| “Esse é um problema da sociedade portuguesa. Ninguém respeita os professores, só damos deles e das escolas uma imagem negativa. Assim não se cria uma dinâmica de confiança. Assim, estamos ao mesmo tempo a descredibilizar a escola e a mandatá-la para fazer tudo o que a sociedade e a família não fazem. Isto é suicidário.»
Joaquim Azevedo, coordenador do Debate Nacional de Educação, PÚBLICO, 4-12-2006 |
Eu só destaquei aquela parte porque é lapidar em relação ao que eu penso sobre o excessivo papel que querem atribuir à Escola como impossível rolo compressor de tudo o que não é feito a montante e jusante dela, o que só serve para desresponsabilizar todos os outros actores sociais envolvidos em todo este processo. E claro que todos os que querem alijar as suas responsabilidades são dos primeiros a apontar o dedo aos docentes e às escolas. E ainda há os que preferem apontar o dedo apenas às escolas públicas, por razões que a nossa razão bem conhece.
Dezembro 4, 2006 at 9:08 pm
Pois é, Paulo. Mas acontece que o sr. Joaquim Azevedo, quando teve responsabilidades governativas como secretário de Estado no Ministério da Educação, pouco ou nada fez para inverter o estado de coisas que agora critica. A mim já me cansam estes ex-políticos que só descobrem as causas fundamentais da acção governativa depois de abandonarem as funções…
Dezembro 4, 2006 at 9:14 pm
Este ainda vai admitindo que errou. É meio caminho andado, só que me parece que é meio caminho andado para ninguém ligar às suas conclusões.
Dezembro 4, 2006 at 9:39 pm
Aleluia….Senhor…Aleluia…
Até que enfim que alguém resume tudo um simples texto!
Os teóricos do “eduquês” mais os opinadores do costume, que tanto barafustam (apesar de forma suave mas hipócrita e insultuosa) contra os professores actuais, deveriam tomar consciência plena desta verdade: NÃO É A HUMILHAR OS PROFESSORES (os bons e os maus como EM TODAS AS PROFISSÕES) QUE ALGUMA VEZ RESOLVERÃO SEQUER QUALQUER PROBLEMA RELATIVO À EDUCAÇÃO!!!
Ainda não comprenderam que qualquer mudança, mesmo que demagógica e absurda como esta, necessitará sempre dos seus verdadeiros actores NO TERRENO! E não dos teóricos, dos lirícos e irrealistas do costume!
UM PAÍS QUE TRATA ASSIM OS SEUS PROFESSORES, POUCO OU NADA MERECERÁ DO FUTURO, POIS A FALTA DE DECÊNCIA ATINGIU OS LIMITES!
- Só permitam os país nas escolas, se estes estiverem realmente dispostos a participar construtivamente e saudavelmente e não (como é na realidade) a funcionar como elementos de pressão, de “refilice em causa própria”, ou de total ausência de responsabilidade quando convém.
- Criem nos alunos, mecanismos e hábitos de respeito e de responsabilidade pela escola, pelo professor, por si próprios e pelos outros alunos e não como acontece na realidade em esferas de indisciplina global e diversificada em determinados graus, mas que é uma das grandes causas do insucesso escolar. Quem não sabe compreender isto, não sabe comprender nada para além das hegemónicas teorias correntes que se formulam com alunos escolhidos de escolas escolhidas ou de alunos virtuais ou de alunos inventados no laboratório dos gabinetes alcatifados e insonorizados.
Respeitem os professores e a escola por si será respeitada! Aprendam um pouco de ergonomia e proxémica e larguem de vez os textos herméticos e ocos que mais não serve que para justificar o vazio e a “obesidade intelectual” e quem na realidade nunca conheceu as verdadeiras dificuldades da vida e do mundo do trabalho. Deixem por isso de ser burgueses em espírito e em atitudes.
- Criem um novo sistema de avaliação mais eficaz e simples, que seja compreensivel por todos e eficaz na sua aplicação e não um meando de burocráticos itens criadores do lodaçal da incerteza e do chico-espertismo de alguns alunos e pais.
- Criem um novo modelo de escola, de respeito pelos valores a sério e não no papel. Criem uma escola que se faça respeitar a si própria sem ter de esperar demagogicamente do tal perfil do professor x ou y, mas que se respeite e se faça respeitar como escola. Criem essencialmente uma escola que transmita o «CONHECIMENTO» e a «INSTRUÇÃO» e se deixe e lérias.
