Setembro 2006


Confesso que fico especialmente divertido quando revejo os livros em que aprendi a ler ou a desenvolver o gosto pela leitura e literatura, desde o aspecto profundamente naif dos livros da Primária, ainda do Estado Novo, ao entusiasmo militante dos do Preparatório, completamente imbuídos do espírito revolucionário de então.

Este livro de Português do 2º ano do ciclo editado em 1976 pela Politécnica Editora é particularmente interessante neste aspecto, pois abre com o poema “O Povo” de Pablo Neruda, passando em seguida para uma secção com o título Comunidade que começa com um texto de Sidónio Muralha da revista Vértice e continua, depois de uma incursão pelo Principezinho, por autores como Júlio Conrado (excerto de O Deserto Habitado), Jacinto Martins (Carreiro de Gente) e Ribeiro Maçarico (A Terra não dá pão, Senhora Mãe). No caso deste último texto, a sugestão de trabalho assume a existência de um qualquer tipo de cooperativa na localidade dos alunos e sugere a entrevista aos associados, assim como interroga sobre a viabilidade de criação de uma cooperativa na própria escola que permitisse adquirir livros mais baratos.

Mas é a segunda secção de textos dedicada às Transformações Sociais que entra pelo campo da pura e simples epopeia com novo poema de Pablo Neruda e textos de Miguel Torga, Fernando Namora, José Cardoso Pires, Alves Redol, Mário Braga, Jaime Cortesão e Luís de Sttau Monteiro, entre outros textos como notícias de jornal ou textos de publicações operárias.

Visto a 30 anos de distância o sorriso é inevitável. Na própria época tudo isto parecia natural e líamos textos de duas páginas sobre o significado histórico do 1º de Maio como agora se lêem textos de 3 ou 4 parágrafos com fábulas da Carochinha.

Não sei se o efeito (uma inculcação ideológica indisfarçável) pretendido foi alcançado ou não mas inclino-me sinceramente para a segunda hipótese. Mas sei que nos dividiu entre aqueles que aos 12 anos já tínhamos a nossa conta de neo-realismo e muito mais (já então lera da colecção de bolso da Europa América os Esteiros, os Gaibéus, a Engrenagem, o A um Deus Desconhecido, etc, etc, tudo de enfiada e sem hesitações) e daí partimos para outros voos e aqueles que ficaram para sempre bloqueados sem vontade de ler mais do que A Bola ou o jornal mais popular e sensacionalista do momento,

Mas não deixa de ser curioso como em cada momento histórico, a leitura pode ser utilizada como instrumento ideológico e como isso acaba por marcar cada geração.

Por isso, talvez não seja estranho que quem já tenha apanhado uma fase posterior a tudo isto no seu percurso escolar, com a crescente infantilização das leituras recomendadas, depois também acabe por revelar um menor interesse em qualquer tipo de leituras “adultas” mais elaboradas ou mesmo por demonstrar uma atitude mais amorfa perante o que vai sucedendo em seu redor.

Estou longe de achar que antigamente é que era bom. Apenas acho que antigamente, mesmo a preto e branco, os livros acabavam por ser mais coloridos. Contavam mais as palavras do que a bonecada em seu redor.

Também parece que não, apesar da voz corrente alimentada pelo Ministério nos últimos tempos.

De acordo novamente com os dados do projecto Eurydice (a imagem para entrar no blog fica quase ilegível mas está aqui a ligação directa), nos níveis primário e secundário de estudos (cuja definição por vezes é flutuante de país para país, apesar das tentativas de uniformização), os professores portugueses leccionam entre 910 e 930 horas anuais o que corresponde ao 5º lugar no volume total de horas leccionadas para o Ensino Primário e 8º ou 9º (há países com diversas modalidade) para o Ensino Secundário.

Ou seja, numa amostra bem alargada de cerca de 30 nações, estamos no terço superior em matéria de volume de aulas dadas. Claro que estes dados são frontalmente contrários aos avançados pelos agentes do Ministério na comunicação social, com amostras reduzidas e falta de especificação dos critérios.

Mas esse é um pormaior que se percebe bem porque acontece, em função do contexto e dos actores em presença.

