Julho 2006


«Isto de falar sôbre educação, deve ser coisa fácil, pois não há actualment barbeiro bem informado ou boticário bisbilhoteiro que não guarde, num bôlso interior, quatro frases repolhudas, apanhadas no ar, ou em folha de couve local, e que podem condensar-se em uma única afirmação: tudo é muito mau, excepto a quitessência nelas contida.» (Túlio Lopes Tomaz, “Algumas Considerações Sôbre Instrução e Educação in Liceus de Portugal, nº 38, 1937, p. 5)

Não sou favorável a ideias do arco da velha, como a necessidade dos docentes estarem num plano mais elevado que os alunos nas aulas, ou coisas algo asininas como essas, mas parece-me que a erosão da autoridade do professor é um dos principais males que afectam a qualidades das aprendizagens em muitas salas de aula e escolas.

Mesmo na sua versão extremada, como “autoritarismo”, a autoridade do(a) professor(a) na sua sala de aula é um valor a preservar e algo que os próprio(a)s aluno(a)s encaram como um mal menor para que seja possível mater a ordem, a disciplina e o trabalho.

Infelizmente muita gente não o percebe, desde os traumatizados com a escola “do fascismo” a muitos bem-pensantes e ignorantes “educadores dos tempos que correm. Para todos eles apenas um excerto de um estudo feito com base em entrevistas a alunos, encarregados de educação e docentes, sendo que esta passagem se deve à parte do estudo baseada principalmente nas reacções dos discentes perante a atitude dos seus professores:

«A permissividade do professor também é apresentada de modo negativo por todos os grupos, sendo afirmado que os alunos preferem o autoritarismo à permissividade, que não instaura condições favoráveis á sua aprendizagem. estes resultados são convergentes com um estudo mencionado no capítulo II sobre as atitudes dos adolescentes em relação à autoridade dos professores (…) em que os alunos preferem que o professor adopte um estilo autoritário para fazer face a comportamentos delinquentes, para manter a disciplina e relativamente ao método do professor, só sendo adeptos de um estilo permissivo relativamente ao cumprimento dos trabalhos de casa.» (p. 128)

 

Lê-se hoje no Expresso prosa abundante sobre Educação, o tema de interesse que permanece no pousio estival, nomeadamente sobre o GAVE, departamento ministerial responsável pela produção dos materiais nacionais de avaliação usados no nosso sistema educativo, e sobre a sua Directora, Maria da Glória Ramalho.

A pessoa em causa é apresentada sob um prisma que me é agradável, pois atribuem-se-lhe três características que admiro: independência, mau-feitio e competência, das quais estou certo ter as duas primeiras. Portanto, e a esse nível, nada contra a pessoa, tudo a favor.

Só que, e há aqui o tal “mas”, o meu único contacto – bem indirecto – que tive com a Directora do GAVE, me deixou uma sombra de embirração quanto à sua forma de se apresentar.

Eu passo a explicar: como professor corrector das provas de aferição de Língua Portuguesa (6º ano) em 2001 e 2002, frequentei por duas vezes a Acção de Formação “à distância” necessária para uniformizar os critérios da correcção da dita prova e a esse respeito celebrei um contrato de formação com o GAVE, em que como Primeiro Outorgante, surge o Centro de Formação do dito Gabinete, representado pela sua directora, que a pós o nome, fez questão em apresentar as suas qualificações académicas, um Ph.D pela Universidade do Texas em Austin.

Nada de especial, excepto que a especificação dessas qualificações não me parece ser factor relevante para o dito contrato, para além de que a mim, só me deixaram espaço, como segundo outorgante, para escrever o nome e pouco mais, pelos vistos não interessando a ninguém saber o que eu era (nem qualquer dos outros professores correctores).

Claro que, com o meu mau feitio, encolhi a letra e após o nome, indiquei o meu grau académico que, sendo na altura (2001) o Mestrado, era no mínimo equiparado ao Ph. D. da senhora directora.

Porque fiz tal parvoíce? Exactamente porque acho de uma pretensão despropositada alguém definir-se num contrato de formação, não pela posição em que se encontra nessas circunstâncias, mas sim pelo título que acha bem exibir, claro que porque o considerará eventualmente prestigiante e quiçá intimidatório para o interlocutor, como que dizendo “olha que eu sei o que faço, pois sou…” 

É como se eu vendesse uma casa a alguém e, na escritura, para além de me identificar como vendedor do imóvel, aproveitasse para referir que era Engenheiro da Obra Feita ou Arquitecto de Igrejas Inclinadas. Irrelevante, despropositado, pretensioso.

