Voltando agora à análise do texto de Maria de Fátima Bonifácio publicado na revista Atlântico (versão em papel) sobre o estado da “nova” Universidade, cumpre-me agora entrar naquela parte aborrecida que é relembrar a discordância entre as palavras que leio hoje e os actos a que assisti há muitos anos, quando fui seu aluno.
Desde já repetindo que fui um aluno sem razões pessoais de queixa, porque classificado com bondade e dispensado do exame que atingiu 80 a 90% dos meus colegas de turma e, por consequência, da taxa de reprovação na cadeira de História Económica e Social do 3º ano do curso de História da Nova em meados dos anos 80.
Só que aquilo que se observa e fica marcado na nossa memória, convive depois com dificuldade com os discursos que depois se lêem por aí. E porquê? Porque MFB enquanto docente nunca praticou aquilo que advoga como analista da Universidade e muito em especial nunca promoveu nos seus alunos, e remeto para a segunda metade dos anos 80, pelo menos, e até mais tarde em matéria de mestrado, nunca promoveu, ia escrevendo, um clima de salutar debate ou discussão nas suas aulas.
Levávamos com a chapa 5 da sebenta dos modelos neo-marxistas de crescimento económico e éramos obrigados a saber debitar com fluidez as teorias sobre a tardo-medievalidade e a complementaridade Leste/Oeste, do Duby, do Malowist, do Morineau, assim como as teorias do sistema mundial do Wallerstein e as Linhagens… do Perry Anderson, e para os que faziam a 3ª frequência (de que fiquei dispensado) umas coisas até interessantes sobre a proto-industrialização. Caso contrário, ficava-se lá para o ano seguinte. Durante as aulas, as dúvidas eram respondidas normalmente com razoável enfado e não me lembro de ter sido solicitado qualquer tipo de trabalho de análise crítica das teorias que a turma era obrigada a saber recitar.
Pior, os alunos que revelavam dificuldades em compreender a lógica mecânica dos modelos, ou porque não os entendiam nos artigos originais em inglês ou francês, ou por inadaptação ao tipo de raciocínio, eram classificados de forma atroz e gozados publicamente durante a entrega dos testes, adequadamente de ordem decrescente de valor, o que fez muita gente roer as unhas até ao sabugo. Para além de quem um estímulo para que melhorassem, os mais desfavorecidos eram pouco menos que escarnecidos. Confesso que, por vezes, para particular gozo meu, porque muitos foram os génios com pés de barro nesse ano ou em outros, incluindo um editor da própria Atlântico, se bem me estou a recordar da aflição em que o via então.
Apesar disso, alguns de nós, eu incluído, apreciávamos as aulas e a disciplina em grande parte pela sua previsibilidade. No ano seguinte era comum apostarmos sobre as perguntas que saíriam aos da “leva” seguinte” em acertávamos em 80% das situações, se necessário quase no fraseado do questionário.
Por isso, longe de estimular o espírito crítico e o debate de ideias ou mesmo um vago espírito universitário de camaradagem, com as devidas distâncias, entre docente e turma (afinal, nem éramos muitos nesses tempos), era imposto o distanciamento e a frieza na relação humana, assim como a aquisição de rotinas mecânicas na aquisição e replicação dos conhecimentos.
Acredito que no ICS, MFB vivesse uma experiência diferente, em que os graus académicos não contavam para uma hierarquia nas discussões e em que as opiniões eram admitidas a todos e ninguém se sentia lesado por nada.
Só que essa não foi a experiência de algumas centenas de alunos que lhe passaram pelas aulas, salvo os afortunados que, como eu, sempre tinham gostado de Economia e para quem os racicínios lógico-dedutivos de linearidade não muito complexa dos autores em causa não exigiam esforço especial para os apreender. Talvez, por isso, nem sequer me tenha esforçado por ir além do tal 16.
Paulo Guinote
Setembro 8, 2006 at 12:04 am
Obrigada pela visita, gostei dos eu blog mesmo. E vou tomar a liberdade de linkar esta entrada
Março 22, 2008 at 2:11 pm
[...] E parece-me claro que ele põe um dedo na ferida, pois que “aquilo que se observa e fica marcado na nossa memória, convive depois com dificuldade com os discursos que depois se lêem por aí” (continuar a ler). [...]