Tenho uma memória muito especial deste livro porque foi uma das minhas improváveis primeiras leituras, ainda andaria pela Primária, com coisa de 8-9 anos, talvez, certamente na primeira metade dos anos 70.

Tinha aprendido já a ler de forma fluída e testava a nova capacidade em tudo o que servisse para o efeito, pelo que uma mala velha, com velhos papéis de um dos meus avôs apareceu à mão de semear e, entre outras improbabilidades, dei comigo a ler esta obra de uma colecção dos anos 50 enquadrada no chamado Plano de Educação Popular destinado a erradicar pela 76ª em 153 tentativas o analfabetismo de Portugal.

O valor pedagógico do livro, com o seu texto muito simples e usando a narrativa e o diálogo entre personagens pitorescas para introduzir a matéria em causa – a telefonia sem fios – faz lembrar os velhos filmes dos anos 30 com o Vasco Santana e o António Silva mas pode medir-se pelo sucesso e entusiasmo com que eu aprendi o que eram ondas electromagnéticas, frequências moduladas, ondas curtas e tudo o mais, cuja validade se testaria num velho rádio Telefunken também dos anos 50, que ainda hoje funciona, logo que aquecem as válvulas pelo sistema descrito na obra em apreço.

Por isso, sempre que relembro as origens do meu vício incontrolado por livros, este é um dos que ocupa lugar de honra e correspondente espaço reservado nas obras de referência de uma infância em que a aprendizagem da palavra escrita foi tão importante como a aprendizagem da fala e em que, em vez de ser um sacrifício ou um esforço, foi apenas a porta para muito e admiráveis novos mundos.

Paulo Guinote

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