Por isso, às evidentes qualidades que no Expresso se lhe apontam – recordemos: independência, mau feitios e competência – eu acrescentaria uma característica, que não sei se terei legitimidade para qualificar como qualidade ou defeito, e que é alguma desnecessária pretensão exibicionista. 

Tudo isto é irrelevante para o desempenho da senhora, que hesito em qualificar como colega para não a ofender? É possível, mas por isso mesmo…

Paulo Guinote, Doutorando em História da Educação, mas não pela Universidade do Texas.

Algo que sempre me impressiona em certos círculos político-académicos é o amiguismo, mais ou menos encapotado como as coisas se fazem e dizem quando estão em jogo interesses de grupos, tácticas de não-agressão como estratégia para manter equilíbrios instalados.

Em público desdiz-se ou ocyulta-se o que se afirma sem pejo em privado. Por momentos, há seres que parecem mudar de natureza, trocando a fúria por um estranho ar cordato.

Isto não é novo, mas ocorreu-me em duas ocasiões acerca das duas últimas Ministras da Educação quando analisadas por analistas/opinadore(a)s habitualmente ferozes e intolerantes quando se trata de bater em ceguinhos desconhecidos, no “sistema” ou em questões vagas.

O primeiro caso, tem já quase dois anos e ficou a dever-se á forma benigna, tão benigna, como Maria de Fátima Bonifácio, o “terror” de língua afiada que conhecemos em primeira mão, tratou Maria do Carmo Seabra no auge dos disparates desta enquanto titular da pasta da Educação. Quem a conhecesse quase a desconhecia MFB na sua postura construtiva em relação a MCS. Não se conhecessem as amizades intermédias entre ambas, as cumplicidades tecidas nos meandros da Nova, entre a História e a Economia e pensaríamos estar perante um caso de desdobramento de personalidade.

Um segundo caso, foi ver hoje Fernando Rosas, o justiceiro-mor de toda a Esquerda, sempre pronto a bradar aos céus por tudo e nada, fazer um rasgado elogio da “inteligência” e currículo de Maria João Rodrigues, evocando mesmo cargos ocupados pela senhora para demonstrar como a sua competência, acrescentando apenas uma tímida crítica á forma como a Ministra tem conduzido a sua relação com a classe docente. Não conhecessemos nós as tramas e cumplicidades ínvias do esquerdismo dos anos 70 e a táctica inteligente de Sócrates e Ciª ao colocar uma antiga activista dessas áreas políticas a conduzir uma política como a actual, e poderíamos pensar que Rosas abandonara a sua postura justicialista e se converteza á civilidade e ás boas-maneiras.

Infelizmente não é assim e só quem ainda consegue olhar através da névoa que nos envolve por todos os lados, tem condições para não ser mistificado a cada esquina desta vida.

Paulo Guinote

«O Estado Novo concede uma grande importância às questões educativas e define, desde o início, políticas que investem a escola como um espaço privilegiado de doutrinação e de integração social. A defesa do valor educação contém uma crítica à lógica republicana de instrução (…). Grande parte das energias do Estado Novo na área da educação, dentro e fora da escola, foi consagrada à concretização deste plano de integração simbólica.»[1]

 

Ao contrário do que por vezes se afirma num contexto de reprovação ética, moral e política do Estado Novo, a Escola não era lateral nas preocupações do Estado Novo, muito pelo contrário, pois era um veículo essencial para a promoção da ideologia nacionalista, de um modelo social e familiar e da coesão nacional. Como bem escreve uma autora «a escola é pois chamada a intervir no sentido de formar os cidadãos componentes da sociedade», existindo «uma relação umbilical entre a escola e a Nação» que fazia com que se considerasse que «o futuro de Portugal depende do presente escolar»[2].

Podemos considerar que houve uma desvalorização relativa de determinados aspectos do modelo escolar republicano, em especial ao nível dos conteúdos e da organização do currículo, e uma recusa de uma concepção “democrática” da Escola, como a representada por pensadores como Leonardo Coimbra que se opunha, já em 1926, a uma concepção nacionalista e exclusivista da educação nestes termos:

 

«A educação nacional terá como finalidade a prosperidade e engrandecimento de uma Nação, variando, pois, os métodos educativos com o ideal nacional.Se o ideal nacional é exclusivista, termos os povos idólatras, absorventes e dominadores, esperando de si ou da sua providência a direcção dos destinos do Mundo.

