como uma figura modelar para a sociedade. Podia não dar para comprar bife todas as semanas, mas bem ou mal aconchegava um bocadinho o ego.

Agora o que existe é manifestamente diferente em dois pontos: por um lado existe uma clara preocupação por diminuir perante a opinião pública a relevância social dos professores, apresentando-os como meros executores de políticas que os transcendem e que eles não têm o direito de contestar ou criticar ou, pior, como responsáveis pelo fracasso dessas mesmas políticas. Por outro, existe o investimento numa desqualificação da formação dos docentes não no sentido de a preencher com uma mensagem de forte matriz ideológica (como fizeram, a seu tempo, republicanos e salazaristas) mas exactamente de a esvaziar de todo o tipo de conteúdo desse tipo, muito em especial de tudo o que possa fazer com que os próprios docentes sejam capazes de tomar uma posição ideológica clara, seja ela qual for, e muito menos de agirem enquanto grupo profissional consciente de ter um estatuto próprio e uma identidade específica. Mais do que querer que os professores passem a doutrinar os alunos, agora pretende-se doutrinar“desdoutrinado”os próprios professores ao esvaziar a sua própria formação.

Sei que aqui entro – embora ressalvando alguma reserva mental – por territórios muito próximos de diversas teorias críticas e conspirativas sobre a instrumentalização da Educação por um aparato de interesses político-económicos que acenam com o bicho-papão do Neoliberalismo como causa de tudo.  Só que, como já disse, acho que a investida está para além disso e o que se pretende é mesmo a ANOMIA das “massas” em nome da Democracia, para cercear aspirações e contestações ao modelo político apresentado como único possível e apesar de imperfeito, pilhando indecorosamente o legado de Churchill, o melhor de todos os possíveis.

Nos próximos tempos procurarei aprofundar melhor estas ideias, tanto na sua dimensão presente, como no que representam de realmente novo na relação histórica entre poder político e docência. Mas, como já acima escrevi, a minha visão está longe de ser ortodoxa, seja analisada pela destra ou pela canhota.