O país necessita disso.
Dezembro 4, 2006 at 10:06 pm
A propósito de tudo isto, recomendo vivamente:
Pombo, O. (2003). O Insuportável Brilho da Escola, in Alain Renaut et allii, Direitos e Responsabilidades na Sociedade Educativa, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 31-59.
Disponível em http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/investigacao/brilhoescola.pdf
ao ler esse texto percebi que até eu estava já baralhada sobre o que é que me fez ser professora.
Abraço a todos, coragem e luz.
Dezembro 4, 2006 at 10:17 pm
Ei lá.
Eu comprei esse livrito mesmo no sábado.
É que é já a seguir que eu vou ler.
Dezembro 4, 2006 at 10:57 pm
O ensaio de Olga Pombo sobre a escola é brilhante. Discordo dele em quase tudo, mas é um prazer ler um texto daqueles. Este ensaio é a prova de que é possível defender teses conservadoras relativamente à educação sem recorrer ao discurso simiesco e catatónico que são tão vulgares ler por aí. E não me refiro somente à blogosfera. Penso em comentadores encartados, com coluna de jornal e tudo.
Dezembro 4, 2006 at 11:09 pm
Mas discorda porque…
Dezembro 5, 2006 at 12:40 am
Iso não daria uma entrada. Daria um blogue inteiro! E agora é tarde e tenho que ir dormir.
Dezembro 5, 2006 at 11:54 am
BOM Dia, se já acordou dê só assim a modos que uns tópicos.
Dezembro 5, 2006 at 11:24 pm
O seu desafio é interessante mas, mesmo depois de uma noite de sono, ainda por cima mal dormida, não conseguirei dar-lhe uma resposta satisfatória. Para responder à excelência do ensaio de Olga Pombo (OP) teria que conseguir escrever um de igual valor e, sendo minimamente honesto, julgo que isso se encontra para além das minhas capacidades.
Mesmo assim arriscarei pegar num ponto inicial de O Insuportável Brilho da Escola e contrapor algumas ideias, ainda por cima na sua área de especialidade. É perigoso porque é colocar a foice em seara alheia e logo eu que não sou agricultor. Mas ganhar-se-á, eventualmente, o prazer do contraditório.
OP propõe que o aparecimento da escola pública vem sancionar o abandono a que as crianças passam a estar votadas. Estas seriam expulsas do seu meio familiar “natural” e seriam encarceradas em instituições educativas. Ela fala mesmo na situação terrível que é a progressiva transferência para a escola das responsabilidades que eram da exclusiva competência das famílias. E, em jeito de lamento, afirma que “(…) com a saída da mãe para o trabalho em meados do século XX, a casa fica vazia.”
Esta análise, quer queiramos quer não, implica a referência a uma suposta de “idade de ouro” onde as crianças cresceriam harmoniosamente no seio das suas famílias até que a escola pública e a escolaridade obrigatória, impostas pelo Estado, terminaram com esse cenário idílico. Ora, é sabido que nada foi assim. A história é bem mais complexa do que isso. A valorização que hoje atribuímos à criança é que não nos permite recordar os tempos em que a própria condição de infância nem sequer era reconhecida como tal, em particular nas sociedades pré-industriais.
A participação das crianças na vida comunitária tinha um preço terrível, tendo em conta os padrões que hoje temos por aceitáveis. O trabalho infantil era generalizado nas sociedades em processo de industrialização (leiam-se os romances de Dickens, por exemplo, para escapar à literatura mais especializada).
Hoje os telejornais abrem com casos de crianças maltratadas. Pensar, todavia, que nessa idade de ouro, antes da escola, antes da emergência da família moderna e da domesticidade, para usar um termo de Eduard Shorter, era tudo um mar de rosas, não somente revela um desconhecimento da História como uma ingenuidade perigosa. Por exemplo, aquilo que hoje se designa “o síndrome da criança batida” (conjunto de sinais de natureza variada que indiciam negligência e maus tratos) data do início da década de 60! Se calhar só a partir daqui é que as crianças começaram a ser negligenciadas e maltratadas…
E no que respeita à entrada das mulheres no mercado de trabalho, deixando as “casas vazias”, talvez fosse de considerar pedir aos homens que tomassem o lugar que foi delas durante séculos. É uma dívida histórica que teremos que assumir!
