Por prazer e interesse no jogo entre política, comunicação e verdade, ando a ler agora diversos trabalhos de investigação histórico-jornalística sobre os antecedentes da guerra no Iraque e sobre o período que, recuando atrás do 11 de Setembro de 2001, correpondeu ao build-up da política americana que levou ao desfecho que conhecemos. Para complementar, também umas leituras sobre o período equivalente da política britânica, correspondente ao apogeu de Blair.
Do conjunto de leituras ressaltam factos impressionantes sobre, não apenas a distorção da realidade dos factos para efeitos propagandísticos e comunicacionais, mas de activo colaboracionismo ou mera apatia da comunicação social perante aquilo que já se sabia ser essa mesma distorção. Se em alguns casos se poderia alegar desconhecimento ou a preguiça de verificar números e factos, em outros a comunicação social aderiu de forma consciente a uma causa que sabia estar a ser fundamentada de forma errada, como se considerasse que os (tidos como bons) fins justificassem os ínvios meios utilizados.
Para o caso britânico, o Spin Doctor’s Diary de Lance Price demonstra como tudo é feito no campo da política para manipular os media e obter uma reeleição, algo que também atravessa o The Rise of Political Lying de Peter Oborne e o Blair’s Wars de John Kampfner que tenta sintetizar a forma como britânicos e americanos colaboraram para criar uma cortina de fumo global que, apesar de pouco densa para quem quisesse ver através dela, foi útil para os que quiseram justificar a sua credulidade. O mesmo se passa com várias obras sobre o caso americano (Hubris de Michael Isikoff e David Corn, The Greatest Story Ever Sold de Frank Rich, até o State of Denial de um desta vez algo ultrapassado Bob Woodward), destacando-se aqui o Chain of Command de Seymour Hersh, que me foi recentemente recomendado por um conterrâneo mais politizado do que eu, no qual se apresenta uma compilação alargada do que foi uma das raras tentativas de, desde o início, alguém sujeitar a Administração Bush a um escrutínio sério. Perto do final do livro, já em pleno epílogo, Hersh interroga-se sobre como foi possível que tudo (sobre as limitações ao acesso do público a informação fidedigna sobre o 11 de Setembro, a justificação da guerra do Iraque, sobre Abu Ghraib e Guantánamo, sobre a evolução da guerra), se tivesse passado como se passou, durante tanto tempo, em plena democracia, sem que – mesmo quando as situações foram sendo reveladas – muita gente se preocupasse, se interrogasse ou se preocupasse com todo o processo que levou a uma confusão/manipulação da comunicação social, promovida agresssivamente por uns e tolerada na sua generalidade com a tal complacência por outros.
Entre nós, apesar dos protestos inflamados com a hipótese não muito remota de “Centrais de Informação/Comunicação” governamentais e apesar do benefício do conhecimento do que se passou lá por fora em matérias como as acima referidas, estamos em pleno período de cortina de fumo, em que os dossiers distribuídos à comunicação social são aceites quantas vezes de forma acrítica e muitos opinadores aderem, aparentemente sem hesitações, a retóricas governamentais marcadas pela distorção dos factos, com base na putativa bondade das intenções. Como será mais do que óbvio, acho que o sector onde esta aliança político-comunicacional tem tido maior sucesso e tem sido mais frutuosa para o poder é o da Educação. Na Saúde ou na Justiça, por exemplo, o sucesso desta estratégia tem sido mais difícil, principalmente porque os grupos profissionais afectados têm maior força de combate e embate.
Continuam os apoios ao bom senso e bondade das medidas ministeriais. Não se questionam verdadeiramente argumentos e fundamentos. Acha-se apenas que sim, é por uma boa causa. As vozes discordantes são ainda tidas como excêntricas e excepções à (boa) regra. Daqui por uns tempos, quantos anos?, quando ficar visível para todos, que o que está a ser feito, foi mal feito e com base em pressupostos errados e dados “cozinhados”, não vale a pena dizerem uns que foram ludibriados, e outros que avaliaram mal a situação. É que pelo meio há vítimas que são inocentes e há danos colaterais que nenhuma guerra, muito menos o que não devia ser uma guerra, pode justificar.