Um dos argumentos que o Ministério gosta de agitar perante a classe docente é que ela é muito numerosa e desproporcionada em relação às necessidades actuais do país e resultados obtidos pelos alunos.

Até pode ser verdade, só que de acordo com os dados da União Europeia sobre o peso do professorado na população activa, isso parece não ser bem assim, pois ficamo-nos por 2,8%, bem longe dos 4% da Bélgica, dos 3,5% da Islândia e Noruega, dos 3,4% da Hungria, etc.

E como estes números há outros do Eurostat e do programa Eurydice que os nossos responsáveis políticos não gostam de referir, pois talvez maculem um pouco as suas conclusões pré-definidas.

… sendo ou não a alma pequena, desde que sirvam para demonstrar uma posição.

Não sou um exemplo a seguir, pois nunca fui e não penso vir a ser sindicalizado, raramente aderi a uma greve e lamento confirmar que é extremamente difícil apanharem-me em qualquer tipo de ajuntamento de cariz político ou outro. Mesmo concertos musicais cada vez vou a menos em grandes estádios ou pavilhões e jogos de futebol então é coisa quase impossível, mesmo nos estádios novos. São feitios, fastios com aglomerados humanos que, não sendo fobias, são no mínimo manias.

Não sei, portanto, se conseguirei participar na marcha do próximo dia 5 de Outubro, antes de mais porque até à véspera andarei com horários acelerados e apertados para entregar algo que, graças ás leis retroactivas deste país, se não for entregue implicará gastos adicionais.

Mas chega de desculpas pessoais. O que interessa é que muitos outros compareçam numa iniciativa que, por ser num feriado, não pode ser acusada de prejudicar os alunos ou servir para fazer “pontes” (a propósito, já pensaram que até o direito à greve fica gravemente lesado com as regras propostas quanto aos tais 97% de assiduidade obrigatória ás actividades lectivas para ser possível a progressão?)  ou todas aquelas pedradas que normalmente são atiradas – por vezes com razão – contra as iniciativas sindicais rotineiras.

Esta iniciativa parece colher o apoio de uma frente alargada de sindicatos, o que é extremamente salutar. É importante que todos, mesmo os que apareceram de geração algo espontânea com outros objectivos, percebam que o seu papel é o de representarem os docentes e as suas posições e não outros interesses de grupos ou meras estratégias pessoais de protagonismo.

E é muito importante que à mesa das negociações para o novo Estatuto de Carreira não existam desistências de última hora, em troca de migalhas negociais como é uso e costume em determinadas agremiações que de defesa dos professores pouco têm e de sindicatos deviam ter vergonha de usar a designação.

Não sou sindicalizado, já o afirmei. Mas não o sou porque considero que entre as cedências vergonhosas de alguns e as oposições monolíticas de outros, muitas vezes os professores foram tão vítimas da tutela como dos seus representantes, funcionando como carne para canhão de lutas que nem sempre respeitaram os seus verdadeiros interesses. Lamento, mas é essa a minha opinião.

Mas é mesmo por isso que acho que, desta vez, seria necessária e indispensável uma concertação entre todos, sem ânsias de liderança ou de capitalização dos louros da eventual “não derrota” (eu e muitos colegas com quem falo já temos dificuldade em achar que podemos ter uma vitória, chegando por agora um empate sem golos na própria baliza). Porque o que está em jogo desta vez é muito mais do que o habitual 1% em negociações salarias ou mais umas centenas de lugares nos quadros.

Neste momento está em jogo a carreira e a dignificação das condições de trabalho de, no mínimo, uma centena de milhar de docentes. Se essa não é uma causa para todos os senhores nossos representantes deixarem de lado as suas questiúnculas e disputas particulares, então nada conseguirá fazê-los perceber para que servem.

Que na próxima semana pelo menos as bases enviem o sinal indispensável para que neste país não continuem a entregar a condução das políticas educativas a aspirantes de feiticeiros, que se protegem atrás de campanhas de desinformação e menorização do trabalho alheio.

Sempre tive alguma dificuldade em compreender as formas de pensar que raciocinam segundo uma lógica em que, havendo situações melhores do que outras, se deve tudo nivelar e, pior, se deve nivelar pelo mínimo denominador comum.