Pede-se hoje à escola responsabilidades que ela não tinha no passado. Disso não tenho dúvidas. Daí que tenha sugerido recentemente, em jeito de provocação, que talvez devêssemos conceber a escola como um centro comunitário, desde que separássemos muito bem as funções educativas das funções sociais. Mas esta evolução não é necessariamente negativa, nem muito menos se pode invocar um passado a partir do qual tivéssemos entrado em declínio. Neste aspecto específico OP parece filiar-se numa análise decadentista que não partilho em absoluto.
E por aqui me quedo, receando não ter respondido ao seu desafio, mas pelo menos escrevinhando uns pensamentos soltos.
Dezembro 5, 2006 at 11:50 pm
PJ
A hipótese de Olga Pombo (casa vazia) implica necessariamente uma “idade do ouro perdida”?
Dezembro 6, 2006 at 8:51 am
Ora aí está a dúvida correcta do AFerrão ao texto do PJ.
Eu acho que extrapola o que a OPmbo escreve explicitamente para um conteúdo implícito que talvez lá não esteja.
A análise que ela elabora está factualmente correcta, apenas sendo possível obstar que essa foi uma evolução inevitável e que não poderia ser contrariada sem custos tão ou mais graves que os actuais.
Mas quanto ao resto está correcta.
Claro que a vida das crianças nunca foi a maravilha que, para as mais afortundas, hoje é. Aliás, um dos problemas basilares de tudo isto seja o extremo complexo dos adultos em tratarem as crianças, estando os mais esclarecidos sempre preocupados em não fazerem nada politicamente incorrecto.
A ditadura da criança é um erro similar á ditadura dos adultos.
Quanto ao papel da Escola ser multifuncional estou de acordo desde que se perceba que cada um deve ter a sua função e que os professores, enquanto tal, não são assistentes sociais, psicólogos, etc, etc.
Até podemos ter “queda” para a coisa, “jeito” até maior que alguns dos técnicos em causa, mas se formos por aí misturamos tudo numa grande caldeirada que acabará inevitavelmente por dar mau resultado.
Dezembro 6, 2006 at 1:04 pm
“Eu acho que extrapola o que a Olga Pombo escreve explicitamente para um conteúdo implícito que talvez lá não esteja.”
Admito que sim. É o perigo que qualquer interpretação acarreta.
“A análise que ela elabora está factualmente correcta, apenas sendo possível obstar que essa foi uma evolução inevitável e que não poderia ser contrariada sem custos tão ou mais graves que os actuais.”
Concordo de uma forma geral com esta afirmação. Só não aceito que nas sociedades ocidentais mais desenvolvidas o preço que estamos a pagar é tão grave quanto o que se pagou no passado se não tivesse havido a evolução que Olga Pombo descreve com tonalidades tão negras. A condição da infância e da juventude hoje é infinitamente melhor do que há 150 anos quando se começou a erguer a escola pública. E não me refiro somente a condições materiais. Refiro-me à forma como concebemos as próprias noções de infância e juventude, como lhes atribuímos protecção jurídica e desenvolvemos para elas políticas específicas, públicas e privadas.
Dezembro 6, 2006 at 1:51 pm
De acordo.
Claro que estamos melhor do que há 150 anos.
Ganhámos muitas coisas, perdemos outras. Talvez pudessemos tentar não perder mais, só isso.
E a Escola pública foi um dos ganhos.
Volto a sublinhar que tem o seu interesse distinguir como nasceu a escola pública de acordo com os diferentes contextos.
O modelo napoleónico – que foi a matriz do nosso, ainda antes de o ser (veja-se Pombal) – tem muito pouco a ver com o que se passou no mundo anglo-saxónico ou nórdico,
Janeiro 12, 2008 at 1:07 am
Sou professora brasileira e confesso que, se por um lado fiquei aliviada por descobrir que há quem pense desta forma, clara, racional, não-hipócrita, por outro, aterroriza-me notar que a situação humilhante e desrespeitosa que vivo no Brasil é vivida por colegas europeus. Penso em largar minha profissão e fazer qualquer outra coisa que me magoe menos. Não sei aí, mas aqui, além de tudo, alunos podem agredir fisicamente os professores, podem ameaçá-los de morte, que nada acontece.
Forte abraço aos amigos portugueses e coragem!