Março 10, 2007 at 7:20 pm
Pois é Paulo. E convém não esquecer que o 11/9 está muito, mas mesmo muito mal contado!
É óbvio que toda a política gira em volta e a mando do capital. Mas o que não se percebe/compreende é que gente (jornalistas) a quem se pode dar crédito de terem 2 dedos de testa embarcarem de forma acrítica e bajulante no discurso político deste (e quiçá de outros) governos. Mais grave ainda quando se torna visível o fim último das medidas – a destruição do estado social. Terão sido contaminados pelo vírus da individualite aguda? Ter-se-ão rendido aos encantos do capital? Será possível que não vejam que o estado não pode ser gerido como uma empresa privada? Ambicionarão chegar a tachos políticos ou banquetear-se à mesa do orçamento? Ou pura e simplesmente aplicarão a máxima: se não os podes vencer junta-te a eles?
É pena e triste ver gente válida abdicar da sua capacidade crítica e transformar-se em moço de fretes!
Estou como tu! Quando a poeira assentar e o falhanço destas políticas neoliberais se tornar visível a olho nú será pertinente interrogar os agora arautos desta pretensa modernidade bacoca!
Março 10, 2007 at 9:55 pm
Acríticos? FTrindade? Essa gente faz parte da máquina e defende o seu quinhão, a sua migalha de caviar e poder. São “pegadores”, como lhes chamava Vieira, e eu arriscaria dizer que é o cálculo e não a falta de encéfalo que os move.
Março 10, 2007 at 9:59 pm
O meu comentário era para a entrada abaixo – a do Padrinho. Não é a 1ª vez que aqui me engano, “desábito” de ver a caixa de comentários acima da entrada
Março 10, 2007 at 11:33 pm
Pois, no WPress é ao contrário do Blogger, mas o assunto não era muito diferente, de qualquer modo.
Março 11, 2007 at 11:25 am
E depois do clímax da acção, os personagens arranjam umas desculpas esfarrapadas e vão todos para Bruxelas, empresas públicas e/ou privadas e afins.Enfim, vão à vida.
Março 11, 2007 at 1:15 pm
Mais uma breve leitura do DN de hoje num café do bairro.Primeiro espanto – “Desemprego e crescimento económico são as grandes promessas por cumprir.”Caramba, ainda não tinha tomado a dose de cafeína do dia, mas não devia ser “emprego”, em vez de “desemprego”????
Segundo espanto (este já depois da cafeína) – quatro páginas sobre o perfil/mito do Engº Sócrates, analisado por VJSilva, Carlos A Dias e Carlos Coelho, gestor de marcas.Ficamos a saber que o Engº está algures entre Cary Grant e John F Kennedy.E que “É um homem Boss. Veste uns fatos bem cortados e corrigiu alguns erros.Antes não abotoava os casacos. Agora só usa fatos de dois botões e faz questão de apertar um. Usa-os sempre com gravatas lisas(…)”
Mais à frente, o Rui Machete, advogado, diz que a actual ministra da educação criou uma grande esperança, apesar de alguns erros de comunicação. Não será antes erros de vestuário, tipo “The Devil doesn´t wear Prada”? Raios, ponham a senhora a vestir Prada!! Sem botões apertados, claro, para ficar mais sexy….
Março 11, 2007 at 2:05 pm
Há dias comentávamos entre colegas da Escola que se está a gerar um unanimismo pantanoso entre muitos opinadores, ex-governantes e outros que tais em torno da Educação.
Como as fórmulas que usaram ou recomendaram, falharam no que de pretendiam ser os seus propósitos, agora optaram quase todos por criticar a escola pública por ser imobilista e pouco flexível, quando se passa exactamente o contrário. A escola privada – no que nos apresentam de melhor – é que é extremamente rigída, em termos de método e disciplina, para não falar do acesso.
A escola pública, pelo contrário, estrebucha sob o punho férreo do ME que tudo regula e pretende controlar.
Setembro 25, 2010 at 6:25 pm
[...] Paulo Guinote under Leituras, Mentira, Política Leave a Comment Recupero aqui uma leitura sugerida há mais de três anos e meio sobre a ascensão da mentira como táctica e estratégia política em Inglaterra com o New [...]