(…) São desvios para uma vontade falsa, das maiores forças sociais, que são as verdades humanas. Um povo dobrado à vontade nacional exclusivista é qualquer cousa como um homem que, teimando não reconhecer a existência dos seus concidadãos, permanentemente a eles recorresse para viver.»[3]

 

No entanto, mesmo reprovando a opção nacionalista, é dificilmente sustentável afirmar que o Estado Novo não se constituiu, desde os anos 30, como uma fase fundamental da construção da chamada “Escola de Massas”
em Portugal. Podemos discordar da matriz ideológica do regime, do modelo organizacional proposto, do conteúdo dos currículos, da própria função social reservada à Escola, mas é mais complicado recusarmos as evidências estatísticas. É certo que, como Rómulo de Carvalho sublinha
[4], após a instauração da Ditadura subiram de tom as críticas à efectiva necessidade de educar e alfabetizar as massas populares mas há que admitir que, apesar de alguns ganhos pontuais, esta perspectiva não se tornou dominante na orientação da política educativa nos anos 30. É bem certo que a primeira verdadeira reforma do Ensino Primário do novo regime, datada de 17 de Maio de 1927 se caracterizou por, desde logo, decretar a redução dos escalões elementar e complementar em um ano cada, o que viria a ser agravado pela legislação de 22 de Março de 1930 que acabaria por reduzir o ensino primário elementar obrigatório a apenas 3 anos, acabando o escalão complementar por ser extinto em 19 de Setembro de 1932. No entanto, muitas destas medidas eram tomadas mais com fundamentação orçamental do que propriamente pedagógica. E, como os números demonstram, se o ciclo de estudos foi reduzido na extensão, em compensação as matrículas foram aumentando progressivamente. É insuficiente caracterizarmos esta política como de nivelamento por baixo[5], sem que se contraponha que, pesar de tudo, esse nivelamento trouxe para a Escola e alfabetizou muito mais crianças, em termos relativos, do que tinham conseguido a Monarquia e a República no anterior quarto de século.



[1] António Nóvoa (1997), “A «Educação Nacional» (1930-1974): Análise Histórica e Historiográfica” in Agustin Escolano e Rogério Fernandes, eds. (1997), Los Camiños hacia

la Modernidad Educativa en España y Portugal (1800-1975). Zamora: Fundacion Rei Afonso Henriques, p. 177.

[2] Lília Alexandra Xavier Afonso Guedes (1998), Escola Portuguesa (1934.1957): Sobre a Política Educativa do Estado Novo. Braga: Universidade do Minho, Tese de Mestrado em Educação (exemplar policopiado), p. 149.

[3] Leonardo Coimbra (1926), O Problema da Educação Nacional (Tese apresentada ao Congresso da Esquerda Democrática realizado em 1926). Porto: Edição de Maranus, pp. 6-7.

[4] Carvalho (1996), p. 726.

[5] Entre outros, Teodoro (2001). P. 183.

No Ensino Superior anda tudo numa azáfama terrível com a adaptação dos cursos às determinações do acordo de Bolonha, aquele que vai transformar muitas licenciaturas que já eram de qualidade duvidosa, numa espécie de prolongamento do Liceu.

Na minha modestíssima opinião é uma rematada asneira a transformação do Ensino Superior em ciclos de estudos como os agora impostos para grande parte dos Cursos, pois o modelo de 3+2 anos para os dois primeiros ciclos apenas pretende, por um lado, facilitar as estatísticas de conclusão de licenciaturas em prazos de bacharelato e, por outro, incentivar a frequência dos mestrados, com vantagens do lado da cobrança de propinas.

No meu caso, orgulhoso licenciado em História que já achava que muito tinha ficado por saber e fazer em 4 anos na década de 80, agora acho que os planos de estudos das licenciaturas em 3 anos são coisas risíveis, destinadas a produzir diplomados semi-ignorantes (ou pior) na sua área de teórica especialidade, principalmente com a adopção do sistema de creditação em majors e minors que permite que um tipo acabe um curso com a frequência e aproveitamento num grande número de disciplinas, desordenadas, frequentadas sem qualquer exigência de sequência cronológica ou de coerência temática.

Mas claro que isto é para a ralé costumeira das Humanidades e coisas conexas, que os cursos “a sério” não vão nessas brincadeiras, obviamente.

