Janeiro 2006


0 – Confissão

«O cinismo consiste em ver as coisas tal como elas são e não tal como elas devem ser.» (Bernard Shaw)

«Todos conhecem, com certeza, a história do soldado que descobriu que todo o seu batalhão (excepto ele, é claro) estava com o passo trocado. Dou comigo constantemente nessa posição divertida. E tenho muita sorte, pois, regra geral, alguns dos outros membros do batalhão estão dispostos a acertar o passo. Isto aumenta a confusão; e, como não sou um admirador da disciplina filosófica, fico satisfeito enquanto suficientes membros do batalçhão estão com o passo suficientemente trocado em relação aos outros.» (Karl Popper, O Realismo e o Objectivo da Ciência. Lisboa: D. Quixote, 1987, p. 41)

Quando um mero candidato a aprendiz de oficial de um nobre ofício, como a História inegavelmente o é, se aventura a discorrer sobre a essência do dito, sobre aqueles que a si próprios e entre si se acham/reconhecem, de pleno direito, primeiros oficiais ou (já agora, porque não ?) mestres do mesmo e ainda sobre o estado geral e qualidades de um e outros, deve-se-lhe, antes de qualquer outra coisa que acaso nos ocorra ao espírito, recomendar com a maior firmeza três coisas, a apresentar por ordem decrescente de prioridade:

Em primeiro lugar, que desista do intento ou que mude de temática (de preferência, que se dedique a estudar os evidentes testemunhos da influência do elkemento mental residual suevo no projecto de colonização portuguesa do Tibete nos mjeses de Janeiro a Junho de 1526 – isto no caso do lapso de tempo se não revelar excessivamente ambicioso). É mais prático, mais natural, de maior interesse cienbtífico-académico e, fundamentalmente, MUITO mais seguro.

Em segundo, caso insista,a conselha-se o inconsciente a que proceda com prudência, cautela, discrição, apagamento, circunspecção, conformismo e quietude q.b., que lhe permitam passar o mais despercebido possível, para que ninguém dê por nada, se possível que o público adormeça disfarçadamente, durante a exposição, quer oral, quer escrita, e assim possa vir a ser assegurada a sua futura sobrevivência no meio, onde o receberão como um dos deles.

Na remota e desgraçada eventualidade de o infeliz manter inabaláveis as suas convicções, diga-se-lhe, o mais singela e brevemente possível (por forma que ninguém repare que com ele, alguma vez, mantivemos contactos pessoais), que se inscreva com rapidez num qualquer curso de formação profissional subsidiado, de preferência para desempregados de longa duração (servindo à medida o de verificador de rebites), se quer, por qualquer meio, assegurar a sua subsistência.

Em seguida, afastemo-nos do local e esqueçamos tudo.

É melhor, para o nosso próprio bem.

É que nem todos têm a sorte de se chamar Popper (Karl).

E lembremo-nos que já um senhor, há pelo menos 200 anos, dizia que:

«…não será natural que as pessoas privadas de um fundo de virtude tão grande que lhes permita colocar-se acima das reflexões resultantes de tão tristes circunstãncias, não será natural, dizia, pensarem que mais vale abandonarem-se à torrente do que resistir-lhe, dizerem que a virtude, por muito bela que seja, quando, infelizmente, não tem forças para se opôr ao vício, se transforma no pior partido que se pode tomar e que, num século inteiramente corrompido, o mais seguro é proceder como os outros ?» (Marquês de Sade, Os Infortúnios da Virtude. Lisboa: Minerva, 1973, p. 47)

Já fui algumas vezes alvo de práticas censórias mais ou menos declaradas, mas a primeira vez que me censuraram toda uma comunicação nas actas de um colóquio, foi por ocasião da puyblicação das actas do 1º Encontro sobre o Ensino da História, ou algo com um nome parecido, que se realizou em finais de 1989, nas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian, e tinha como presidente o intocável professor José Mattoso.

Do texto em si, guardo uma impressão na minha velha Seikosha, de agulhas, que já nem o título original da comunicação guarda, o que é partilhado pela minha memória em evidente regressão.

Apenas para satisfação retardada do meu ego, aqui irá ficando, conforme a disponibilidade de tempo, a transcrição desse texto que, em 1990, motivou uma algo azeda troca de missivas com o dito professor que, claro, alegou não ter sido responsável pela eliminação da comunicação das actas, tendo-se ficado isso a dever aos sacramentais “problemas técnicos”.

Enfim, todos os ídolos têm pés de barro e este, ao que parece, por vezes até andava descalço.

Paulo Guinote

O

Os professores têm andado em bolandas, atirados daqui para ali, desrespeitados e mal pagos, obrigados a fazer o que o seu Estatuto profissional não prevê, mal defendidos pelos seus sindicatos e apresentados como os maus da fita à opinião pública.

Mas, de repente, surgem revistas em sua aparente defesa, dando-lhes algum espaço para as suas palavras.

O problema é que, se formos á ficha técnica, estas revistas são dominadas pelas duas grandes editoras de manuais do mercado (Porto e Texto).

E, minhas amigas e meus amigos, não há revistas que fiquem de borla.

Paulo Guinote

«A opinião popular educada, é a mais segura fiança de estabilidade para os bons governos e de felicitação pública. Por ella, se operará no interesse commum, o que aliás ficaria circumscripto á limitada esphera das conveniencias individuaes.(…)Portugal, abraçado com a industria agricola e fabril e empenhado nos melhoramentos materiaes, vae construindo de boa fé, sem attentar seriamente para a solidez dos alicerces. Quanto mais arrojada se lhes estiver affigurando a projecção que delineou, mais proxxima da sua ruina lhe andará a grandeza da edificação. O desenvolvimento publico, que espera do plano de reformas que traçou, será quasi uma chimera, em quanto não disposer rasgada e francamente os caminhos da illustração popular. Pouco lhe amadurecerá o futuro, em quanto não emmendar os erros que lhe legou o passado, fazendo caminhar juntos os interesses intellectuaes com os materiaes do paiz.»

(Revista da Instrucção Publica para Portugal e Brazil, nº 1, 1 de Julho de 1857, p. 1, edição de António Feliciano de Castilho e Luiz Filippe Leite)

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