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DJ Cassidy, Robin Thicke e Jessie J., Calling All Hearts

A propósito do quotidiano na sala de aula

Recentemente evidenciou-se no turbilhão mediático diário, a noticia da publicação de um livro sobre o quotidiano na sala de aula, publicado pela Fundação Manuel dos Santos (que convém lembrar que é financiada pelo Alexandre Soares dos Santos, patrão do grupo Jerónimo Martins, vulgo Pingo Doce…). Essa publicação até gerou um contencioso intelectual entre a autora do livro, uma professora universitária (Maria Filomena Mónica) e um professor(zeco) do ensino básico, comentador no jornal Público e bloguista (Paulo Guinote). As entrevistas da autora sobre o tema do livro desiludiram-me porque a sua forma de expressão resvalou para alguma brejeirice e populismo, com generalizações falaciosas tipicas de ‘conversas à mesa do restaurante’; numa professora universitária, esperava uma argumentação sólida, cientifica e rigorosa. No que respeita ao conteúdo do livro, é algo banal para os professores e recorrente há muitos anos, de modo que é integralmente veridico; contudo, as intenções da autora serão contraproducentes porque esse conteúdo pode ser utilizado de forma perversa pelo poder politico para justificar a diminuição ou extinção do serviço público de educação.

Efetivamente, um problema central no processo de ensino-aprendizagem, é a indisciplina dentro da sala de aula, evidenciada por variados tipos de comportamento- conversas entre vários alunos que são barulhentas, brincadeiras entre os alunos, uso de tecnologias ignorando as atividades letivas, atitude passiva dos alunos que ignoram o trabalho do professor, violência, etc.- que demonstram o desinteresse do jovem pela função da escola; as causas desses comportamentos são variadas: genéticas, fisiológicas, sócio-económicas, psico-emocionais, familiares. Todavia, este problema sempre existiu, noutros contextos históricos e pedagógicos, pois também os nossos avós e bisavós contam histórias dos jovens que fugiam para não ir para as aulas, que eram levados ‘pelas orelhas’ para a aula, etc.. Portanto, a diferença está no agravamento em quantidade e qualidade dos comportamentos perturbadores, que também começaram a surgir no ensino universitário, de acordo com as mais recentes declarações de professores de várias universidades do país.

Considero que a mudança do paradigma sócio-económico e tecnológico teve uma função fundamental no despoletar do incremento dos comportamentos desviantes e indisciplinados: a implemetação de um modelo em que o cidadão é primordialmente consumidor e que a sua satisfação pessoal é o objetivo estratégico das instituições. Deste modo, cria-se um produto e apresenta-se ao consumidor; se lhe agrada, aumenta-se a produção e se não lhe agrada, elimina-se e inventa-se outro produto que o satisfaça, e é mantido até o consumidor se saturar passando então para uma nova invenção, gerando um processo ad eternum. O consumidor é um agente passivo, que se limita monarquicamente a escolher e a rejeitar o que lhe é apresentado, sem a minima preocupação de iniciativa individual da busca do que lhe é necessário. Conhecendo a propensão genética humana para o hedonismo, esse paradigma é ampliado no ambiente lúdico e do entretenimento, gerando atualmente áreas de negócio de milhões de euros.

Foi este paradigma que foi transportado para dentro da sala de aula, já que a escola é parte integrante da sociedade e reflete inevitavelmente a sua estrutura. Durante anos existiu um desfasamento entre a organização social (no jargão pedagógico denominada escola paralela) e o sistema educativo, nomeadamente ao nivel tecnológico; a evolução das telecomunicações, tecnologias audio e video, criaram ambientes mais hedonistas na sociedade do que no ambiente escolar, que não acompanhou essa evolução. Por isso, eu defendia a tese de que a implementação tecnológica na escola iria colmatar esse desfasamento e finalmente aumentar o interesse e motivação juvenil (e consequente disciplina) no ambiente escolar. Em determinado momento, surgiu um grupo de decisores que enveredou por essa implemetação, apetrechando a escola com os equipamentos que também existiam na sociedade (computadores, projetores multimedia, quadros interativos, audiovisual, etc.); contudo, após alguns anos, verifiquei o quanto errada estava essa tese, porque o desinterese e desmotivação juvenil (e consequente indisciplina) no ambiente escolar continuava a grassar. E foi então que se fez luz na minha mente: o problema não estava na logística mas…no conteúdo!…

A função da escola é incompativel com o paradigma do cidadão-consumidor, pois o professor não pode estar em permanente construção de produtos até agradar ao público juvenil diverso que serve, porque a escola não produz mercadorias mas disponibiliza conhecimento e ensina a obter competências cientificas, linguisticas e de expressão. Por isso, mesmo tendo os equipamentos tecnológicos idênticos aos que são usados pelos cidadãos, os conteúdos que a escola utiliza nesses equipamentos não interessam ao público juvenil, porque não são eminentemente hedonistas, lúdicos e de entretenimento. No passado surgiram decisores que enveredaram pela implementação do modelo pedagógico ‘aprender brincando’ para emular o paradigma do cidadão-consumidor na sala de aula; os resultados desse modelo estão evidenciados pelas estatisticas, pois foi tentar que um elefante aceitasse dormir numa casota de cão…

Todos os profissionais da educação experientes sabem que os alunos gostam da escola mas não gostam das aulas porque encaram a escola como um local que proporciona os espaços para o convivio, relações de amizade, entretenimento e lúdico, contrariamente ao espaço sala de aula. O sistema educativo foi criado para certificar perante a sociedade, que os cidadãos obtiveram um conjunto de conhecimentos e competências que os capacitam como contribuintes para o funcionamento dessa sociedade; os conteúdos que a escola apresenta para que sejam obtidas essas competências, não têm a estrutura hedonista e lúdica que é desejada pela mente humana juvenil, exposta desde a infância a esse hedonismo e entretenimento, pelo que se vai inevitavelmente gerar um conflito de interesses, e consequentemente, comportamentos indisciplinados e desviantes.

Consequentemente, o desafio (utópico?) da escola é inventar um método pedagógico e didático que aplique os conteúdos cientificos e linguisticos que os programas curriculares consignam como fundamentais na formação do individuo, de modo a permitir que os jovens obtenham as competências necessárias, de forma hedonista e lúdica, para exercerem as suas funções de cidadãos, e que seja imune a todas as interferências (contexto familiar, sócio-económico, genético, fisiológico, psico-emotivo) do processo de ensino-aprendizagem.

Mário Silva

Como na imagem, primeiro deve ser o do Damásio, para perceber como o nosso cérebro funciona e como somos conscientes dele e de tudo o que nos rodeia. O do Stossel é muito bom para acompanhar o caso de um cérebro em que os circuitos começam a baralhar-se muito cedo.

Ler para aprender é um prazer sempre renovado.

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… não me importava nada de deixar uns pontos aos belééénnnss na luta pela sobrevivência.

E sempre se prolongava a esperançosa agonia portista.

Leiam os livros antes de citarem automaticamente coisas giras, que nem sabem onde ou quando foram ditas ou escritas.

Muito me divertem as piruetas dos politólogos de trazer por casa. Quem defendia a legitimidade revolucionária do povo ucraniano pós-europeu está contra a legitimidade do povo ucraniano pró-russo.

E vice-versa.

Só falta mesmo ir para lá alguém distribuir bandeirinhas da URSS.

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