O interessante efeito colateral disto é que, em virtude da redução da população estudantil e dos efeitos devastadores de alguns exames necessários para o acesso, cada vez são mais ou cursos, Faculdades e Universidades, a começar por muitas privadas, “inventadas” entre final dos anos 80 e meados dos anos 90 para sacar uns cobres á populaça que não entrava nas Universidades públicas, a ficar entregues às moscas, melgas e mosquitos, com a natural desnecessidade de muitos docentes, claramente excedentários para a minguante freguesia.

E aí é que muitas aflições andam a afligir gente cada vez mais aflita. Mas esse é outro assunto que merece outro tipo de atenção.

Paulo Guinote

… quando se avança, atropelando tudo e (quase) todos.

«As pessoas perguntam habitualmente: como é que as reformas mudam as escolas? Aqui examinamos o contrário: como as escolas mudam as reformas. Algumas inovações parecem morrer em contacto com a realidade institucional da escola. É rara a reforma que funciona e persiste precisamente de acordo com o plano. Até reformas duradouras não são estáticas mas evoluem de modos nem sempre previstos pelos seus proponentes.»

David Tyack e Larry Cuban (1995), Tinkering Toward Utopia. Cambridge/London: Harvard Univ. Press, p. 60.

E há muito tempo. E nem sequer por causa das medidas agressivas para com os docentes.

Basta observar duas ou três coisas e analisar as constações de forma interligada, a saber:

a) O currículo da Ministra, pobre ou quase nulo em termos académicos ou outros na área específica da Educação.

b) O tipo de equipa ministerial que a rodeia, de onde estão ausentes vultos de peso do PS, que preferem estar fora a “soprar”.

c) A forma desajeitada e nervosa como reage quando interpelada fora de ambientes controlados, não explicando ou argumentando, apenas debitando mensagens curtas e estudadas.

d) A campanha de comunicação feita em seu redor para a proteger pela máquina da maioria, afastando questões incómodas das suas intervenções públicas e criando uma barragem de opinião que pretende dar a ideia de apoio público generalizado.

Paulo Guinote (para a transcrição da intervenção sobre o tema só na edição em papel, pois não há link no site do DN)

 

Ainda teremos verdadeiramente voz?

Ou apenas ouvimos o eco no vazio dos nossos protestos, entre um Ministério que nos reduz à insignificância, um par de sindicatos com alguma dimensão mas meramente reactivos e uma miríade de organizações criadas não sei por quem, porquê e para quê?

Paulo Guinote

«Ao encarar o problema da instrução primária em Portugal, o primeiro facto a considerar é na verdade a massa enorme, de analfabetos que ainda existe e a quási incompressibilidade da sua percentagem através dos últimos sessenta anos. Quais são as causas deste fenómeno?

(…) Estou de acordo em que a falta de recursos materiais de certas famílias tenha sido a causa de muitas crianças não irem à escola. Mas será esta a causa principal do analfabetismo português?
Pobres há-os em todas as nações e tem-os havido em todos os tempos. E não obstante, há nações onde o analfabetismo não existe porque a falta de meios dos pobres é suprida pelas ajudas do Estado e dos particulares. Não é a pobreza de certos particulares, por muitos que sejam, que importa ao analfabetismo de um povo, mas os recursos da nação. Ora é inegável que Portugal teve recursos materiais suficientes para extinguir o analfabetismo, pelo menos desde o início do Fontismo até 1914. Teve-os Portugal, como todas as nações civilizadas da Europa. Em todas elas, com os progressos materiais do século XIX e dos começos do século XX, a população cresceu, o nível da vida subiu, a riqueza pública e a dos particulares aumentou.

(…) Não basta, pois, que haja dinheiro e recursos para ministrar a instrução, porque pode haver esses meios e não serem empregados em abrir escolas; e pode haver escolas e não serem frequentadas.
A escola só será procurada quando a sua utilidade se tornar palpável, imediata. O povo só faz um sacrifício de tempo, dinheiro ou trabalho, quando em troca recebe um benefício de ordem material ou espiritual.»


Pacheco de Amorim in Diário das Sessões da Assembleia Nacional, nº 179, 31 de Março de 1938 p. 612.

 

Do autor do melhor livro que eu li em todos os anos 90 – Angela’s Ashes – a terceira parte das suas memórias, agora sobre a sua experi~encia como professor nas escolas públicas de Nova York.

A não perder. Enquanto não há tradução e a edição inglesa em paperback não sai a custo reduzido, só encomendando nos livreiros associados da Amazon. Fica à volta dos 15 euritos, mas vamos para férias e é aproveitar o subsídio de férias enquanto a Lurdes, o Sócrates e os tipos das Finaças e da Segurança Social não se lembram de mais alguma coisa das boas.