Ainda nos tempos da Faculdade, quando só se dispensava do exame com 14, ficava sempre maravilhado com a lógica daqueles que, tendo 13, em vez de procurarem demonstrar a injustiça eventual da sua classificação e subi-la, apontavam para os que tinham 14 e 15 e desdiziam do seu desempenho, querendo puxá-los para baixo.

O mesmo se passa com a nossa sociedade e com um dos traços da nossa forma de ser portugueses. Eu sei que é um lugar-comum desancar os portugueses chamando-lhes invejosos, o que acho relativamente incorrecto, mas a verdade é que há situações em que me parece que os raciocínios são elaborados na forma inversa do que deviam.

Isto surge-me a propósito do já bem conhecido argumento – que continuo a afirmar que é erróneo na imagem e fundamentação – da pirâmide invertida que corresponderia à estrutura actual da carreira docente, com muita gente no topo em relação à que está na base. Tida como errada, tal estrutura deveria ser conduzida à sua forma correcta, com muita gente a mourejar na base e apenas alguns felizardos lá no topo, pelo que devem ser instaladas válvulas de acesso na progressão que diminuam o afluxo às melhores posições.

Não me entendam mal: eu sou tão avesso a anónimos igualitarismos como a extremos elitistas. É por essa razão que discordo de modelos sociais que promovam tanto uma completa indiferenciação, como uma rígida compartimentação.

Por isso mesmo discordo de medidas que, perante situações de disparidade ou distorção das formas correctas de hierarquização social ou profissional, usem como método a homogeneização pelo nível mais baixo ou um modelo de hierarquização que assume que a ordem natural das coisas é existirem poucos em boa situação e muitos em pior.

Eu sei que temos um país pobrezinho, coitadinho, e nem vou discutir de quem é a culpa. É de todos, pronto. Eu sei que nem todos podemos ser ricos ou mesmo medianamente abastados.

Só que também não posso aceitar o argumento de que, na sociedade e na vida profissional, tenhamos que ter o modelo da pirâmide “certa”. Até por razões da minha própria morfologia, prefiro as linhas arredondadas de uma oval ou de um círculo que considero bem mais virtuosas.

E porquê? Porque na impossibilidade de todos chegarmos lá acima, acho que a distribuição deve ser o mais equitativa possível, sacrificando o menor número, mesmo se por necessidade se criar um grupo no topo não muito alargado.

Ora no modelo proposto para a progressão na carreira docente, nem se combate verdadeiramente a pretensa pirâmide invertida, nem se procura uma distribuição equitativa que sacrifique o menor número de docentes às exigências da mesa do orçamento. Não se combate a tal pirâmide porque se são verdadeiros os números lançados para a opinião pública (40% de docentes no topo da carreira) e rigorosas as propostas (equiparação automática de quem está nesse topo a professor-titular), fica tudo na mesma durante uns bons anos, enquanto o pessoal não se vai reformando. Em contrapartida, limitam-se as aspirações dos grupos que, em movimento de ascensão, tendem a demonstrar um maior dinamismo na sua acção.

E desta forma, o “pior” do sistema mantém-se e o potencial “melhor” fica cerceado.

Mas posso ser eu que esteja a ver mal o problema e, afinal, as propriedade miraculosas da pirâmide existam por si mesmas e a ideologia medieval é que estivesse mesmo certa naquele princípio de que uns só servem mesmo para braços e pernas, enquanto só alguns é que estão habilitados a ser os olhos e outros órgãos nobres do corpo social.

Para mim isso é tão mau como sermos todos iguais.

São feitios.

A minha mão, as nossas mãos aprenderam a escrever guiadas pela mão de uma professora. Assim: a professora começava por ensinar as crianças a pegar na caneta, colocando-lha entre o indicador e o polegar, e depois era a sua mão que, sobre os dedos infantis, os conduziam na execução dos movimentos iniciais (iniciáticos) da escrita. Momento delicioso, momento doloroso esse em que a nossa mão ansiosa e ambiciosa iria traçar letras legíveis sobre o papel, mas logo emperrava, desajeitada, desesperada na impotência da sua tacanhez e da resistência do aparo. (Natália Nunes, Memórias da escola antiga. Lisboa: Didáctica Editora, 1981, p. 30)

A hipótese mais clássica era a Primavera… mas…

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