Paulo Guinote

Foi o que Marcelo Rebelo de Sousa fez hoje à Ministra da Educação, sendo de notar que sempre a tinha defendido até aqui, e ao seu Ministério a começar pelo Secretário de Estado “Valter qualquer coisa” [sic].

Outras pérolas: “Esta Ministra era para mim sempre considerada competente, agora, até provar o contrário, considero-a sempre incompetente”. “Dou-lhe um 7 na prova oral“.

Mas isto foram só os acepipes, pois o melhor esteve na destruição do valor jurídico do despacho que manda repetir os exames. Quem perdeu pode ler no DN da próxima 3ª feira.

Paulo Guinote

Retirado de um texto do Abrupto, assinado por Sofia Silveira:

Vi ontem no canal parlamento e em directo, a prestação da Ministra da Educação. Fiquei com a sensação que não é ela quem governa o seu ministério, devendo alguém trabalhar por ela. Como é que por detrás de tantas políticas educativas pode estar uma pessoa que não sabe falar, não compreende o teor das perguntas directas feitas pelos demais intervenientes, engasgando-se, ruborizando, como se fosse uma caloira? Porque é que não responsabiliza o GAVE? Porque é que não demite quem está à frente do referido Gabinete? Isto deixa-nos perceber claramente que existem motivos obscuros que “obrigaram” às conhecidas medidas políticas. Vários exames tinham erros, eram extensos, quem os realizou – os “experts” ao serviço da Ministra, deviam ser devidamente responsabilizados/demitidos.

Pelos vistos há mais quem ache que a senhora está ali para cumprir a missão de sacrífício, para poupar alguém mais destacado do PS, como testa de ferro de uma política que lhe foi previamente servida e da qual ela apenas consegue debitar os títulos e os resumos. E as notícias de hoje sobre a conversa de meia hora que Jorge Coelho terá tido com ela antes da ida ao Parlamento, só faz confirmar as suspeitas que o som que lhe sai da boca é dela mas as palavras nem tanto.

Mas, quando sair da governação, certamente haverá compensação suficiente à espera para quem desempenhou tal papel.

Paulo Guinote

Há uns anos, quando procurava materiais sobre práticas inclusivas na sala de aula e outras coisas com que os professore(a)s se preocupam sem que no Ministério se saiba, dei de frente com este relatório, elaborado para o DEE britânico, uma espécie de Ministério da Educação e Trabalho lá do sítio, porque em certos países as duas coisas são encaradas como se tivessem algo a ver uma com a outra.

Costumes estranhos…

Mas não é isso que interessa aqui. O que interessa é  que este é um daqueles estudos sobre as melhores estratégias para uma eficácia dos docentes na sala de aula, que a maioria dos nossos Cientistas do Eduquês nem querem ouvir falar. Eu deixo-lhes aqui o link para a localização actual do relatório, embora eu tenha feito a “descarga” há anos a partir de outro site, mas não vou deixar de enumerar aqui os nove princípios básicos apontados como fundamentais, numa versão abreviada.

1. Clareza em torno do assunto de cada aula, assim como quanto aos objectivos da escola.

2. Ordem dentro mda sala de aula, onde a disciplina e o comportamento civilizado são mantidos.

3. Um conjunto claro de padrões sobre como os alunos de devem comportar, sublinhando-se objectivos máximos e não mínimos.

4. Justiça e ausência de favoritismo, com as recompensas a corresponderem aos desempenhos.

5. Participação de todos, com oportunidade para os alunos questionarem, trocarem materiais e desenvolverem actividades similares.

6. Apoio aos alunos que tentam novas experiências, para que possam aprender (e não temer) com os erros.

7. Segurança, pois a sala deve ser um ambiente onde os alunos se devem sentir seguros de não serem ameaçados física ou psicologicamente.

8. Interesse, de modo que a sala de aula seja um ambiente estimulante para a aprendizagem.

9. Ambiente, pois a sala deve ser um espaço confortável, bem organizado, limpo e atrativo.

Como é fácil constatar, nos últimos 15 anos ninguém se preocupou em transmitir aos docentes uma mensagem deste tipo e, pelo contrário, fez-se todo o possível para dificultar a aplicação de parâmetros como a ordem e padrões elevados na sala de aula. Para além disso, no discurso actual sobre o “insucesso escolar”, a actual Ministra nunca toma em consideração outros como a segurança e o conforto do ambiente em que decorrem as aulas e apenas apela à quantidade de trabalho e não à qualidade.

Falta de perspectiva, falta de leituras, serão algumas das razões para isso, como excesso de teorias foram a causa de muitos equívocos em outros responsáveis políticos de um desajeitado e comodista Couto dos Santos a uma perniciosa bem-pensante e muito politicamente correcta Ana Benavente, sempre agarrada ás suas auto-avaliações e crenças na bondade natural da criança perante a aprendizagem.

Pelos vistos, há quem pense de outra maneira e, depois de estudar o problema, tenha encontrado outros modelos para garantir o sucesso na sala de aula: clareza, disciplina, rigor, busca da excelência, conforto, segurança.

Alguém ouviu isso na boca de quem sabemos?

Paulo Guinote

 … parece que o “estado de graça” da Ministra da Educação está a dar as últimas e, por fim, a Oposição percebe que as políticas da senhora estão erradas não por este ou por aquele detalhe, mas porque estão conceptualmente assentes em erros e premissas falsas.

Infelizmente, com o discurso da inevitabilidade das mudanças e o atirar para a mesa de gráficos com as taxas de insucesso e abandono escolar, tem ganho a simpatia de quem não se esforço em perceber que a razão dessas taxas radica muitas vezes no que envolve a Escola e em erradas políticas sociais, do que na eventual existência de “furos”. Eu tive-os e, em muitos casos, fizeram-me muito bem.

Mas, vá lá, desta vez, parece que a senhora foi minimamente cilindrada na Comissão Parlamentar, o que em boa verdade seria dse esperar pela sua manifesta impreparação para debater assuntos relativos à Educação.

 Exames – Maria de Lurdes Rodrigues sob fogo no Parlamento
Ministra reprova (Correio da Manhã)

À saída do debate de urgência agendado pelo PSD para debater “as falhas e erros cometidos pelo Ministério da Educação na realização dos exames nacionais”, a ministra da Educação não conteve o desabafo: “Estou tão cansada…”, disse à saída do hemiciclo, onde durante duas horas esteve sob o fogo cerrado da oposição.

Cada vez me convenço mais que, exactamente por pouco perceber do assunto, a dita Ministra foi colocada no lugar para, alimentando-a com teorias de que ela desconhece a origem e articulação, ela se sentir uma paladina da justiça e do rigor, assim fazendo papel de mártir, mesmo sendo “queimada” no processo e poupando esse sacrifício a qualquer figura de relevo do PS.

Quando em situação de debate aberto e sem defesas artificiais, sem a protecção de boa parte da comunicação social, a senhora vai-se abaixo e não consegue articular mais do que a cassete que lhe prepararam.

Fica aqui apenas uma amostra dos mimos que recebeu e que, em boa verdade, apenas padeceram pela escassez e pela falta de profundidade em questões que ultrapassassem estes meros “equívocos” na questão dos exames.

 - “A ministra não tem dignidade intelectual para reconhecer os erros.” Luísa Mesquita, PCP

- Não havia tanta trapalhada desde o Governo do dr. Santana Lopes.” idem

- “Reconheça o erro, peça desculpa e diga que vai apurar responsabilidades.” Pedro Duarte, PSD

- “Hoje, a sua sorte neste Parlamento é que tem 1.ª, 2.ª, 3.ª e 4.ª chamadas. E nesta primeira chamada foi redondamente chumbada.” Emídio Guerreiro, PSD

- “Olhar para as situações destes alunos em desigualdade é uma das decisões mais nobres da política. Mais fácil teria sido ignorar.” Maria de Lurdes Rodrigues, ministra

- “Eu nunca li nem lerei nenhuma prova de exame antes da sua realização.” idem

- “Em que país vive a senhora ministra? Não vê o pandemónio em que está este País? Exceptuando a claque do PS, não se sente isolada?” Agostinho Branquinho, PSD

- “Não vale a pena estar com sentimentos de vítima.” Alda Macedo, BE

- “Foi preciso o ministro dos Assuntos Parlamentares sair aos gritos em socorro de uma ministra que manifestou insegurança, nervosismo e incapacidade para dar explicações cabais aos portugueses.”Pedro Duarte, PSD

Luís Afonso, Bartoon no Público de hoje, dia em que se soube que os dados disponíveis no site do ME sobre os exames do ano passado estão todos gralhados e em que a senhora Ministra finalmente vai ao Parlamento explicar o que tem a explicar após Jorge Coelho ter dado as suas ordens ontem, via Quadratura do Círculo, para que o PS cerre fileiras em torno da senhora, no matter what…

«As crianças vão para a escola como um castigo e os pais lamentam o tempo que elas lá perdem. E têm razão.Que vão lá aprender? A ler, a escrever e a contar, quasi sempre mal e com um esforço que valorisa no seu espírito essas aquisições muito além da realidade. A sciencia adquirida da~lhes o desprezo pelos trabalhos do campo, conforme seus pais o praticam e para os quais os novos conhecimentos são inuteis. Sabendo ler e escrever, nascem-lhes ambições: querem ir para o Brasil. Aprenderam a lêr! Que lêem? Relações de crimes; noções erradas de política; livros maus; folhetos de propaganda subversiva.Que vantagens foram buscar á escola? Nenhumas. Nada ganharam. Perderam tudo.» (Século, 5 de Fevereiro de 1927, 1) 

O texto de Virgínia de Castro e Almeida, autora de renome e outrora associada a algumas reivindicações feministas, de que é extraída esta conhecida passagem é publicado nas páginas do Século no ano de 1927, é uma das leituras mais desencantadas do período pós-republicano sobre o papel e as potencialidades da Educação. Perante o que se entendia como o mau estado das instalações escolares, a falta de professores(as) competentes, a aparente oscilação nos valores morais e éticos transmitidos pela Escola, parece defender-se um regresso a uma ruralidade iletrada, misto de pureza primordial e de reserva moral de um povo que se afirmava estar a atravessar a História sem um rumo definido.

Para diversos autores que analisaram diferentes aspectos da política portuguesa do período da Ditadura Militar e dos primórdios do Estado Novo, este é apenas mais um de muitos exemplos da existência de um forte movimento conservador na sociedade portuguesa que iria conduzir, de forma mais ou menos directa, à solução governativa autoritária protagonizada por Salazar e, na área da Educação, por aquilo que é apresentado como um enorme retrocesso na forma como era encarada a Escola e a sua função social. A política educativa do Estado Novo nos anos 30 é assim vista como uma fase negra na História da Educação em Portugal, de abandono da Educação como prioridade da acção executiva e de desqualificação do ensino elementar obrigatório, desde o seu encurtamento para apenas três anos até à menorização do pessoal docente, visto a partir de então como mero executor dócil e acrítico de um projecto educativo que visava fundamentalmente a doutrinação ideológica e o apaziguamento da sociedade.  

Há cerca de três décadas que a caracterização da política educativa do Estado Novo pouco avançou ou mudou nos seus traços fundamentais. É um assunto que parece História feita e quase encerrada, apenas se indo acrescentando mais uma ou outra peça ao quebra-cabeças quem já não o é, pois os seus contornos e figura final já são por demais conhecidos.Cada novo estudo que surge vem encaixar-se numa lógica há muito definida e faz os possíveis por, mesmo que traga novos elementos ao conhecimento público, os arrumar no esquema pré-existente, não contestando as premissas essenciais.

Confesso que este não é um panorama que me agrade particularmente, pois o remanso das verdades adquiridas induz ao conformismo intelectual e ao esvaziamento de boa parte do trabalho do historiador, sendo tanto mais de espantar quanto surja em meios intelectuais que prezam o questionamento do valor absoluto do conhecimento ou que ergam a problematização como valor essencial de qualquer trabalho de investigação científica.Fica então desde já esclarecido que aqui, não sendo necessário muito mais do que apenas reler os dados disponíveis e usados por outros autores, se perspectiva a acção educativa do Estado Novo (porque a Ditadura Militar foi como que um momento de mero impasse a este nível) não como uma verdadeira ruptura com as práticas anteriores, no seu sentido amplo, mas apenas com algumas das práticas da educação republicana, num sentido mais restrito, sendo que, numa panorâmica de padrões de conduta de longa duração, o que o Estado Novo faz é retomar o comportamento habitual em todos os novos regimes que se tentam instalar no Poder e adaptar aos seus objectivos os instrumentos ideológicos do Estado, no sentido de obter a maior adesão possível dos cidadãos.

Paulo Guinote

… que alguém faz notar à excelsa senhora Ministra da Educação que há obrigações mínimas a cumprir e que pelo menos deve ir ao Parlamento explicar o inexplicável.

No Público de hoje vem noticiário variado (e até um espaço para propor pergunta à Ministra) sobre o desempenho da senhora e as incongruências em torno da repetição dos exames de Física e Química, em especial o facto de no exame de História a queda nos resultados ter sido superior à de Física e ninguém parecer estar muito incomodado com isso. A Associação dos Professores de História talvez pudesse não estar já de férias e tomar um pouco de atenção a isso, pois as suas congéneres de Física e Matemática, por exemplo, andam bem activas. Eu sei que na APH até são simpáticos comigo, mas isso não vem ao caso.

A verdade é que a decisão, casuística, assinada pelo Secretário de Estado Valter Lemos, é perfeitamente abstrusa e carente de fundamentação coerente, lacuna que acho que a senhora Ministra dificilmente conseguirá eliminar.

Entretanto, no Barreiro, e como seria de esperar, primeiro foi feita uma prelecção aos peixinhos e depois, à porta fechada só para militantes, é que houve “debate”. Ainda bem que não perdi o meu tempo, pois já tinha percebido que a manobra era “animar as hostes” socialistas e não esclarecer a populaça.

Paulo Guinote 

Sou professor há quase duas décadas, embora com algumas interrupções por esta ou aquela razão. De qualquer maneira, tenho uns 15 anos de experiência na elaboração de diversos materiais de avaliação e conheço a generalidade dos exames que nos últimos anos têm sido feitos.

Não me parecem coisa especialmente difícil de elaborar, desde que as pessoas envolvidas reunam as condições mínimas essenciais para os conceber, ou seja, conhecimento da matéria científica em causa, conhecimentos pedagógicos práticos da sua leccionação, capacidade comprovada de produção de materiais de avaliação sem erros.

Por isso, parece-me inconcebível que todos os anos, equipas de docentes (ao que se diz, incluindo mesmo os autores dos programas curriculares) produzam sistematicamente exames com erros, por vezes grosseiros, de tipo científico ou de exequibilidade da prova nas condições dadas.

Só posso compreender isso se alguma das condições acima elencadas não estiver presente nessas “equipas”: ou os seus elementos percebem pouco da matéria científica em causa, ou não têm experiência pedagógica de leccionação dos conteúdos programáticos a avaliar ou da concepção de materiais de avaliação ou exames têm uma visão livresca e mais ligada à teoria da avaliação do que à sua vertente prática.

E, nesse caso, os erros cometidos, são da responsabilidade tanto dos seus protagonistas directos como de quem os escolheu para tal função.

E isso é que seria interessante saber: como certos “especialistas” chegaram onde chegaram, como e pela mão de quem.

Paulo Guinote

A nossa simpática e cordata Ministra da Educação tem destas coisas. É vê-la activa e frenética sempre que é preciso desancar na classe docente, mas quando se trata de abordar outras questões da actualidade, cala-se, acaramunha ou manda dizer por outrem.

O caso dos exames de 12º ano é apenas mais um daqueles em que a Ministra devia assumir responsabilidades políticas, não necessariamente pelo insucesso dos alunos, mas pela aparente barracada que se deu – de novo – na preparação dos ditos exames e, depois, na maneira atrapalhada como se está a tentar branquear o descalabro de alguns resultados.

Como a matéria é pouco favorável e atreita a mal-entendidos a Ministra comunica por nota de imprensa (repetição dos exames de Física e Química) ou por via de uma funcionária superior (a “explicação” possível para os resultados), mas ela própria não dá a cara. Percebe-se em quem só gosta de aparecer bem na fotografia e em quem tem tido boa imprensa que a não questiona a sério sobre nada e quase todos os seus equívocos faz por esquecer.

Mas neste caso particular, o que fica é uma Ministra apenas interessada em aparecer como justiceira “rigorosa”, com os ventos a enfunarem-me as velas, mas incapaz de assumir uma decisão política extremamente controversa, que até opinadores que lhe têm sido devotados (Marcelo Rebelo de Sousa e António Vitorino, para ficarmos por um par da televisão pública) não têm pejo em considerar muito discutível.

É verdade que explicar o insucesso nos exames não é função da Ministra, mas já o seria explicar o porquê de duas repetições selectivas, muito selectivas mesmo. Só que isso implicaria exposição e demonstração de uma capacidade de argumentação fora do seu esquema habitual, que a actual titular da pasta não revela ter pois, sejamos claros, do sector só tem ideias muito gerais e uma preparação técnica diminuta ou nula que mais de um ano ainda não conseguiu nelhorar razoavelmente. Isto para não falar numa perturbante dificuldade em lidar com críticas e confrontações duras e directas.

Temos, portanto, apenas o silêncio.

Devemos temer, infelizmente, quando voltar a falar.

Paulo Guinote

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